Aracaju/Se,

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Ordem do Discurso (I)

Artigo Pessoal

A ORDEM DO DISCURSO (I)
Clóvis Barbosa


 

Friedrich Nietzsche

I - O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA. Nem a divindade arriscaria impor rédeas ao amor. Intemporal, ele, incessantemente, comina derrotas acachapantes à corrosão e à oxidação com as quais a rotina mostra-se capaz de sobrepujar outro sentimento. Há, por exemplo, um provérbio popular que enuncia: “a esperança é a última que morre”. Certamente, embora seja a derradeira a morrer, um dia ela efetivamente se dissipará. Com o amor, porém, isso não sucede. Ele, e tão-somente ele, é sempiterno. A morte, que nos extingue enquanto humanos, sucumbe diante do amor que, em nós, é divino e supremo. Para o amor, a propósito, qualquer adjetivação seria pífia. Quem sabe até contraproducente. Daí, garantir Nietzsche que “o que fazemos por amor, sempre se consuma além do bem e do mal”. Daí, ademais, ter sido oportuno o título atribuído pelo sumo pontífice, Joseph Ratzinger, à sua primeira encíclica, “Deus caritas est”: “Deus é amor”.


Gabriel Garcia
Marquez

Imortal, o amor sobressai-se pela constante marcha. Nunca recua. Nunca desanda. Avança permanentemente. Duas personagens estão aptas a demonstrar a seriedade de tal garantia. A primeira, obra do gênio do colombiano Gabriel García Márquez: Florentino Ariza; a segunda – Aristófanes – extraída da poesia que Platão, subliminarmente, fez respingar em “o banquete”, seu mais popular ensaio filosófico. Florentino Ariza amou Fermina Daza. Aristófanes, ao proferir o quarto discurso de “o banquete”, provou que o amor é o que explica a busca pela completude, a busca pela nossa outra metade. Por que, todavia, o paralelo entre Aristófanes e Florentino Ariza? Ora, a história de Florentino Ariza acha-se no romance “o amor nos tempos do cólera”. O enredo desenrola-se na cidade de Cartagena (Colômbia). Ali, ele descobriu a adorável Fermina Daza, que lhe entorpecia as idéias. Quis o destino, contudo, afastá-los.

Pandemia de cólera na África
II - NÃO HÁ LIMITES PARA A VIDA. Conta García Márquez que o pai de Fermina Daza (Lorenzo Daza), ao descobrir que sua jovem filha enamorara-se de um telegrafista, promoveu a separação dos dois a fórceps. O suplício prolongar-se-ia por cerca de cinqüenta e três anos. Quis o destino afastá-los, como já afirmado. Realmente os afastou. Nesse ínterim, Fermina Daza findou por desposar Juvenal Urbino, conceituado médico que erradicara a pandemia de cólera, moléstia que, à época, dizimava a Colômbia. Mas o amor reaproximou Florentino Ariza e Fermina Daza. Depois de mais de meio século, eis que ela, curtindo o luto do falecido marido, reencontra o antigo pretendente. Começava, portanto, a ser redesenhado o intenso amor que ambos houveram planejado. O clímax, no entanto, aflui exatamente da conclusão à qual Florentino Ariza chega, após ter nos braços Fermina Daza: há limites para a morte; não há limites para a vida.


Aristófanes

Em “o banquete”, Aristófanes assegura que, no princípio, os homens eram como que duplicados. Originados ou da lua, ou do sol, ou da terra, havia seres duplamente masculinos, havia aqueles que eram duplamente femininos e, finalmente, havia os que eram compostos por uma parte masculina e por outra feminina. A estes últimos, Aristófanes denominou andróginos. Sucede que os homens, nessa performance, eram tão violentos que, um dia, resolveram subir aos céus para pelejar com os deuses. Mas perderam a batalha. Como castigo pelo atrevimento, Zeus os partiu ao meio, fazendo com que as metades fossem separadas. O homem, portanto, na compleição consoante a qual é hoje concebido (ou puramente masculino, ou puramente feminino), vive a vagar, procurando seu outro pedaço, do qual foi afastado pela divindade, assim como Lorenzo Daza separou a filha de Florentino Ariza.


Mercedes Barcha e Garcia Marquez

III - A FAMÍLIA É O FUTURO DO AMOR. O amor, como se constata, autoriza-nos a enxergar o mundo pelos olhos de Florentino Ariza ou de Aristófanes. Saber amar permite-nos revestir com aço a ossatura. E essa armadura que, hoje, não deixa que sejamos divididos transfigura-se na família, que nos torna inquebrantáveis. Um exemplo: em março de 2007, li, no Jornal do Brasil, um texto da lavra de Álvaro Costa e Silva, onde o articulista asseverava que, não fosse Mercedes Barcha (esposa de García Márquez), a humanidade não teria sido presenteada com o livro “cem anos de solidão”. Durante um ano e meio, intervalo durante o qual García Márquez enclausurou-se para dar à luz sua mais importante criação, quem aplacava os entreveros que recaíam sobre a casa era a mulher do escritor. O dinheiro que conseguiram com a venda do automóvel que possuíam terminou. Mas Mercedes Barcha solucionou a compra do pão sem atravancar o trabalho do marido.


Engraçado é que, ultimado o romance, Mercedes Barcha falou ao esposo: “Espero que o livro seja bom”. Quinze anos depois, García Márquez receberia o Nobel, não só graças ao dom com que os deuses o distinguiram, mas graças a Mercedes Barcha (sua metade), que lhe conferiu paz para velejar tranqüilo no oceano da arte. Com efeito, foi Oliveira Jr. quem (quando compúnhamos a equipe de Déda frente à prefeitura da capital) me apresentou ao filósofo Comte-Sponville, autor de o “pequeno tratado das grandes virtudes”. A última virtude a ser estudada por Sponville é, exatamente, o amor. Ali, ele revela que “a família é o futuro do amor”. Pois bem, estou certo de que devo este dia à minha família – à minha metade (Guiomar Salmeron), aos meus filhos, à minha neta – que me fortaleceram para navegar, íntegro e inteiro, no mar colérico que é o mundo. E é por causa desse amor que confesso que vivi.


Albert Einstein

IV - NAVEGAR É PRECISO. Já o sentido da vida política decorre de estabelecermos metas. Um homem sem objetivos ganha a tonalidade de espectro. É necessário arrematar, todavia, que nenhum esboço de conduta alcançará êxito se não for bosquejado segundo dois princípios elementares: o da edificação da felicidade e o da caminhada realista. Um exemplo. Atribui-se ao físico Albert Einstein a seguinte alegoria: há um barco no mar; os ares, contudo, não são, em princípio, favoráveis ao timoneiro. O que faria o pessimista? Desistiria de navegar. Que postura adotaria o indivíduo utópico? Esperaria que o vento passasse a soprar na direção que lhe interessasse. Como agiria o realista? Ora, esse ajustaria as velas e prosseguiria na sua viagem. Enxerga-se, por conseguinte, que o realismo encorajador deve ser o verdadeiro combustível – que não poderá, jamais, faltar àquele que desenvolve a pretensão de gerir a coisa pública.

* Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 7 e 8 de junho de 2009, Caderno B, página 8.

** Primeira parte do discurso de posse do autor como Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, em 29 de maio de 2009.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...