Aracaju/Se,

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ascensão e queda da liberdade de expressão

Artigo Pessoal

Ascensão e queda da
liberdade de expressão
Clóvis Barbosa 
Tema amplamente debatido e requisitado pela sociedade contemporânea, a liberdade de expressão tem suas matizes históricas fincadas a muito. David Llewelyn Wark Griffith, ou D. W. Griffith, como ele assinava, nascido em Oldham County, Kentucky, em 1875 e falecido em 1948, foi um cineasta revolucionário no início do cinema. Depois de muito batalhar em Hollywood, realizando mais de 400 filmes curtos em seis anos, tinha uma tara que era fazer um longa-metragem. Essa oportunidade surgiu em 1915, quando ele fez Nascimento de uma Nação, filme que causou ao mesmo tempo aplausos e repúdio, não somente da crítica, mas de todos os segmentos sociais e, principalmente, do establishment da época. O filme é baseado na peça The Clansman: An Historical romance of the Ku Klux Klan, de Thomas Dixon. O pau quebrou no lombo de Griffith, que foi acusado de estimular o racismo através da apologia de um grupo de cachaceiros puritanos, o ku klux klan, tido, na obra, como herói e responsável pela unidade da nação americana. Tentaram de tudo para boicotar o filme, mas ninguém deixou de reconhecer os méritos técnicos e artísticos e a importância que esta obra ainda hoje representa para os estudiosos da sétima arte. Mas a maldição lançada contra Griffith veio influenciar o público na recepção do seu segundo longa, Intolerância, cujo fracasso comercial levou-o praticamente a falência, somente se restabelecendo a partir de 1919, quando juntou-se a Charlie Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford, fundando a United Artists.

Mas o cerne dessa fase de discussão sobre a obra foi o surgimento da censura em obras cinematográficas, prejudicando sensivelmente a criação artística na época. Cenas de crime, beijos, nem falar. Eram terminantemente vedadas. Houve uma reação e os artistas, sob a liderança de Griffith, lançaram um manifesto, intitulado The Rise and fall of free Speech in América (A ascensão e queda da liberdade de expressão na América), que causou grande repercussão. O documento fala da última tentativa de impor a censura no país, mais especificamente na mídia impressa, em 1798, quando o Congresso americano aprovou uma lei que caracterizava como crime qualquer crítica ao governo. No Brasil, as idas e vindas da liberdade de expressão ganharam um contorno diferente após o restabelecimento do Estado de Direito e a promulgação da Constituição de 1988, cunhada como “cidadã”. Nela está inscrita que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”. Observe a expressão “sob qualquer forma”. Mais adiante, ela estabelece: “nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social”. Atente para a expressão “nenhuma lei conterá” do dispositivo referido.

Cena de Intolerância
Pois bem, a lei eleitoral brasileira, que é de 1997, assinala que “a partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário, veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido ou coligação, a seus órgãos ou representantes”. A parte final, “difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido ou coligação, a seus órgãos ou representantes” entra em choque com “a livre manifestação de pensamento” assegurada pela própria Constituição, ferindo-a de morte e, nesse sentido, obrou em equívoco extremo o legislador ao estabelecer o referido texto, além de dar um tratamento desigual aos órgãos de informação, privilegiando a imprensa escrita em detrimento da falada e vista. Em outras palavras, os jornais e revistas, durante o período eleitoral, podem emitir opinião favorável ou contrária a qualquer candidato, partido, coligação, ou a seus órgãos e representantes, mas as emissoras de rádio e televisão, não podem. Esse dispositivo da lei eleitoral tem onerado em multas impagáveis várias emissoras de rádio e televisão. Em 1998, por exemplo, fui advogado da Rádio Jornal. Na arena da disputa eleitoral pelo governo do Estado estavam João Alves Filho e Albano Franco. A ordem desse último era fechar e inviabilizar financeiramente a emissora, pertencente ao seu adversário.

