terça-feira, 15 de março de 2011
Justiça Conforme a Lei
O que estou lendo?
Justiça Conforme a Lei
(Justice According to Law)
Autor: Roscoe Pound
Tradução de E. Jacy Monteiro
98 páginas
Editora – Ibrasa - Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A.
O mestre da jurisprudência norte-americana resume nestas páginas alguns dos pontos principais das opiniões que professa sobre o Direito. Pondera as grandes indagações que os homens têm formulado durante séculos: que é Justiça? que é Lei? que é Justiça Judiciária? – Indagações que se acentuaram durante os últimos anos devido à crítica violenta aos tribunais e à introdução de órgãos quase-judiciais como elementos administrativos.
Pound acredita na Lei conforme ministrada por juízes. Julga-a superior às decisões de órgãos substitutos, sujeitos a maior variedade de pressões do que os tribunais, e explica como e por que chegou a essas conclusões. Este volume baseia-se nas Preleções da Fundação Green, pronunciadas por Roscoe Pound, no Colégio de Westminster, em 1950. Roscoe Pound foi dirigente executivo da Faculdade de Direito de Harvard.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Quem foi o poeta Annibal Theóphilo?
Debate
Quem foi Annibal Theóphilo
Arnaldo da Silva Rodrigues
Exposição de Motivos
Reflexões
| Barbosa Lima Sobrinho |
Que direito nos assiste, agora, com os resultados de longos anos de pesquisas, com comprovações documentadas, recolhidas em entrevistas e estudos nos arquivos, bibliotecas e academias, com meia centena de depoimentos históricos – longos depoimentos – de contemporâneos de Annibal Theóphilo, datados e assinados, mais as respostas ao nosso questionário encaminhadas à Academia Brasileira de Letras, que mereceu a consideração daquelas que honram a posição de representantes da cultura brasileira, como Barbosa Lima Sobrinho, Levi Carneiro, Ribeiro Couto, Ivan Lins, Olegário Mariano, Maurício de Medeiros, Clementino Fraga, Gustavo Barroso, Álvaro Moreira, Rodrigo Otávio Filho e Augusto Meyer. Todos eles reconheceram o legítimo direito e dever do historiador-pesquisador expor os fatos à luz da razão. Vale, ainda ressaltar que os processos contra nós, que insistiam na nossa punição e na intenção de impedir a publicação do livro sobre a vida do poeta Annibal Theophilo, foram recusados pela Justiça. Tivemos o reconhecimento da autenticidade do nosso propósito honesto, que nos animava de fazer história. Até a mais Alta Corte conferiu-nos o direito que tanto necessitávamos: “Observo que o notificado não fez nenhuma crítica à decisão do Tribunal que julgou o homicídio ...” “É evidente a ausência do animus difamandi, injuriandi e Caluniandi...” “Há animus narrandi, exclusivamente...” “Movido pelo sentido da pesquisa histórica, sem qualquer sentimento de revanchismo...” “Os juízos e conceitos que, porventura, desfavoráveis à memória de Gilberto Amado foram colhidos em jornais, revistas e obras que exaustivamente mostrou em extensa bibliografia.”, tudo como contido nas folhas do processo.
Agora, a nossa posição há de invalidar, por completo, a intenção malévola dos nossos oponentes – memorialistas que gratuitamente tentam desfigurar e enxovalhar a honra e a memória daquele que nunca poderia ser colocado pelos seus detratores como um ser desprezível perante a História. A alentada documentação que tínhamos conquistado, ao longo do tempo, deveria nos proteger ao refutar a truculência verbal nos tortuosos caminhos do rancor. As memórias publicadas nos livros Minha Vida na Política (Terrível Prova), Rio de Janeiro do Meu Tempo e Olavo Bilac e sua Obra não trazem jamais uma comprovação, um testemunho que pudesse justificar suas intenções demolidoras. Parecia um ardil arquitetado para proteger Gilberto Amado e acusar a sua vítima como algoz do crime que abalou a sociedade cultural do Brasil num fim de festa literária, em 1915.
