domingo, 5 de julho de 2015
Mulheres da antiguidade - Rodópis
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
RODÓPIS
Vicki León
Junto
com filosofia e queijo de leite de ovelha, os gregos se preocupavam
apaixonadamente em deixar uma marca nesta vida – e serem lembrados pelo nome
depois de passarem desta para outra. Entretanto, poucos levavam essa mania de
imortalidade aos estonteantes extremos de Rodópis.
Ela
vivia na ilha de Samos, sendo escrava numa casa de família do século VII a.C.,
que incluía um colega escravo e tecedor de fábulas chamado Esopo. Nascida com o
nome de Dorica, ela recebeu o apelido de Rodópis ou “Bochechas Rosadas” quando
foi posta para trabalhar como vendedora de sexo em Náucratis, no Egito. Não
demorou muito até que ela topasse com um vendedor de vinho, de Lesbos, chamado
Cáraxos (o vinho de Lesbos, o vendedor viajante era heterossexual, ou essa
história não teria ido muito adiante). Logo, Cáraxos estava monopolizando a
mercadoria da Rosadinha, que cobrava até um talento (equivalente em dólares a
uma quantia de quatro algarismos) por noite. Totalmente perdido de amor, ele
então gastou uma larga quantia para resgatar Rosadinha da escravidão.
Exatamente quanto? O suficiente para quase levar sua família aristocrática à
falência – que incluía sua irmã mais nova, a poeta Safo. Mas o pior estava por
vir: no capítulo final de “Quando Rosadinha conheceu Cará”, o par se casou.
Todavia, a alegre prostituta gostava da sua linha de trabalho; mesmo depois da
lua-de-mel, recusou-se a desistir de suas atividades e continuou a acumular
esses talentos.
Rosadinha
tinha em mente mais do que prostituição. Como alguém que comercializava prazer
(um produto abstrato), ela desejava ardentemente deixar uma evidência mais
concreta de seu sucesso na vida. Insatisfeita com uma elegante lápide,
Rosadinha sonhava em construir uma gigantesca pirâmide dedicada ao amor.
Narrativas conflitantes dificultam que se saiba se sua notável aspiração viu a
luz do dia ou não. Alguns escritores dizem que sim; uma outra história diz que
o esquema da pirâmide foi para o brejo, e, em vez da construção, Rosadinha
decidiu investir em espetos de ferro, dedicando-os aos deuses no prestigioso
santuário em Delfos. Um historiador disse que os viu amontoados numa grande
pilha atrás de um altar. Mudar de pirâmides para espetos de churrascos pode parecer
uma decadência; entretanto, os espetos eram uma antiga forma de dinheiro no
mundo grego. Para aumentar a confusão, os gregos usavam a palavra obelisco para
descrever tanto um espeto de churrasco como um monumento alto, no formato do
que existe em Washington. Além do mais, tanto os obeliscos como as pirâmides
tinham topos triangulares com a ponta feito de electro, uma liga de ouro e
prata que brilhava sensacionalmente ao sol.
Ironicamente,
a fama mais duradoura de Rosadinha veio através de Safo, sua desgostosa
cunhada. Terrivelmente aborrecida com o relacionamento embaraçoso do irmão e os
apertos financeiros nada róseos em que ele havia colocado a família, ela lançou
diversos poemas amargurados para expressar sua vergonha. Fragmentos de cinco
deles foram encontrados, inclusive essa reconstrução feita pelo poeta Beram
Saklatvala:
Mas Oh! Cáraxos, você escolheu mal!
Dorica pode ser comprada por qualquer homem,
Seus beijos são mercadoria trocada por ouro.
Você tomou para sua satisfação uma coisa a venda,
E se juntou ao seu amor tão errante,
E considera como lindo o que todos podem comprar!
Dada
a tentativa de sua cunhada Bochechinha Rosada de alcançar a notoriedade, teria
sido uma jogada melhor da parte de Safo ter um oportuno caso de bloqueio mental
de escritor, você não acha?
