domingo, 24 de maio de 2015
Mulheres da antiguidade - Pulquéria
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
PULQUÉRIA
Vicki León
Se
a controladora Pulquéria vivesse em nossos dias, seria diretora executiva de
uma empresa do tipo das que aparecem na revista Fortune 500. No século V, d.C., tudo o que ela pôde fazer foi se
meter na política do palácio bizantino, em ativismo religioso, e levar adiante
uma carreira de quarenta anos como
imperatriz e manipuladora do imperador. Bem-educada, com grande preparo nos
idiomas grego e latino, ela tinha quinze anos quando se tornou imperatriz
regente para seu irmãozinho Teo. Pulquéria governou a metade ocidental do
Império Romano, numa idade em que a maior parte das garotas estava pensando em
casamento – o que nos conduz ao assunto de sua paixão. Como nessa época as mulheres
cristãs se entregavam à igreja de corpo e alma, com a idade de catorze anos a
Srta. Pulquéria decidiu se manter virgem pelo resto da vida Com pompa e
circunstância, ela consagrou a si e às duas irmãs (poucas pessoas notaram que
ela tinha arranjado uma maneira genial de manter o trono dentro da família –
nenhum marido).
Pulquéria
comandava a vida de seu irmão Teo tão eficientemente quanto a sua própria,
mantendo-o concentrado nos estudos e deveres religiosos, bem distante das
garotas e dos eunucos fofoqueiros do palácio. Supostamente, ela escolheu a dedo
uma noiva grega para Teo e lhe deu uma educação cristã. Na realidade,
aristocratas ambiciosos colocaram em campo sua própria candidata matrimonial
para quebrar o controle de Pulquéria sobre o império. Eles usaram uma garota da
Antióquia como trunfo, cujas qualificações incluíam irmãos famintos por mamatas
políticas, coloriram seus antecedentes com um aerógrafo, a rebatizaram de Eudóxia,
e a casaram com o descansado Teo. É claro que ela e Pulquéria entraram em
choque desde o início. Eudóxia causou um impacto imediato em Teo,
oferecendo-lhe uma vida sexual e duas filhinhas, e enriqueceu a vida cultural
de Constantinopla homenageando acadêmicos e enchendo o palácio de luzes
literárias.
Essas
manobras eram mixaria para uma jogadora importante como Pulquéria. Para
demonstrar seu poder, ela colocou um documento na frente de Teo, que como
sempre assinou sem ler. Esse papel deu um presente a Pulquéria: ela podia
vender como escrava a esposa de Teo, Eudóxia (foram uns poucos momentos tensos
para todos, antes que a Srta. Pulquéria finalmente rasgasse seu experimento).
Durante
décadas, Pulquéria se manteve ocupada, estabelecendo e rompendo alianças e
fusões políticas com todos, dos eunucos do palácio ao papa Leão. A certa
altura, ela até conseguiu que Teo parasse de dormir com sua mulher e voltasse
ao seu celibato. Eles nunca tiveram um herdeiro homem. Em meio a uma nuvem de
acusações provavelmente falsas de adultério, finalmente derrotada, Eudóxia se
retirou para a Terra Santa para procurar relíquias e escrever má poesia.
Enquanto
isso, Pulquéria era a líder do rebanho em seu círculo de mulheres ascéticas,
que incluía aquelas duas irmãs que ela havia lançado naquele negócio de
virgindade por toda a vida. Dona de muitas propriedades rendosas, ela gastava
grande parte do seu dinheiro em boas ações, incluindo-se a construção de três
igrejas para a Virgem Maria. Naquela época, a devoção a Maria, que encorajava a
participação feminina, estava no auge.