| Gilberto Amado |
| Raimundo Magalhães Jr |
| Sobral Pinto |
Ouvimos o protesto veemente do doutor Sobral Pinto, que viveu aqueles momentos da história, conhecedor do episódio nos seus meandros e detalhes: “O poeta tinha valor no seio da literatura brasileira, tinha fama de homem honesto e digno. E a imagem pintada por Gilberto Amado não é confirmada pela história”. Agora podemos perguntar: quem foi Annibal Theophilo? Muitas vozes serão ouvidas nas linhas que se seguem, vozes consoantes com a nossa intenção de conquistar a verdade. Carlos Drummond de Andrade revela-nos: “o poeta fora uma pessoa amada de todos”. Emílio de Menezes: “O enterro de Annibal Theóphilo foi uma apoteose. Ninguém faltou. Nunca houve no Rio e Janeiro um movimento de solidariedade como esse”.
| Carlos Drummond de Andrade |
No Rio de Janeiro, convocam o poeta para por em prática sua capacidade mnemônica, declamando Petrarca, Camões, a elite dos poetas franceses, os nossos parnasianos e simbolistas. Bem jovem, em Porto Alegre, já se sentia muito à vontade na sua vocação. Como cadete em Fortaleza e em Manaus merecia o aplauso da sociedade. O acadêmico Péricles Moraes dizia: “A elegância irrepreensível de sua dicção, sabia dizer como ninguém. Não havia mais enlevo do que ouvi-lo nesses minutos de embevecimento. Sabia de cor poemas inteiros, sem vacilar nunca”. A imprensa da capital da República reproduzia seus poemas ilustrados por Kalisto Cordeiro, J. Carlos, Raul Pederneiras, especialmente nas revistas Fon-Fon e Careta. O poeta publicou no Porto e trouxe-nos os exemplares de Rimas – Musa Erradia – Folhas de um Poema, autografados para os amigos escritores, jornalistas, artistas, com os quais mantinha, quando vivo, um relacionamento fraterno. É preciso que se questione os autores que torcem os fatos históricos nas suas infamantes memórias, que não acreditavam ser possível que a verdade aflorasse depois de tantos anos. Criaram a sua versão para iludir a opinião pública, maculando aquele que foi vítima de um crime perpetrado ao fim de uma festa literária.
(*) – Justificativas do autor de “Vida e Obra de Annibal Theóphilo – Triste Fim de um Poeta Assassinado”, de Arnaldo Rodrigues, reproduzido, com revisão, do site: http://www.livrovirtual.com/LivroVirtual/?categoria=livro&livro=7D398.
(**) Nova postagem no próximo dia 22 de março de 2011, onde continuaremos a publicar a versão do autor do assassinato do poeta Annibal Theóphilo.
(***) Veja, também, neste blog, o crime do poeta Annibal Theóphilo, em 1915, no Rio de Janeiro e o julgamento do autor do crime, Gilberto Amado, na versão do escritor Acrísio Torres.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Pagu, a musa do modernismo
Grandes Personagens
PAGU
Olhos moles, alma forte
Natália Pesciotta



Ela tem lugar garantido na lista das figuras femininas mais importantes do século
passado. De aparência e personalidade marcantes, era “a nova mulher brasileira”,
segundo o poeta Augusto de Campos. Além de causar burburinho entre o grupo dos
modernistas, do qual foi proclamada musa, entregou-se à vida de corpo e alma.
passado. De aparência e personalidade marcantes, era “a nova mulher brasileira”,
segundo o poeta Augusto de Campos. Além de causar burburinho entre o grupo dos
modernistas, do qual foi proclamada musa, entregou-se à vida de corpo e alma.
