segunda-feira, 19 de outubro de 2015
O Discreto Charme da Hipocrisia
artigo pessoal
O discreto charme da
hipocrisia
Clóvis Barbosa
Outubro de
1960
- Câmara Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso. Aprovado pelo Decreto
Legislativo n° 05, a concessão do Título de Cidadão de Aracaju ao Dr. João
Belchior Goulart, então vice-presidente da República Federativa do Brasil, “em reconhecimento aos inestimáveis serviços
que vem prestando ao operariado nacional”. O autor da proposta, assim
justificava a emissão de tal honraria: “Nascido em São Borja, recebendo do
imortal presidente Getúlio Vargas as lições de política social que iria
colocá-lo, mais adiante, na liderança dos trabalhadores brasileiros, o Dr. João
Belchior Goulart, conhecido por Jango, é uma das nossas mais autênticas
personalidades no cenário político do País, quer pela herança do trabalhismo,
quer, sobretudo, pela figura de condontieri
em defesa dos ideais e anseios das classes que labutam no comércio, no campo e
na indústria nacionais. Agora mesmo, devido à sua proverbial interferência, o
Governo foi compelido a decretar a Lei Orgânica da Previdência Social, estatuto
básico dos benefícios e amparo dos que fazem do trabalho o progresso da Pátria.
Outras lutas têm recebido de sua honrada pessoa o mais franco apoio, todas elas
revestidas da aspiração de um futuro melhor e de um presente mais risonho para
os humildes e os que são pobres. Deputado Estadual, Federal, Secretário do
Interior e de Justiça do Rio Grande do Sul, Ministro do Trabalho e
Vice-Presidente da República, jovem e portador de uma carreira promissora,
Jango merece o nosso aplauso franco, pela luta, também, da preservação de
nossas riquezas do subsolo, sendo, portanto, justo, esta homenagem a este
grande homem, por ter sido no passado, como no presente, um homem público de
envergadura, merecedor da confiança e da estima de milhões de brasileiros que
empregam o seu labor para o alevantamento da Nação”.
Outubro de
1961
– Câmara Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso - Aprovado pelo Decreto
Legislativo n° 02, a concessão do Título de Cidadão de Aracaju ao Governador
Leonel Brizola, “em reconhecimento aos
inestimáveis serviços prestados em defesa da Constituição e da legalidade
brasileira”.
Abril de 1964 – Câmara
Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso – Declarada pela Resolução n° 5 a
perda do mandato do vereador Manuel Vicente do Nascimento, eleito pelo Partido
Trabalhista Brasileiro. Estão nas justificativas da resolução: as Forças Armadas brasileiras, dando
magnífico exemplo de fidelidade às suas gloriosas tradições democráticas,
expurgou do Poder um governo que estava seriamente comprometido com o
vandalismo de Moscou, Pequim e Havana; esse movimento de caráter patriótico,
plenamente vitorioso, foi inspirado e promovido em defesa da restauração de
nossas liberdades ameaçadas pelos agentes da subversão; torna-se imprescindível
para a consolidação do regime e da ordem, o saneamento nos quadros
constitucionais em todas as esferas, especialmente na legislativa, de
parlamentares ligados, comprovadamente, com o comunismo internacional; o
vereador Manuel Vicente do Nascimento é filiado às hostes do extinto Partido
Comunista do Brasil, e vinha participando dos atos subversivos deflagrados em
nosso País, tornando-se um dos seus destacados líderes com vida ativa e
notória, especialmente no setor ferroviário; e, finalmente, que o referido edil
situou-se como um inimigo declarado da Pátria e de suas instituições, violando
a própria Lei de Segurança Nacional.
Maio de 1964 – Câmara
Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso – Duas resoluções foram
aprovadas, a de n° 14, de 21 de maio de 1964, revogando o Decreto Legislativo
n° 2, de 19 de outubro de 1961, que concedeu o Título de Cidadão de Aracaju ao
Sr. Leonel Brizola, “em vista haver o
ex-Deputado Federal concorrido para a comunização do Brasil”; outra, a
Resolução n 10, de 25 de maio de 1964, que revoga o Decreto Legislativo n° 02, que
concedeu o Título de Cidadão de Aracaju ao Sr. Leonel Brizzolla, “tendo em vista a recente cassação dos seus
direitos políticos e a perda de seu mandato, decretadas pelos órgãos
competentes”.