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “ARISTONICE”. Pitonisa, ela ganhou fama por suas
profecias numa época crítica, logo antes da guerra entre gregos e persas.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
domingo, 28 de junho de 2015
Carta do Caribe (II) - El Último Coplero
Artigo pessoal
Carta do Caribe (II)
El último coplero
Clóvis Barbosa
Palácio de Miraflores,
2 de setembro de 2011. Praça cheia de gente. Gente bonita. Muitas bandeiras
venezuelanas nas mãos de jovens, idosos e crianças. No palanque, à frente do
palácio e diante da multidão, o compositor Cristóbal Jiménez e o comandante
Hugo Chávez, ao lado de uma orquestra onde predominava uma gigantesca harpa. De
repente, um grito de guerra do compositor e começa a entoar sob acompanhamento
da multidão, dos músicos e do comandante:
“Soy el último coplero/del gran cajón araucano/la gente dice que ya no
salen más cantaclaros/yoparrandeé em la baisera/baguan médio y mata e caña/de
caiçara a matyure/de caucagua a caño bravo”.
Chávez está vestido
com uma impecável farda verde-oliva, de boné e uma camiseta vermelha por dentro
da farda. O duo é perfeito e a música eleva os ânimos
na parte mais revolucionária onde as frases são entremeadas por Chávez e Jiménez, cada um recitando a letra de
forma rápida, aos gritos lancinantes da multidão:
“Em el
pueblo de mentacalyo me la vivia cantando/y comenzó a preocuparme la suerte de
mis Hermanos/y me acordé de Bolivar/ y me senti avergonzado/su palavra ahora es
um mito al ver la pátria sangrando/seguimos siendo colônia/después de 500
años/su maestro Simon Rodriguez se lo vivia recordando/ que si um Pueblo no se educa nada hacen con
libertarlo/porque volveria caer em manos de los extraños/yo no me puedo
explicar/que existan venezolanos/que permanecen tranquilos/y están mirando a
sus lados/que matan los estudiantes/ y el pueblose muera hambreado/en el país
hay millones para vivir derrocando/tiene que tomar consciência el general y el
soldado/el obrero de la fábrica y todo el campesinado/que no podemos seguir así
de brazos cruzados/que los colosos del norte nos continúan acechando...”
O câncer já corroía o
comandante Chávez, mas ele segue cantando e conclui com toda força e ênfase: “... y parece que olvidamos/que fuimos um
Pueblo bravo/y em el nombre de Bolivar/essas cadenas rompamos/porque quieren
entregarnos a los norteamericanos”.
Não, eu não estava
presente nesse ato político-musical. É que quando eu chegava ao hotel, em
Havana e em Varadero, assim que ligava a televisão, quase sempre numa TV
venezuelana, apareciam as imagens do Palácio Miraflores. E confesso que
terminei gostando da canção. Um grito de alerta à consciência de uma nação e de
um povo que não quer continuar sendo colônia de um império.
Voltei às ruas de Havana. Entrei
num posto médico. Falei com a atendente, uma
senhora sexagenária que me atende com um sorriso nos lábios. Perguntei-lhes sobre a forma de funcionamento
daquele posto e se eu podia conversar com o médico. Conversamos e ela pediu que
eu esperasse ele atender um paciente. As
instalações eram simplórias. No Brasil diriam logo que faltava estrutura para o
exercício da profissão. Aquela coisa de preguiçoso sem vocação para o serviço
público que se ouve todo dia. Depois de 35 minutos o paciente saiu do
consultório e, após a anuência do médico, adentrei ao recinto.
Conversamos durante
meia hora. Cientifiquei-me de que em Cuba existem 25 faculdades de medicina,
todas públicas, e a Escola Latino-Americana de
Medicina, aberta para estudantes estrangeiros de mais de 100 países; No ano
passado, Cuba formou 11 mil médicos, sendo metade de
cubanos, aproximadamente, e a outra parte composta de estudantes de 59 países
da América Latina, África e Ásia; em Cuba, há hoje 6,4 médicos para cada mil habitantes. Em
números comparativos o Brasil tem o índice de 1,8, Argentina de 3,2 e a
Espanha e Portugal de 4 médicos para a mesma
proporção de pessoas.