Quando
Teo morreu, Pulquéria ocupou o cargo máximo. Como parte do negócio, ela
concordou em se casar com um general desconhecido, que por sua vez concordou em
respeitar sua política de abstinência sexual. Finalmente Pulquéria conseguiu
governar as coisas à sua maneira, junto a Deus, por três anos gloriosos até sua
morte.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “SAFO”. Ela era natural da ilha de Lesbos, uma terra
de muita intriga política. Poeta, Safo fez muito sucesso entre os intelectuais da
época.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
domingo, 17 de maio de 2015
A Teoria dos Poderes Implícitos
Artigo Pessoal
A Teoria dos Poderes
Implícitos
Clóvis Barbosa
Na quinzena
passada o pau quebrou na minha moleira. Tudo por causa de uma decisão da minha
lavra no Tribunal de Contas do Estado. Havia, em medida cautelar, determinado a
suspensão do Concurso da Deso, empresa responsável pelo abastecimento d’água na
maioria dos municípios sergipanos. A questão foi objeto de discussão em vários
setores da sociedade: redações da mídia, escritórios de advocacia, corredores
dos três poderes e rede social. Repentinamente, Aracaju se transformou na capital
da discussão de teses jurídicas, nela participando profissionais da área e
leigos, todos emitindo as mais estapafúrdias opiniões. Para uns, a emissão de
medida cautelar é privativa do poder judiciário; para outros, o Tribunal de Contas
é meramente um órgão auxiliar do poder legislativo e subordinado à Assembléia
Legislativa; acolá, as competências da corte de contas são de extração direta e
imediatamente constitucional e não legal; suas competências são exaustivas e
não meramente exemplificativas. Pois bem! De início, devo esclarecer que a presente discussão causa em mim
sentimentos colidentes, quais sejam, a inquietude e a tranquilidade. A
inquietude advém do fato de que, confirmado o entendimento desses segmentos, estaria
o Tribunal minado de sua importância fundamental no campo do controle externo,
estremecendo as bases do fortalecimento de sua atuação institucional conquistada
ao longo dos anos, desde a sua idealização ainda no governo provisório de Marechal Deodoro da Fonseca. Já a
tranquilidade está alicerçada no amparo que o posicionamento a seguir delineado
encontra no Supremo Tribunal Federal e no Superior Tribunal de Justiça e, mais
que isso, na própria Constituição Federal e nos poderes e competências por ela
implicitamente atribuídos às Cortes de Contas. Explico: É que a ideia de um órgão fiscalizador em nosso
país, com o objetivo de examinar, revisar e julgar todas as operações
orçamentárias, remonta à instalação do regime republicano, quando, por meio do
Decreto n° 966-A, de 7 de novembro de 1890, restou criado o Tribunal de Contas.
No dizer de Rui Barbosa, Ministro da Fazenda à época, o Governo
Provisório reconheceu a urgência inadiável de reorganizar o sistema
orçamentário defeituoso da República, de maneira que será necessária “a criação de um Tribunal de Contas, corpo
de magistratura intermediária à administração e à legislatura, que, colocado em
posição autônoma, com atribuições de revisão e julgamento, cercado de garantias
– contra quaisquer ameaças, possa exercer as suas funções vitais no organismo
constitucional, sem risco de converter-se em instituição de ornato aparatoso e
inútil”.