Para tanto, contratou um caminhão de advogados, inclusive de fora do Estado, a fim de atingir os seus objetivos. A multa mínima aplicada em cada infração ao mencionado texto legal era de 20.000 UFIR’s (aproximadamente 20 mil reais), duplicada na reincidência e podendo ser cumulada com a suspensão das transmissões da emissora. Veja um caso ocorrido na época. No dia 27 de agosto de 1998, no programa “Impacto”, levado ao ar pela Rádio Jornal, apresentado pelo jornalista Eduardo Abril, o ex-prefeito de Porto da Folha, de nome Antônio Pageú, fez duras críticas ao candidato ao senado, Jackson Barreto, afirmando que ele não valia nada e que nunca conseguiu terminar uma administração quando foi prefeito de Aracaju. Outro ouvinte, de nome “Dodó”, de São Cristóvão, teria dito que sua esposa foi exonerada da direção de uma Escola estadual porque ele tinha simpatia pela candidatura de João Alves. Nesse processo, que foi julgado improcedente, a coligação de Albano Franco queria que fosse aplicada uma pena de suspensão das transmissões da emissora por 48 horas, pagamento de multa de 100 mil UFIR’s e que esta fosse duplicada para 200 mil UFIR’s. Para encurtar a história, foram mais de 300 processos ajuizados na Justiça Eleitoral contra a Rádio Jornal, sendo a mesma condenada em aproximadamente 70 a 80 processos, redundando num total de multa que chegou a quase 700 mil reais.

O pior de tudo é que o próprio Tribunal Superior Eleitoral, que conta, na sua composição, com dois ministros do Supremo Tribunal Federal, rechaça a tese da inconstitucionalidade do referido texto da lei eleitoral, aduzindo, quase sempre, a necessidade de tratar com igualdade os candidatos, além do fato de que os assuntos da eleição têm que ser veiculados no horário da propaganda eleitoral gratuita. A permanecer esse dispositivo na lei eleitoral, teremos que obstruir a democracia de todo o período da campanha eleitoral. A imprensa radiofônica e a televisada terão que cerrar as suas portas para o noticiário político, calando-se diante dos atos públicos de interesse da sociedade. Evidente que não se quer aqui uma liberdade de manifestação absoluta. Não! Contra os excessos a própria legislação prevê as punições que devem ser aplicadas, sejam de ordem penal, civil ou administrativa. Ademais, como bem dito pelo ex-ministro do TSE, Luiz Carlos Lopes Madeira, no processo PMN vs Tv Manchete Ltda, “a imprensa, hoje, é empresa mercantil. Vive (...) da audiência das suas emissoras, que lhe conferem resultados ou lucros. Com perdão da redundância a imprensa noticia o que é notícia. Errado seria forjar”. Pois é, já pensou a humanidade, por causa do cerceamento da liberdade de expressão, sem conhecer a Bíblia, a Ilíada de Homero, Fausto de Goethe e as peças de Shakespeare?

- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 16 e 17 de janeiro de 2011, Caderno B, p. 11.

Mata Escura (V)

Crimes que abalaram Sergipe

Mata Escura (V)
Acrísio Torres


Mata Escura era um criminoso que caminhava para o patíbulo. Pelo caminho conversava serenamente com os soldados. Não cessava de fumar os charutos que lhe foram dados pelo carcereiro. Não reclamava, de nada se queixava. Todavia, lamentou diversas vezes não ter praticado mais um assassinato. Devia ter morto Manuel Antônio, causador do suplício que o aguardava. - No outro mundo nos encontraremos. Esta ameaça pareceu consolar o estranho criminoso. Desta circunstância se aproveitou habilmente o chefe da escolta, para sondar o ânimo do réu. Procurou lhe falar ao coração. Pôde conseguí-lo. Mata Escura prometeu confessar todos os seus crimes. Não omitiria nenhum, mas os manifestaria como um ser humano que responsabilizava a sociedade pelos crimes que cometera.


No momento em que o chefe da escolta lhe perguntou se era verdade ser ele o autor de quatorze mortes, o bandido sorriu. Havia uma expressão de desprezo pela vida de seus semelhantes, na face dura de Mata Escura. Era o sentimento comum nos autênticos criminosos. - Não foram  tantas! Diante dessa afirmativa aconselhou ao réu que era bom que ele manifestasse seus crimes, para não comprometer alguém que fosse inocentemente acusado. O bandido disse que o faria junto à forca. Desejava tomar o público como testemunha de suas confissões. - Eu o farei no patíbulo. Ao aproximar-se de Itabaiana, cenário de seus crimes, declarou ter fome. Era noite. O réu caminhava devagar, por estar com as pernas molestadas pelos ferros que o manietavam.

