Aracaju/Se,

terça-feira, 26 de abril de 2011

Em busca do tempo perdido

Artigo pessoal

Em busca do tempo perdido
Clóvis Barbosa (*)


Gostaria de ter conhecido Policarpo Quaresma, aquele de triste fim, na obra do genial escritor Lima Barreto. Não, não iria para Curuzu, mas o levaria para Bruzundanga. Por favor, Curuzu não é o bairro da Liberdade, em Salvador de Bahia, onde está situada a nação ileaê. Aliás, por falar em ileaê, qual é Vovô? Que historia é essa de não permitir que sarará miolo, amarelo empapuçado, moreno cor de canela, branquelo e índio saiam no bloco? É apartheid às avessas? Isto é segregação racial, meu irmão! Pois bem, como não vim para explicar, mas para confundir, vou questionar esse negócio judicialmente e, quem sabe, se no carnaval de 2012 eu não esteja com Policarpo Quaresma desfilando na avenida pelo ileaê. Mas vamos voltar ao nosso personagem, homem extremamente nacionalista e idealista. Fui buscá-lo na prisão, após formalizar um habeas corpus em seu favor, onde tranquei o processo que apurava o crime de traição à pátria, acusado que fora pelo Marechal Floriano Peixoto, então Presidente da República. Policarpo, reconheço, era polêmico. Tentou, por exemplo, mudar a língua falada no país para o tupi e, claro, não conseguiu o seu intento. Em Bruzundanga me criou vários problemas. Passou o sarrafo em todo mundo. Na estrutura governamental, na forma de gerir o dinheiro público, na corrupção desenfreada, na falta de compromisso com a educação e a saúde, as propinas, os privilégios políticos, na hipocrisia e pseudo-erudição dos intelectuais. Enfim, não teve uma só ação política, social, econômica e cultural que não fosse atacada ferozmente.
Fiquei preocupado com a reação da elite bruzungandense. Antes que nos expulsássemos ou decretassem a nossa prisão, fugimos para Utopia, uma ilha perfeita com uma beleza natural extraordinária. Apos alguns dias, num hall de um hotel, diviso Policarpo Quaresma conversando com Sir Thomas More, o “patrono dos estadistas e políticos”, titulo que lhe foi outorgado pelo Papa João Paulo II, no ano de 2000. Ao seu lado, numa discussão acalorada, também encontravam-se Peter Gilles, amigo de More e Raphael Nonsenso, um velho marinheiro que fez algumas viagens com Américo Vespúcio. O debate, como não poderia deixar de ser, era a vida naquele país e a possibilidade de implantar a sua filosofia na Europa. A inexistência de propriedade privada, a obrigatoriedade do trabalho para todos, sem exceção, com uma jornada de seis horas, três no período matutino e três no vespertino. A igualdade é princípio rigoroso, até no uso da vestimenta, lisa para todos. A criança, desde cedo é ensinada a cultivar a terra, ao tempo em que os estudos e a aprendizagem artística são obrigatórios. Seus habitantes são pacíficos, bondosos, solidários e grandes anfitriões. São avessos ao uso de jóias e vestimentas extravagantes, como as usadas pelos estrangeiros. Policarpo dizia que a vida utopiana era um ataque virulento à sociedade do renascimento cristão europeu. Criticou a religião, os direitos humanos, chegando ao ponto de malhar o modo de vida utopiano, tido, para ele, como monótono e castrador da ambição humana. Criticou o paganismo sem perceber que os habitantes de Utopia eram pagãos.

Sir Thomas More era um homem simples, humilde, mas dotado de um senso de humor. Respondeu para Policarpo que “o homem é criatura de Deus, e por isso os direitos humanos têm a sua origem n’Ele, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da redenção. Poder-se-ia dizer, com uma expressão audaz que os direitos do homem são também direitos de Deus”. A discussão não terminou bem, principalmente pelas atitudes grosseiras de Raphael Nonsenso que tentou, inclusive, agredir Policarpo. Não deu para continuar em Utopia. Fomos para Lilliput. Lá encontramos com náufragos do navio de Gulliver. Era uma terra de habitantes extremamente pequenos e idiotas. Viviam cotidianamente em guerra por motivos fúteis. Não houve condições de viver na ilha, dada à pequenez da comunidade e a escassez de alimentos. Fomos para outra parte da ilha, Brobdingnag, que ao contrário de Lilliput, era uma terra de habitantes gigantes. Também não deu para permanecer nesse local. Viajamos para a ilha flutuante de Laputa, uma terra muita estranha. Eu estava ansioso para saber as impressões de Policarpo, até quando, viajando para mais longe, ele encontrou os Houyhnhm, uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, mas que temiam uma raça de humanos chamada Yahoo. Pela primeira vez vi Policarpo Quaresma triste, bastante meditabundo. Alguns dias depois, confessou-me. “Vamos embora. Estou enojado do ser humano”. Não me disse o porquê. Só sei que foi depois de percorrermos as ilhas visitadas por Gulliver. Não houve como demovê-lo da sua ensimesmação.
Manoel Bandeira
No retorno, lembrei-me de Manuel Bandeira. Gritei para Policarpo Quaresma com o peito cheio de alegria: Vamos embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá tenho a mulher que quero na cama que escolherei. Lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente que Joana a Louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente da nora que nunca tive. Lá farei ginastica, andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau de sebo e tomarei banho de mar! Senti Policarpo Quaresma se recompondo e inebriado com a minha dissertação. E continuei: E quando estiver cansado deito na beira do rio, mando chamar a mãe-d’água pra me contar as histórias que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar. Em Pasárgada, Policarpo, tem tudo, é outra civilização, tem um processo seguro de impedir a concepção. Tem telefone automático, alcalóide à vontade e até prostitutas bonitas prá gente namorar. Os olhos de Policarpo brilhavam. Arrematei: E quando eu estiver mais triste, mas triste de não ter jeito. Quando de noite me der vontade de me matar, vou-me embora prá pasárgada. – Lá sou amigo do rei – Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Vamos, amigo, vamos embora prá pasárgada. Policarpo Quaresma chorou. Ao mesmo tempo ria. Era grande a sua expectativa, quem sabe, viver o resto de sua vida em Pasárgada. Colocou na radiola a “Gulliver Suíte”, do compositor alemão Georg Philipp Telemann, e vibrava com os movimentos da suíte para violinos escrita em 1728. Repetiu umas dez vezes o movimento “chaconne of the lilliputians”. Era outro homem. E fomos em busca do tempo perdido.

(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 10 e 11 de abril de 2011, Caderno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...