Apesar
de aprovado o Decreto, a constitucionalização da Corte de Contas somente
ocorreu com o advento da Constituição de 1891, que o instituiu para liquidar as
contas da receita e despesa e verificar a respectiva legitimidade, antes de
serem prestadas ao Congresso. De lá para cá, passadas as Cartas Políticas de
1934, 1937, 1946, 1967 e chegando à atual Constituição Republicana de 1988, a
sua esfera de atuação teve um sensível alargamento em suas competências, como
bem dispôs o Ministro Celso de Mello
na ADIN 215 MC/PB: “(...) com superveniência da nova
Constituição ampliou-se, de modo extremamente significativo, a esfera de
atribuições dos Tribunais de Contas, os quais foram investidos de poderes
jurídicos mais amplos, em decorrência de uma consciente opção política feita
pelo legislador Constituinte, a revelar a inquestionável essencialidade dessa
instituição surgida nos albores da República. A atuação dos Tribunais de Contas
assume, por isso, importância fundamental no campo do controle externo e
constitui como natural decorrência do fortalecimento de sua atuação institucional,
tema de irrecusável relevância. Assim, o
Tribunal de Contas foi, pouco a pouco, ampliando suas atribuições,
transformando-se gradativamente em órgão essencial ao Estado Democrático de
Direito, atuando como guardião da regular prestação de contas dos poderes da
república, fiscalizando a legitimidade e economicidade na gestão dos
recursos públicos. Na doutrina, existem várias teorias que classificam suas
competências, dentre as quais sobressai, pela abrangência, a adotada por Maria Silvia Zanella Di Pietro, para
quem “o controle externo compreende as “funções” constitucionais de fiscalização (art. 71,
incisos III, IV e VI), consulta (art. 71, inciso I), informação (art. 71,
inciso VII), julgamento (art. 71, inciso II), ouvidoria (art. 74, §§ 1º e 2º), sancionatória (art. 71, inciso VIII) e
corretiva (art. 71, incisos IX e X)”. Ora, por certo, o direito constitui
um sistema de normas razoavelmente coerente, sem contradições, ou pelo menos
dotado de critérios geralmente aceitos para a superação das antinomias que
eventualmente se manifestem. Nesse sentido, a hermenêutica jurídica trabalha
com um princípio basilar que advém do provérbio latim “verba
cum effectu sunt accipienda”, segundo o qual a lei não contém palavras inúteis. Acerca da matéria, Alexandre
Moraes afirma que "deve ser fixada a premissa de que todas as normas constitucionais
desempenham uma função útil no ordenamento, sendo vedada a interpretação que
lhe suprima ou diminua a finalidade".
Em
síntese, a partir de tal princípio, temos que a interpretação da norma, para
atingir a sua real finalidade, deve sempre levar em consideração não apenas a
disposição estanque de determinado texto, mas o conjunto, o verdadeiro espírito
da Lei e de sua elaboração, pois, somente após entender tal contexto, é que se
pode interpretar corretamente. É neste
contexto que se questiona: já que a Carta Magna elenca de forma taxativa, e não
exemplificativa, as competências das Cortes de Contas, qual o fundamento para
que possam ser emitidas, por exemplo, medidas cautelares, aplicação de multas
aos gestores, celebrar termos de ajustamento de gestão (TAG), apreciar em caso
concreto, a constitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público
Estadual e Municipal? Ora, é verdade, não há um só artigo, um só inciso, uma
alínea ou um item sequer da Constituição Federal que preveja expressamente tais
condutas. Então, de onde surgem tais possibilidades? Seria isto também, nas
palavras de um eminente juiz “um gesto de desapreço e infidelidade
constitucional”? Parece-me completamente desarrazoado pensar de tal
maneira. É que a discussão que ora se propõe passa, necessariamente, pelo
estudo da chamada “Teoria dos Poderes Implícitos” (Theory Implied and
Inherent Powers), cuja
doutrina, construída inicialmente pela Suprema Corte dos Estados Unidos da
América, no célebre caso McCulloch vs Maryland (1819), enfatiza que a
outorga de competência expressa a determinado órgão estatal importa em deferimento
implícito, a esse mesmo órgão, dos meios necessários e hábeis à integral
realização dos fins que lhe foram atribuídos. Desta forma, é erro afirmar
que as regras jurídicas constitucionais que versam sobre competência se
interpretam sempre com restrição, pois o processo interpretativo deve
apurar se há mais de um entendimento para uma mesma regra jurídica e, em se
verificando tal ocorrência, adotar aquele que lhe empreste maior efetividade. Registre-se
que não estamos aqui defendendo a possibilidade de atribuição de competências
despropositadas e sem qualquer fundamento na Lei Maior. O que se defende, isto
sim, é que a Carta Magna possui caráter de norma matriz, a partir da qual deve
o legislador ordinário esmiuçar as regras gerais nela contidas. Noutro
dizer, a expedição de medidas cautelares no âmbito dos Tribunais de Contas,
antes de qualquer fundamento legal, decorre completa e imediatamente da sua
competência constitucional para o exercício do controle externo, através da fiscalização contábil, financeira, orçamentária,
operacional e patrimonial.