Descansou no engenho do coronel Domingos Dias, que lhe mandou dar comida. Comeu bem. Todos se admiraram do desembaraço como à mesa farta do senhor de engenho se comportou Mata Escura. Conversava e fumava como se não o ocupasse nenhuma idéia do patíbulo. Enganavam-se os da escolta. Era aparente a calma do bandido, que ainda sonhava escapar à punição. Pouco depois de deixar o engenho do coronel Domingos Dias, a escolta foi atacada por homens armados de bacamartes. Dois deles foram reconhecidos como moradores do engenho do coronel Graça Melo, protetor de Mata Escura. Frustrou=-se a tentativa de libertação do criminoso. Não era a primeira tentativa de livrar o criminoso ao castigo.

Ver imagem em tamanho grande
Antigo Centro
de Itabaiana
A impunidade, a proteção escandalosa que prestavam homens de vultos aos criminosos era a causa de se verem repetidos esses crimes ofensivos à sociedade. Até então havia sucedido que a punição só alcançara os desvalidos, os desprotegidos. Entretanto, um dia ela chegaria a todos os que menos pensavam dever curtir os seus efeitos. Não podia ser outro o alcance da lei e da autoridade. Era o pensamento do presidente Ferreira Souto. O governo e as autoridades da província tomaram providências enérgicas para fazer respeitar as leis, sempre que feridas. Não importava a condição social dos infratores. A sociedade sergipana parecia se tranqüilizar. Estava certa de que os crimes de Mata Escura seriam punidos na forca.

Antigo prédio da Prefeitura,
onde funcionava também o Fórum
Passaria também por sobre o mar das contemplações e do esquecimento a tentativa de levá-lo à fuga. Não se fizeram esperar as medidas severas do governo da província. Terminantes ordens foram expedidas para que fossem presos, processados, punidos, os autores do atentado às leis e do desrespeito às autoridades. Era o duro escarmento. E assim ocorreu. Caçados implacavelmente, foram localizados nas matas de Itabaiana, perecendo todos no encontro armado com os policiais. Perdera-se, para Mata Escura, a última esperança de escapar ao patíbulo.

(*) - Do livro Sergipe/Crimes Políticos I, Cenas da vida sergipana 2, autoria de Acrísio Torres, Thesaurus Editora, prefácio do jornalista Orlando Dantas, páginas 86 e 87.

- Nova postagem de cenas da vida sergipana no dia 15 de fevereiro de 2011. Vai continuar abordando a saga do criminoso Mata Escura, ainda do tempo do império, a caminho do patíbulo, onde iria pagar, enforcado, pelos crimes cometidos, tudo de acordo com o autor e obra acima.

Adendo

José Ferreira Souto, presidente de Sergipe de 1846 a 1847, participou das três primeiras legislaturas da Assembleia Provincial da Bahia (1835-1841).

O Banqueiro Anarquista e outras prosas

O que estou lendo?

O Banqueiro anarquista e outras prosas
Autor – Fernando Pessoa
Seleção e ensaio introdutório de Massaud Moisés
Editora – Cultrix


Contra-Capa

Fernando Pessoa, hoje unanimemente considerado um dos mestres da modernidade, tem merecido numerosas edições da sua múltipla produção em verso e prosa.

O volume que ora se oferece ao leitor, em nova edição revista, diz respeito à sua obra em prosa. Em razão da diversidade de assuntos e de setores do conhecimento abrangidos por sua multímoda curiosidade intelectual, a matéria se distribui em cinco partes: ficção, estética, filosofia, política e cartas de amor. Da primeira, consta o texto integral do conto O banqueiro anarquista e do poema dramático O marinheiro, além de excertos do Livro do desassossego, do semi-heterônimo Bernardo Soares. Nas demais partes se reúnem textos fundamentais veiculando suas desconcertantes idéias naqueles campos do saber. Fecham o volume duas cartas de amor, durante muitos anos mantidas em estrito ineditismo.