Na minha curiosidade
sobre o país caribenho, eu ficava atônito com
a qualidade das informações que recebia. A taxa de mortalidade em Cuba é de 4.6
para mil crianças nascidas, e a expectativa de vida era de 77,9 anos. No
Brasil, a taxa de mortalidade é de 15,6 para mil bebês nascidos.
O médico pegou a
revista New England Journal of Medicine
e me mostrou um texto, que dizia: “O sistema
de saúde cubano parece irreal. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é de
graça, totalmente de graça –não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento. Todo o sistema parece de
cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a prioridade absoluta é a
prevenção. Embora Cuba tenha recursos econômicos limitados, seu sistema de
saúde resolveu alguns problemas que o nosso ainda não enfrentou”. Esse “nosso”,
evidentemente, refere-se ao poderoso Estados Unidos da América.
Voltei para o hotel. Ligo a televisão. Olhe El último coplero de novo. De meia em
meia hora o clip volta com toda a
força. Estou ávido para ler o The New
England Journal of Medicine, de janeiro de 2013. Também em minhas mãos a
revista americana Foreign Affairs, um
relatório da UNICEF sobre o Estado Mundial da Infância, de 2007, 8 edições do
jornal Granma, órgão oficial do
Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e um relatório extenso do governo
sobre a saúde cubana, seus planos e metas.
Comecei a devorar o
material em minhas mãos e cada vez mais me intrigava como um país pobre, com
problemas de infraestrutura básica (estradas, moradia,
saneamento básico) conseguia, por exemplo, desenvolver sua própria indústria
farmacêutica, fabricando a maior parte das drogas de sua farmacopeia e ainda
alimenta uma política de exportação? Como pode um país, que paga um dos piores
salários do mundo, chegar a um patamar na área de saúde melhor do que muitos
países em desenvolvimento e se igualar aos
países mais ricos do planeta?
Há, entretanto, um
problema que o governo cubano tem de enfrentar com urgência. A gente sente que
o povo tem uma veneração extraordinária pela figura de Fidel e dos
revolucionários de 1959. Mas o seu peito está inflado, pronto para explodir, em
busca de uma vida desconhecida, mas tida como repleta de “felicidade”. A
abertura do turismo em Cuba, com a presença cada vez maior de estrangeiros, tem
criado um sentimento obsessivo na população
cubana em busca das novidades só encontradas em outros locais.
A ideia de
que a revolução cubana é institucionalmente sólida e goza de inequívoco apoio
popular é equivocada. Há um sentimento de mudança que transborda todo e
qualquer discurso teórico. O cidadão cubano está cansado de implorar a um
turista que lhe compre um sabonete ou um xampu
ou que lhe dê alguns trocados. E também preocupado com a falta de condições de
crescimento. Há um livro de Albert Camus, O
homem revoltado, que deveria ser lido pelos burocratas do sistema cubano.
Camus entende que o homem revoltado é aquele que se contrapõe à ordem de quem o
oprime e reage quando sente que não deve ser oprimido. É qualquer opressão, até
aquela de não poder ter o que não se quer.
Os avanços da saúde e
da educação em Cuba são exemplos para o mundo. É uma conquista que precisa ser
exportada. Lembrem-se da letra de El
último coplero, parte final: “Y em el
nombre de Bolivar essas cadenas rompamos porque quieren entregarnos a los
norteamericanos”, ou como diz Che Guevara, num dos postos de saúde em
Havana: “Vale mas la vida de um ser
humano que todo el oro del hombre mas rico del mundo”.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de
domingo e segunda-feira, 13 e 14 de outubro de 2013, Caderno A, página 7.
- Postado no Blog “Primeira Mão” no domingo, dia 13 de
outubro de 2013, às 19h55min, sítio:
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