Maio de 1964 – Câmara
Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso – Aprovada Resolução nº 11, de 26
de maio de 1964, revogando o Decreto-Legislativo n° 5, de 24 de outubro de
1960, que concedeu o Título de Cidadão de Aracaju ao Sr. João Belchior Goulart,
“tendo em vista a recente cassação dos
seus direitos políticos e a perda de seu mandato, decretadas pelos órgãos competentes”.
Dezembro de
1995
– Câmara Municipal de Aracaju, Palácio Graccho Cardoso – Duas resoluções foram
aprovadas. A de n° 18 restituiu o Título de Cidadão de Aracaju ao Sr. João
Belchior Goulart, precedida da seguinte justificativa: Nunca é tarde para reparar uma grande injustiça. Mesmo após a morte do
Sr. João Belchior Goulart, cabe a esta Casa reparar o ato injusto e
subserviente que cometeu ao cassar o Título de Cidadania deste bravo brasileiro;
a de nº 19 restituiu o Título de Cidadão de Aracaju ao Sr. Leonel de Moura
Brizola, com a seguinte justificativa do autor do projeto: Esta Resolução visa reparar um ato de injustiça praticado por esta Casa
Legislativa quando subservientemente resolveu agradar aos senhores da ditadura
Militar, cassando o Título de Cidadão Aracajuano concedido ao Sr. Leonel de
Moura Brizola pelo fato de que o mesmo fora cassado.
Pois
bem, tirante as incongruências contidas nos atos formais das resoluções, como
aquelas que tratam da revogação do Decreto-Legislativo que concedeu o título a
Leonel Brizola, na verdade, as cassações dos títulos de cidadania que foram
concedidas ao ex-presidente João Goulart e ao ex-governador do Rio Grande do
Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, estão eivadas de nulidades. Os títulos
foram concedidos através de um Decreto-Legislativo e somente por esta
ferramenta jurídica poderia ser revogada. Na ânsia de baixar as calças para a
ditadura militar, os vereadores aracajuanos resolveram revogá-los através de
resoluções, cujos efeitos são meramente internos, não alcançando o mundo
exterior. Não havia a necessidade dos títulos serem restaurados em 1995, uma
vez que os mesmos, juridicamente, nunca foram revogados. O mesmo ocorreu com o
vereador Manuel Vicente do Nascimento, eleito pelo povo e que teve o seu
mandato cassado através de resolução. Não poderia ser feito por esse
instrumento jurídico pelos mesmos argumentos. A injustiça perpetrada pela
Câmara Municipal de Aracaju com esses homens precisam ser reparadas, mesmo post-mortem. A Câmara deve pedir desculpa
ao povo sergipano e às famílias de João Goulart, Leonel Brizola e Manuel
Vicente do Nascimento. Aos dois primeiros, entregando aos seus familiares o
Título de Cidadão de Aracaju. Ao último, restituindo simbolicamente o mandato
de vereador.
As ditaduras têm um poder
extraordinário na criação de um tipo de disfunção mental onde o indivíduo é
incapaz de distinguir o bem do mal. É a chamada hipocrisia consciente, que
chega a tornar-se pandêmica. Um exemplo foi o golpe militar que se instaurou no
Brasil a partir de 1964 durante os anos de chumbo. Mas tudo isso acabou. Está
na hora de se resgatar a dignidade através do discreto charme. Não, o da
hipocrisia, mas o da virtude da justiça. Façamos, pois, em nome da justiça, as
reparações a esses três cidadãos.
-
Publicado no Jornal da Cidade,
Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 22e 23 de dezembro de 2013,
Caderno A-7.
-
Postado no Blog Primeira Mão no
domingo, 22 de dezembro de 2013, às 18h48min, sítio:
sábado, 10 de outubro de 2015
Mulheres da Antiguidade - Elpinice
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
ELPINICE
Vicki León
Arrogante,
intelectual e elegantemente falida, Elpinice conseguiu fazer o que poucas
mulheres atenienses já fizeram – manter-se solteira depois dos catorze anos, a
idade em que a maioria das garotas se tornava noiva. Feminista ela não era. Ela
detestava liberais, pessoas pobres e malditos estrangeiros, com exceção dos
espartanos – em outras palavras, quase todos que não tivessem sangue
aristocrático. Contudo, ela também conseguiu viver uma vida relativamente
independente – uma proeza que as mulheres de sua classe simplesmente não tinham
muita chance de realizar na Atenas do século V.