E nesse sentido já
se pronunciou o STF, que a Corte de Contas possui legitimidade para
a expedição de medidas cautelares para prevenir lesão ao erário e garantir a
efetividade de suas decisões, em voto da Ministra ELLEN
GRACIE. Em suma, a Corte Suprema do Judiciário entende que, se os
Tribunais de Contas estão incumbidos de zelar pela fiscalização e interesse público,
cabe-lhes, de igual sorte, expedir medidas cautelares necessárias a resguardar
o erário e garantir a eficácia de suas futuras decisões. É a chamada Teoria dos
Poderes Implícitos.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de 18 de agosto de 2013, domingo, Caderno A-7.
- Postado no
Blog Primeira Mão, Aracaju-SE, em 18
de agosto de 2013, às 20h40min, site
–
domingo, 10 de maio de 2015
Mulheres da Antiguidade - Gala Placídia
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
GALA PLACÍDIA
Vicki León
A
queda do Império Romano não foi como a demolição de um arranha-céu. Ele foi
esfarelando pelas bordas, ruído por um número crescente de poderosas tribos
bárbaras do norte e do leste, que se tornaram melhores e mais ousadas através
dos séculos. Outros fatores fizeram o biscoito se esfarelar: uma inflação de
dígitos duplos, falta de dinheiro em circulação, mudanças sociais e a velha
favorita – decadência moral. Os romanos tentaram se aguentar de diversas
maneiras, da ofensa e defesa à pacificação, subornos e alianças matrimoniais. A
imperatriz Gala Placídia e outras mulheres da realeza de sua época
desempenharam um papel raramente elogiado, mas fundamental nessa formação do
império por métodos não-sangrentos.
Nascida
em Constantinopla, em torno de 388 d.C., Gala era filha do imperador Teo II
(que mais tarde ficou famoso por abolir os Jogos Olímpicos pagãos de uma vez
por todas). Ainda criança, Gala mudou com o irmão Honório para Milão, onde ele
se tornou o imperador atrapalhado do Império Romano oriental. Não sendo do tipo
de verificar o placar romano na parede, Honório deixou que os visigodos
fizessem um treinamento prático, trabalhando para ele como governadores das
províncias. Quando Gala tinha vinte anos, os visigodos fizeram sua jogada. Eles
entraram rugindo em Roma, liderados por seu rei Alarico. Honório se escondeu
prontamente em Ravena enquanto eles faziam o cerco. Em 410 d.C. os invasores
finalmente saquearam Roma devidamente – o primeiro saque à cidade em oitocentos
anos de existência. Imaginem o pavor de Gala quando os visigodos também a
recolheram como despojo. Levada para a central dos visigodos, ela se viu
prisioneira.
Do
lado positivo, Ataulfo, que tomou o lugar de Alarico como bárbaro em comando,
gostou dela – e ela dele. Não sendo apenas broncos do tipo “eu Tarzã – você
Jane”, os líderes bárbaros conheciam os costumes romanos e podem até ter sido
cristãos da boca para fora. Gala casou voluntariamente com Ataulfo em Narbonne,
uma cidade da qual os visigodos tinham acabado de retirar os gauleses locais
como um aspirador de pó. Após um ano de casamento, os romanos mataram seu
marido. Entretanto, naquele breve ano, Gala já o havia transformado num
entusiasta do Império, nutrindo grande respeito por Roma e suas leis – imaginem
o que ela poderia ter feito se tivesse tido mais tempo.