Na preparação do texto, Massaud Moisés teve o cuidado de recorrer às melhores edições da prosa pessoana. Um longo e denso ensaio introdutório, focalizando os aspectos mais relevantes da prosa de Pessoa, completa o volume, que, estamos seguros, não encontra paralelo em nosso meio intelectual.

O autor do ensaio
Massaud Moisés

Professor titular da Universidade de São Paulo, Massaud Moisés foi professor visitante nas Universidades de Wisconsin, Indiana, Vanderblit, Texas, Califórnia e Santiago de Compostela. Alguns dos seus livros, consagrados à teoria literária e às literaturas em vernáculo, constituem referência obrigatória para estudantes e estudiosos destas matérias, como evidenciam as sucessivas edições que têm merecido A Criação Literária, A Análise Literária, Dicionário de Termos Literários, A Literatura Portuguesa, A Literatura Portuguesa Através dos Textos, A Literatura Brasileira Através dos Textos e o Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Santa, santa Evita

Artigo Pessoal

Santa, santa Evita
Clóvis Barbosa
 

Em janeiro de 2010 fui a Buenos Aires e a Calafate, na Cordilheira dos Andes, lado argentino. Como não poderia deixar de ser, na capital portenha fui visitar o túmulo de Maria Eva Duarte, ou Eva Peron, como ficou conhecida nos seus últimos anos de vida, ou, ainda, Evita, como o povo a chamava. Também visitei outros túmulos de personalidades do mundo cultural e político da argentina, como o do General e presidente Pedro Eugénio Aramburo, este por me trazer uma lembrança da minha adolescência. Mas voltemos a Evita. O que leva o povo argentino e grande massa de turistas, ainda hoje, fazerem fila no Cemitério La Recoleta, 58 anos depois da sua morte? Que fascínio tinha aquela mulher que conquistou o coração do grande líder político Juan Domingo Peron? Que energia ela transbordava para se tornar a alma do movimento peronista e representante dos anseios e angústias do povo humilde? Por que foi tão adorada e, ao mesmo tempo, odiada por milhões de argentinos? Que carisma extraordinário tinha essa mulher que conquistou o peronismo, cujos militantes ainda hoje repetem nos comícios Evita vive!? Por que ela tinha tanto desprezo pelas oligarquias e pelos militares de alta patente?

No momento em que as mulheres ocupam um espaço bastante importante na política da América Latina, tendo o Chile vivenciado a liderança de Michelle Bachelet, presidenta de 2006 a 2009, Cristina Kirchner, que desde 2007 é presidenta da Argentina e, agora, Dilma Vana Rousseff, Presidenta do Brasil desde o dia primeiro de janeiro de 2011, a fascinante história de Evita empolga mais pela curiosidade que se tem do comportamento da mulher num mundo cujo cenário sempre foi o de hostilidade à sua participação. Evita rompeu de forma implacável esse mundo, tornando-se uma militante em favor da grande massa oprimida e uma inimiga ferrenha da elite oligárquica e corrupta da Argentina. De menina pobre, filha ilegítima, à mulher mais poderosa da Argentina. Evita Maria Duarte de Peron nasceu na cidadezinha de Los Toldos, a 280 quilômetros de Buenos Aires, em 1919. Aos 20 anos de idade tornara-se estrela da Companhia de Teatro do Ar. Aos 25 anos, após uma vida irregular, conhece oficialmente o capitão Juan Domingo Peron, com quem se casa um ano depois em cerimônia secreta. Uma transformação radical passou pela sua vida.



Dizia Aristóteles de que não há como estudar a conduta humana de maneira racional e precisa, visto que a nossa índole é dotada de uma mobilidade constrangedora. Assim, entre o mito e a verdade pesa unicamente o valor das opiniões, que podem ser tão voláteis quanto o vento. Mas, independente disso, uma coisa ninguém pode duvidar: a capacidade de liderança que ela teve junto ao povo argentino. Era comum os jornalistas perguntarem a Evita por que usava tantas jóias quando se encontrava com o povo pobre e miserável dos arredores da Argentina. Ela tinha a resposta na ponta da língua: “Eu quero ser bela. É para eles”. Eles, para ela, eram os descamisados, também chamados de cabecitas negras, gente humilde e esquecida. Nos seus contatos com o povaréu, completava: “É preciso querer, vocês tem o dever de exigir”. Ela acreditava que vendo o luxo, eles aprenderiam a exigir o luxo. Evita escreveu uma autobiografia, lançada um ano antes da sua morte, com o título "A razão da minha vida". Deixemos que ela fale: “Quando escolhi ser "Evita" sei que escolhi o caminho do meu povo. Agora, a quatro anos daquela eleição, fica fácil demonstrar que efetivamente foi assim”