Enquanto artistas e intelectuais proclamavam o Modernismo brasileiro, Patrícia Galvão era apenas uma garota de 12 anos. É verdade que já fugia dos padrões do lugar em que vivia ao falar palavrões, usar transparências e cabelos eriçados. Mas, apesar de não muito longe do bairro industrial do Brás, a Semana de Arte Moderna de 1922 acontecia alheia à menina de olhar distante. Seis anos se passariam até que ela estivesse entre eles. A defesa então era pela Antropofagia: que a cultura brasileira não ficasse isolada, abandonada ao tempo, mas continuasse se renovando com as influências estrangeiras. A normalista que enchia cadernos de escritos e publicava artigos no jornal do bairro foi apresentada ao grupo pelo poeta Raul Bopp. E logo apadrinhada pelo casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Moça firme dos olhos caídos, lábios pintados de batom escuro, quase roxo, tornou-se musa do movimento. Pagu tem os olhos moles / uns olhos de fazer doer / Bate-coco quando passa / Coração pega a bater / Eh Pague eh! / Dói porque é bom fazer doer, escreveu Bopp. O poeta usou a alcunha Pagu por achar que a moça deveria adotar como nome artístico a primeira sílaba do nome e do sobrenome – ignorando o fato de ela se chamar Patrícia Galvão, e não Patrícia Goulart… Mas o fato é que Pagu ficou. E ela acabou casando-se com Oswald, 20 anos mais velho, que se separou de Tarsila. Para agravar o caso já controverso para a sociedade de 1930, celebraram a união em frente aos túmulos da família do noivo, no cemitério da Consolação. No mesmo ano, nasceu o filho do casal, Rudá de Andrade.
Nova mulher brasileira
Pagu e Oswald de Andrade
A marca como mulher forte e desejada, no entanto, não é o único nem o maior trunfo de Pagu. Ela fez história própria e foi das principais figuras femininas do século passado. Não à toa, Rita Lee e Zélia Duncan dedicaram a ela uma canção: Não sou atriz, modelo ou dançarina / Meu buraco é mais em cima / Sou rainha do meu tanque / Sou Pagu indignada no palanque. O poeta Augusto de Campos, seu biógrafo, a anuncia como símbolo da “nova mulher brasileira, sensível, politizada, desreprimida”. E reconhece que seu valor como personagem é maior do que sua obra: “A peripécia política, poética e existencial é que faz dela uma figura fascinante. Pagu foi revolucionária na política, na arte e na prática da vida”. Ela fez de tudo um pouco. A maior parte da obra está espalhada por artigos de jornal. Produziu críticas literárias e traduziu autores como James Joyce, inédito na época. Depois que morreu, em 12 de dezembro de 1962, os filhos descobriram até histórias policiais criadas por ela, assinadas com pseudônimos e publicadas por Nelson Rodrigues.
Pavio aceso
No movimento Antropofágico, de 1928, Pagu colaborou com artigos e desenhos, além de escrever com Oswald o caderno O Romance da Época Anarquista ou As Horas de Pagu que São Minhas. O casal ainda redigia A Hora do Povo, um jornal panfletário, depois de aderir ao Partido Comunista. Um encontro com Luís Carlos Prestes, nesse período, mudaria radicalmente a vida da recém-casada. Pagu era um pavio esperando algo que a acendesse, e ali estava a fórmula: “Convicção, grandiosidade do sacrifício e, principalmente, pureza”, dizia o líder comunista. A musa modernista já não aturava mais as rodas de comunistas nos cafés. Queria agir de verdade, entre o povo, e se colocou à disposição do Partido. Em um comício em Santos, foi presa pela primeira vez – ao longo da vida, seria detida 23 vezes. No Rio de Janeiro, trabalhou como operária em situação de miséria, com posição de destaque entre os líderes comunistas das fábricas. Apesar da recusa do Partido por qualquer tipo de trabalho intelectual, escreveu nesse período sua maior obra literária. Parque Industrial (1933) é um romance urbano, marxista e feminista. Retrata de forma crua a vida dos operários, sem esconder a linguagem do povo e a sexualidade. Quem assina, por ordens partidárias, é o pseudônimo Mara Lobo. Depois de abandonar a condição de musa modernista, trabalhou como operária, foi líder trabalhista, escreveu um romance marxista e feminista. Foi presa 23 vezes.