De
volta entre os latinos, Gala foi em frente, casando (desta vez
consideravelmente menos encantada) com um general romano para garantir a
sucessão. Homenageada como Augusta, sua força altruísta e boa cabeça finalmente
foram colocadas à prova em aproximadamente 425 d.C., quando o filhinho de Gala,
Val III, pulou da cadeirinha de bebê para o trono. Como regente, Gala dirigiu
os assuntos do Estado por duas décadas, quando um oponente romano se aliou a
forças hunas para cortar o seu poderio. Ela então guardou suas bolinhas de gude
e foi para casa, tendo passado o resto de sua vida construindo lindas igrejas
nas cidades de Roma e Ravena.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “PULQUÉRIA”. Ela era uma mulher controladora que se
tornou imperatriz e regente do seu irmão Téo, tendo exercido o poder durante
quarenta anos no Império Romano oriental.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
domingo, 3 de maio de 2015
Habemus Papam
Artigo pessoal
Habemus Papam
Clóvis Barbosa
Após ser escolhido como Papa, ainda na Capela
Sistina, e lhe perguntado se aceitava a escolha, ele disse: “Eu sou um grande
pecador, confiando na misericórdia e paciência de Deus, no sofrimento,
aceito”. Logo, o cardeal protodiácono
Jean-Louis Pierre Tauran anunciou o habemus
Papam. Annuntio vobis gaudium magnun:
habemus Papam! Eminentisissimum ac Reverendissimum Dominum Georgium Marium,
Santae Romanae Ecclesiae Cardinalem Bergoglio, sibi nomen imposuit Franciscum.
A fumaça branca tomava conta da Basílica de São Pedro. O povo aplaudia e
vibrava com a notícia. A surpresa era que o cardeal Bergoglio era o primeiro
jesuíta a ser eleito Papa, o primeiro do continente americano e do hemisfério
sul e o primeiro não nascido na Europa em mais de 1.200 anos, desde São
Gregório III, nascido na Síria e que governou a Igreja Católica entre 731-741.
Fiquei curioso com a escolha e passei a acompanhar as suas palavras ainda com
muita desconfiança, embora orgulhoso da sua condição de sul-americano. Não
tinha qualquer simpatia por Bento XVI e tinha má-vontade de declinar o seu nome
na missa. Não sei, talvez não tenha bem assimilado o seu papado. A verdade é
que ele passava-me a ideia da prepotência. Mas com o Papa Francisco foi
diferente. Havia certa identidade. Assim como eu, ele tinha Fiodor Dostoievski,
autor de Crime e Castigo, como o seu
escritor preferido e imprescindível. Só faltou dizer que Fernando Pessoa era o
seu poeta de cabeceira. Aí seria demais! Mas outra faceta que o caracteriza é o
de dizer o que todo mundo já disse, mas de maneira dócil, didática, mas firme.
O seu discurso é assimilável por todos. Mas ninguém quer ouvir. Num mundo
eminentemente materialista, como o nosso, a civilidade dá cada vez mais lugar à
barbárie. O homem tem uma grande capacidade em avançar nos inventos, na
tecnologia, mas tem muita dificuldade em lutar contra a violência da fome, da
miséria, ou como ele diz: a violência que corta na carne e na alma dos
desvalidos. É preciso sempre lembrar o compromisso do homem com o próprio
homem. Se todos somos irmãos, não podemos fazer letra morta do senso que todos
devemos ter da solidariedade. A regra não pode ser a insensibilidade entre nós.
Esta, a insensibilidade, tem que ser a exceção.