E continua: "Ninguém senão o povo me chama de ‘Evita’. Somente aprenderam a me chamar assim os ‘descamisados’” (...) “E, coisa estranha, se os homens do governo, os dirigentes, os políticos, os embaixadores, os que me chamam de "Senhora" me chamassem de 'Evita' eu acharia talvez tão estranho e fora de lugar como que se um garoto, um operário ou uma pessoa humilde do povo me chamasse de ‘Senhora’". (...) “Agora se me perguntassem o que é que eu prefiro, minha resposta não demoraria em sair de mim: gosto mais do meu nome de povo. Quando um garoto me chama de 'Evita' me sinto mãe de todos os garotos e de todos os fracos e humildes da minha terra. Quando um operário me chama de 'Evita' me sinto com orgulho ‘companheira’ de todos os homens”. (...) “Eu descobri um sentimento fundamental em meu coração, que governa completamente o meu espírito e a minha vida. Este sentimento é a minha indignação quando confronto-me com a injustiça”. (...) "Um dia ouvi pela primeira vez dos lábios de um trabalhador, que havia pobres porque os ricos são tão ricos; e esta revelação causou uma forte impressão em mim.


Um pintor pode falar porque ele vê e sente as cores? Um poeta pode explicar porque é poeta? Talvez seja por isso que eu nunca pude dizer porque sinto-me ultrajada pela injustiça; e porque nunca fui capaz de aceitar a injustiça como uma coisa natural, como a maioria dos homens aceitam". Está explicada a sentença de Goethe: Quando uma mulher toma a si alguns dos atributos masculinos, deve triunfar, porque se ela intensifica suas outras vantagens através de um acréscimo de energia, o resultado é uma mulher tão perfeita quanto se possa imaginar. E foi assim a curta passagem de Evita pela terra. Teve uma vida intensa durante 8 anos, de 1944 (quando conheceu o caudilho) a 1952, ano da sua morte aos 33 anos de idade. O cortejo fúnebre foi apoteótico, hollywoodiano. Em 1955, um golpe militar derruba o governo peronista. Por ordem do general-presidente Pedro Eugénio Aramburo, o cadáver de Evita é seqüestrado do Cemitério La Recoleta, ficando desaparecido até 1971, quando foi devolvido a Peron, então residindo em Madri. Em 1978, o seu corpo voltou a repousar no La Recoleta. A propósito, o tumulo de Aramburo está tomado por mato e lixo, totalmente abandonado.

É o que dar perder o bonde da história. Conhecer, como ficamos conhecendo a história dessa magnífica mulher, penso que foram os deuses, liderados por Hefesto (deus do fogo, dos metais e da metalurgia) e Atena (deusa da guerra, da civilização e da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade), auxiliados por outros deuses e sob as ordens de Zeus, que a criara, como o fez com Pandora. Ela, também, recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a irresignação, a ternura e a habilidade. Mas há uma diferença. Não, o deus Hermes não pôs no seu coração a traição e a mentira, nem tampouco Evita abriu a caixa. Ela permaneceu hermeticamente fechada com todos os bens e virtudes colocadas pelos deuses. É por isso, que ainda hoje, ela é cantada e decantada pelo povo argentino, como uma santa, apesar de tudo e, talvez, da mais sangrenta e odienta perseguição que sofreu, mesmo depos de falecida, dos militares argentinos que sucederam Juan Domingo Peron. Eles não mediram esforços em denegrir a sua imagem perante o mundo. Não adiantou. A Argentina nunca mais foi a mesma.

- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 9 e 10 de janeiro de 2011, Caderno B, página 11.