Retalhos de azul

Uma menina esfarrapada, na praça Vermelha, em Moscou, pedia esmola ao lado do túmulo de Lênin. A cena abalou as convicções de Pagu, mas ela seguiu viagem. Trabalhava como correspondente no Oriente de vários jornais brasileiros. Foi a única latina presente na coroação do último imperador japonês. Por sua amizade com ele, conseguiu trazer soja para ser plantada no Brasil. Ao atuar pelo PC na França, acabou expatriada. Passou então pela prisão mais longa, de cinco anos, naquele tempo de Estado Novo. A Famosa Revista, segundo e último romance de Pagu, deixa clara a mudança na vida dela. Em 1945, já separada de Oswald e casada há cinco anos com o jornalista Geraldo Ferraz, escreve com ele o que representa a nova crença. Candidata a deputada pelo Partido Socialista Brasileiro, anuncia: “Depois das rajadas de tempestade, colaremos nas retinas úmidas os últimos retalhos de azul”. Viveu os últimos anos em Santos, adorando o mar e agitando a cultura da cidade. O foco agora era o teatro. Levou para os palcos do litoral paulista gente como Plínio Marcos, Sérgio Mamberti e Zé Celso Martinez Corrêa. Até o fim, era a Pagu que ela mesma havia definido uma vez: “Mulher de ferro com zonas erógenas e aparelho digestivo”.
SAIBA MAIS Paixão Pagu: A autobiografia precoce de Patrícia Galvão (Agir, 2005). Pagu: Vida e obra, de Augusto de Campos (Brasiliense, 1982).
Jornalista Natália Pesciotta,
autora da matéria sobre Pagu
Republicado do site: http://www.novo.almanaquebrasil.com.br/categoria/ilustres-brasileiros/
Tabacaria, de Fernando Pessoa
Poesia
TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
| Álvaro de Campos, imaginados por Fernando Pessoa |
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e o seu valor é comparado ao de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um “legado da língua portuguesa ao mundo”. Por ter crescido na África do Sul, para onde se mudou aos sete anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa foi alfabetizado em Inglês. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa dedicou-se também a traduções desse idioma. Durante sua discreta vida, atuou no Jornalismo, na Publicidade, no Comércio e, principalmente, na Literatura. Como poeta, desdobrou-se em diversas personas conhecidas como heterónimos, em torno das quais se movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um “drama em gente”. Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos, na cidade onde nasceu. Sua última frase foi escrita em Inglês: “I know not what tomorrow will bring… ” (“Não sei o que o amanhã trará”). As informações são do Wikipedia
Prefácio do livro de Acrísio Tôrres
Os Crimes que abalaram Sergipe
Sergipe/Crimes Políticos, I, de Acrísio Tôrres
Prefácio
Orlando Dantas
| Jornalsta Orlando Dantas |
Passava por ele indiferente. Disseram-me que era professor, e que seus livros didáticos foram adotados nas escolas públicas. Dele, certo dia, recebi convite para assistir, na Assembléia Legislativa, o recebimento do título de cidadania sergipana. Bacharel em direito, liberal, boa cultura literária, escritor. Subiu à tribuna, calmo, sereno, despreocupadamente, e pronunciou um longo discurso de improviso. Linguagem solta, pronúncia correta, despertou pela erudição a atenção dos presentes. A sua oração, agradável, deslizava como as águas cristalinas de um córrego da terra de Iracema. No dia seguinte, escrevi um tópico na Gazeta de Sergipe sobre a personalidade do professor Acrísio Tôrres, de muita simpatia pela sua inteligência e o valor da oração que pronunciou na Assembléia Legislativa. E, como traço de sua pessoa, destacava a modéstia excessiva como andava nas ruas da cidade. Parecia pedir desculpa a todos, pela sua presença. Tempos após, me aparecia o professor Acrísio Tôrres a convidar-me para assistir sua posse na Academia Sergipana de Letras. O seu discurso de posse, bem convencional. Tive a impressão que havia recolhido os conselhos de Machado de Assis sobre a Teoria do Medalhão. Saudou-o o Sr Luiz Garcia em suas vilegiaturas pelo Japão, distante, portanto, das tradições acadêmicas, com pesar pela oportunidade de ter apresentado um trabalho compatível com a sua brilhante inteligência. Ficamos amigos. Abri-lhe as portas da Gazeta de Sergipe.