A Igreja Católica sabe muito bem dos seus
erros durante a história. Erros que fulminaram o seu avanço. Ela se revela
muitas vezes em oposição à realidade. Não acompanha o avanço social e insiste
em defender teses contrárias ao que acontece diuturnamente na sociedade. O
nascimento do protestantismo, com Martinho Lutero, no século XVI, foi o marco
divisório de uma instituição que mandava sozinha como representante de Deus na
terra. Antes, o patrocínio da inquisição pela Igreja abalou completamente a sua
estrutura e tornou-se um dos atos mais abjetos que a humanidade conheceu. Foi
responsável pela morte coletiva na fogueira, em penas aplicadas pelos tribunais
públicos medievais, funcionava como corte de exceção, sempre castigando aqueles
que não rezavam pela sua cartilha. Em 1022, a igreja criou o primeiro Tribunal
Público Medieval em Orleans contra a Heresia e suas primeiras vítimas foram os
reformistas. O terror e a delação estavam na ordem do dia e as mortes na
fogueira eram inevitáveis. Os suspeitos eram perseguidos e julgados e as penas
impostas variavam desde a prisão temporária ou perpétua até a morte na
fogueira, onde os condenados eram queimados vivos em praça pública, sob os
olhares da multidão que vibravam com a cena dantesca. Esta forma de julgamento
se alastrou por toda a Europa. Muitas figuras da ciência foram perseguidas,
censuradas e até condenadas por defenderem teses e ideias contrárias à doutrina
cristã. Dois casos bastante conhecidos foram o de Galileu Galilei e Giordano
Bruno. O primeiro, astrônomo italiano que afirmava que o planeta Terra girava
ao redor do Sol, escapou por pouco da fogueira; o segundo, também cientista
italiano, não teve a mesma sorte, sendo julgado e condenado à morte por heresia
ao defender teses semelhantes, sendo queimado vivo na fogueira. Mulheres,
homossexuais, judeus, muçulmanos, reformistas, cientistas, loucos e até quem
tomava banho eram vítimas da inquisição. Até sorrir era proibido. Mas foi na
Espanha que a inquisição foi mais marcante. Autorizada por uma Bula do Papa
Sisto IV, em seis de fevereiro de 1481 seis pessoas foram queimadas vivas na
estaca. Em Sevilha, em novembro desse mesmo ano, 288 pessoas foram queimadas ao
mesmo tempo.
No momento em que o mundo acompanhou a
Jornada Mundial da Juventude, realizada
no Brasil, e que contou com a presença do Papa Francisco, dá-nos alento e
esperança o surgimento de uma nova Igreja Católica. Uma Igreja que não tem medo
de criticar os seus erros, que revaloriza a tradição popular, que questiona a
incoerência dos cristãos e de seus ministros, da defesa das pessoas que passam
fome, de quem é perseguido pela religião, pelas ideias, pela cor da pele e até
pelas opções sexuais. O mais importante, a pregação da solidariedade, tão
esquecida nos dias presentes: “Quando somos generosos acolhendo uma pessoa e
partilhamos algo com ela não ficamos mais pobres, mas enriquecemos. Quando
alguém que precisa comer bate na sua porta, vocês sempre dão um jeito de
compartilhar a comida; como diz o ditado, sempre se pode ‘colocar mais água no
feijão’.” Claro que alguns temas são ainda tabu, como as condenações do divórcio,
do aborto, da eutanásia, contraceptivos artificiais, sexo pré-marital, homossexualidade,
etc., mas, o importante é que o Papa Francisco está tendo a coragem de tirar do
armário os esqueletos que contribuem para perda de fiéis e os colocou na
antessala do debate. É revolucionária a assertiva dita no Santuário de Nossa
Senhora da Aparecida: “Sejamos luzeiros da esperança! Tenhamos uma visão
positiva sobre a realidade”. Faço minhas as palavras do cantor e compositor
inglês Elton John: O Papa Francisco é
para a Igreja Católica a melhor notícia dos últimos vários séculos. Este homem,
sozinho, foi capaz de reaproximar as pessoas dos ensinamentos de Cristo (...)
Os não católicos, como eu, se levantam para aplaudir de pé a humildade de cada
um dos seus gestos, porque Francisco é um milagre da humildade na era da
vaidade. Agora, na hora da missa, quando formos chamados a declarar
“Lembrai-vos, ó Pai, de vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro”,
vamos gritar “que ela cresça na caridade, com o papa FRANCISCO (...)”. Sim,
porque queremos um papa mais coerente com os ensinamentos de Cristo do que
apegado aos dogmas da igreja; um papa que fale a linguagem do povo. Hoje,
podemos bradar com todas as nossas forças, sem medo: Habemus Papam.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de
domingo e segunda-feira, 4 e 5 de agosto de 2013, Caderno A, página 7.
- Postado no
Blog Primeira Mão, Aracaju-SE, em 5 de agosto de 2013, às 13h20min, site –
http://www.primeiramao.blog.br/post.aspx?id=6065&t=clovis-barbosa----habemus-papam
Assinar:
Postagens (Atom)