Mata Escura (IV)

Crimes que abalaram Sergipe

Mata Escura (IV)
Acrísio Torres


Poucos dias depois de capturado, Mata Escura foi transferido da enxovia para a prisão solitária. Nessa ocasião se percebia um ar de resignação na face do criminoso. Os soldados lhe colocaram as algemas. Mata Escura encarou por um momento as duras algemas, que lhe deram a sensação do fim de sua caminhada fora da lei. Parecia se operar uma transformação em seu espírito, até aí voltado para toda sorte de males. - bem sei que vou morrer – disse com os olhos fixos no chão da prisão. E, após um curto silêncio, como se refletisse, acrescentou: - Morro porque sou pobre. Os ricos cometem mais crimes do que eu, e nunca são punidos. Os soldados haviam se retirado. Na velha cadeia apenas se encontravam Mata Escura e o carcereiro. Na cela, olhando através de uma pequena grade de ferro, continuou imerso nas suas reflexões. - Sou o primeiro homem livre que será enforcado nesta província, como se fosse escravo. Era a idéia dominante na época, mesmo entre os criminosos. Somente aos escravos é que se devia punir de morte. Na verdade, até então haviam sido os pobres negros cativos injustamente os únicos justiçados.

A esse estranho sentimento, sobretudo da parte de um facínora, talvez se possa juntar o relacionado com o trabalho escravo. Houve época, após 1850, em que a falta de mão-de-obra vexou alguns presidentes da província de Sergipe. Tornou-se um grave fenômeno social. Mata Escura continuava olhando o espaço azul de céu por onde pequenas nuvens deslizavam, de estranhas formas. Era um triste fim de tarde. Voltando-se para o carcereiro, disse: - Me dê uns charutos. Os charutos foram dados ao bandido. Mata Escura começou a fumar em nervosas baforadas, a passear de um lado para o outro da estreita cela e a falar cheio de desespero e revolta. O carcereiro procurou inutilmente acalmá-lo. Perguntou mesmo se desejava um padre. O célebre criminoso encarou o seu vigia, por um instante, e lhe gritou rudemente: - Não! Não! – repetiu. Não queria saber de padre. Para ele, também os padres eram responsáveis por muitos crimes sociais e políticos. Não lhe eram estranhos os crimes do clérigo Silva Porto, em Capela, a chacina do vigário de Propriá, e outros delitos semelhantes. Passeando e fumando permaneceu Mata Escura toda a noite. Não podia dormir, como se temesse o próprio sono. Pediu, porém, alguns biscoitos e bebeu um pouco de vinho.



Nasceu a manhã, uma manhã fria e tétrica para o célebre criminoso. Recusou o alimento que lhe foi levado. E, pedindo mais charutos, continuou a fumá-los, agora calmamente, sentado no duro leito de palha. A uma hora da tarde deitou-se e adormeceu. Fora vencido pelo cansaço físico dos passos sem cessar durante a noite e a manhã. Talvez, também, tenha adormecido na esperança de esquecer por um momento a pena que aguardava. Era quase noite quando Mata Escura despertou. Levantou-se, permanecendo alguns minutos na contemplação do céu através da pequena janela da cela. Depois, acendeu um charuto e recomeçou os passos de um lado para o outro da prisão. Não se perturbou quando o carcereiro lhe comunicou que naquela noite uma escolta o conduziria para Itabaiana. Nem mesmo desviou os olhos do chão da velha cadeia. Uma espessa baforada do charuto pareceu ser a resposta do bandido. Tropel de animais rompeu o medonho silêncio da noite. Era a escolta que devia conduzir o criminoso para Itabaiana. Mata Escura deixou a cela e seguiu de pé a longa caminhada, na primeira expiação depois de seu encarceramento.


(*) - Do livro Sergipe/Crimes Políticos I, Cenas da vida sergipana 2, autoria de Acrísio Torres, Thesaurus Editora, prefácio do jornalista Orlando Dantas, páginas 83 a 85.

- Nova postagem de cenas da vida sergipana no dia 8 de fevereiro de 2011. Vai continuar abordando a saga do criminoso Mata Escura, ainda do tempo do império, que foi condenado a morrer enforcado, tudo de acordo com o autor e obra acima.
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