E, com o lançamento da revista cultural – MOMENTO -, o papel de redator-chefe. Suas crônicas publicadas na Gazeta de Sergipe despertavam o interesse público pela beleza da forma, a inteligência dos conceitos, o original do conteúdo. Acrísio Tôrres é escritor de classe, metido numa capa de modéstia, que não o apresenta em toda a sua grandeza. Mas, na verdade, é um voluntarioso, disposto a fazer o que julga verdadeiro e correto. Com essa dispensável apresentação, vamos aos fatos. Convida-me o professor Acrísio Tôrres para escrever o prefácio do seu livro – Sergipe/Crimes Políticos, I, 1906/1930 -. O pesquisador, traça do seu “pó dos arquivos” realiza, há tempos, na biblioteca pública do estado, trabalhos meritórios para a história sergipana, nos seus aspectos políticos, econômicos e sociais. Iniciado pela tragédia de Fausto Cardoso, oferece uma pagina de fina sensibilidade artística, a expandir as razões do genial patrício, em sua curta vida de filósofo, sociólogo, poeta, orador parlamentar e popular, além da figura de jornalista. No entanto, contesto, quando se afirma que não foi assassinado. A ordem de evacuação do palácio, dada pelo general Firmino Lopes Rego aos seus comandados, foi causa desse acontecimento lamentável. O general Firmino Rego assim determinou e retirou-se para o telégrafo. Tudo aconteceu sem a sua presença. Deputado Federal, com a soma de suas imunidades, não podia ser tratado como um aventureiro. Razoes profundas de ordem sociológica respondiam pelos fatos motivadores dos acontecimentos políticos.
| Fausto Cardoso |
E o grave, gravíssimo mesmo, era que Fausto Cardoso recebera o tiro mortal quando já se achava na rua, fora do palácio governamental, embora ferido no braço. Tais os impropérios da soldadesca, que ele fora obrigado a repelir com a frase – “atirem, covardes!”. E se ouvia: “atirem, não atirem!”. Um pelotão de militares, para a manutenção da ordem, não teria aquele procedimento, sem revelar-se conivente no crime que acabava de praticar. Ao estudar outros crimes políticos, sempre aparece o professor Acrísio Tôrres com manifesta simpatia para com o presidente do estado, dr. Guilherme Campos, apresentando argumentos em defesa de sua autoridade. E, afirma a existência de um acordo político, firmado entre os senadores Oliveira Valadão e Coelho e Campos, e o presidente Guilherme Campos. Ora, esse acordo existia entre Olímpio Campos e Oliveira Valadão, firmado em 1902. Não encontrei provas de sua existência, sobretudo após o assassinato de Fausto Cardoso, que era correligionário de Coelho e Campos. Com esses reparos, considero bom trabalho, o livro Sergipe/Crimes Políticos, I, 1906/1930, do professor Acrísio Tôrres, que revela à luz do sol, o tipo de política que se realizava no estado. O desrespeito à constituição, as instituições nacionais, e os crimes praticados em Sergipe, no Mato Grosso, no Ceará, por significativos, passaram a ser conhecidos pelas novas gerações. A história ilustra, com o trabalho do professor Acrísio Tôrres, conhecimentos que clareiam a visão dos fatos.
(*) Do Livro “Cenas da Vida Sergipana, 2 – Acrísio Torres – SERGIPE/CRIMES POLÍTICOS, I 1906/1930”, Thesaurus Editora, prefácio de Orlando Dantas, páginas 07 a 09. Com a publicação do prefácio assinado pelo jornalista Orlando Dantas, concluímos a postagem em relação à referida obra.
- O crime de Gilberto Amado contra o poeta Aníbal Theófilo gerou uma polêmica com os descendentes do poeta assassinado naquele dia fatídico de 20 de junho de 1915, na porta do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro. Arnaldo da Silva Rodrigues, neto do poeta, escreveu um livro em defesa da honra do seu avô, sob o título - Vida e Morte de Annibal Theóphilo – Trágico Fim de Um Poeta Assassinado -. Arnaldo não teve tempo de publicar a obra sobre o seu avô, dado o seu falecimento, mas sua família disponibilizou a obra na internet no endereço: http://www.livrovirtual.com/?a=163F9.
- Em respeito à verdade dos fatos, ao resgate da história, vamos, também, republicar, em série, a partir do dia 15 de março de 2011, a obra supra, dando, assim, a oportunidade de se conhecer a figura desse poeta, que teve a sua vida ceifada tragicamente.
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