Naturalmente,
ela pagou por seu comportamento. Os atenienses diziam que ela dormia com o
pintor Polignoto, que colocou seu rosto numa pintura autorizada para um prédio
público (esse ato aterrorizante de autoconfiança excessiva é que foi
interpretado como ir além dos limites pela turma lacônica de seu círculo
social). Uma fofoca ainda mais suculenta estava sempre circulando sobre seu
relacionamento com o meio-irmão, Címon, líder político da cidade antes de
Péricles. Ela vivia com ele há anos; mas será que ela, você sabe, vivia com
ele? Que ela amava o irmão, não há dúvida; pelo menos duas vezes Elpinice se
prostrou diante de Péricles em sua defesa – uma vez, quando Címon estava sendo
julgado, sob risco de pena de morte. A mulher também não conhecia o significado
de quiproquó. Anos mais tarde, quando Péricles fez sua oração pelos homens que
haviam morrido na guerra contra a ilha de Samos, Elpinice quase cuspiu em sua
cara: “Claro que você foi corajoso – mas nos privou de homens valiosos ao lutar
com outros gregos numa cidade aliada. Não foi a mesma coisa que meu irmão
Címon, que perdeu seus homens lutando contra os persas”. Era mais uma vez o
argumento do “estrangeiro sujo”. Címon já havia falecido àquela altura, morto
numa batalha em Chipre.
Elpinice
tocava flauta – que era sempre um hábito malicioso numa mulher; ela também foi
retratada numa jarra tocando sua flauta (primeiro, a pintura, e agora isto!).
Para seu governo, pinturas em jarras, especialmente em taças de vinho, eram
consideradas privilégios de olhos masculinos, já que a maioria das festas só
era frequentada por homens e mulheres de reputação duvidosa. O objeto do tema
tendia a estar nu e picante, e quaisquer mulheres retratadas eram geralmente
profissionais pagas. Os pintores de jarras (alguns deles eram mulheres) também
não tinham boa reputação; o distrito cerâmico, onde os vasos eram modelados,
também era o distrito sórdido, onde as prostitutas vendiam sexo.
Não
obstante seu comportamento incômodo e a preferência por uma vida de solteira,
Elpinice casou. Seu marido, Callias, famoso como diplomata e soldado, também
tinha dinheiro. Com essa mulher sem cerimônia e sem limites, ele provavelmente
precisou mais de sua diplomacia do que dos seus dracmas.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “HIDNA E SUAS COMPANHEIRAS HERÓICAS”. Elas viveram no
século V, a.C. e Hidna era um ás da natação e do mergulho. Essas mulheres
gregas , a , mulher ateniense que viveu no século V, a.C. Era arrogante,
intelectual e elegantemente falida.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
domingo, 27 de setembro de 2015
Feridas da Vida
Artigo pessoal
Feridas da
vida
Clóvis Barbosa
Ele
tinha três aninhos. Estava todo arrumado. De sapatinho, camisinha vermelha,
shortinho azul e cabelo cortado. Quem sabe, com aquele cheirinho gostoso de
lavanda. Estava vestido como se fosse passear. Ou a uma festa de aniversário
brincar com outras crianças. Exalava inocência e vida. De repente, levaram-lhe
para atravessar o mar. Sem saber, a esperança de um mundo melhor o levaria à
morte. O mar lhe trouxe intacto, como a
mostrar para todos nós o quanto da nossa insensatez e da nossa maldade. Ah,
como o mar é implacável! Por que fez isso? Logo ali, entre a areia e as
ondas que vinham e iam? Ali onde muitas crianças brincam e são felizes com seus
familiares? Mas, o impressionante foi a posição de suas mãozinhas. Ambas viradas
para trás como a pedir socorro: - por
favor, ajude-me, eu sou uma criança! Entretanto, a natureza é pródiga.
Notem que nenhum peixe, nenhum animal marinho tocou no seu corpinho, como a
homenagear a inocência. Deus! Onde estás
que não te vejo? Por que permitiste que essa criança morresse nessas
condições? É crime de lesa-natureza uma criança morrer. A criança não nasce
para morrer. Ela nasce para irradiar alegria, para nos dar exemplos da força da
ingenuidade e da pureza da alma. A criança é luz, é renovação, é a representação
da esperança de um mundo melhor. A foto acima é do menino sírio Alan Kurdi. Ao
vê-la, dá vontade de agasalhá-lo nos braços, afagando-lhe os cabelos. Ele estava
com a família num pequeno bote que carregava 17 pessoas. O barco virou bem
próximo ao balneário de Bodrum, na Turquia. Fugiam da maldade humana e de um
mundo insensato, em busca de paz e na esperança de um novo amanhã. Escapavam da
cidade de Kobane, palco de violentos embates entre militantes extremistas
muçulmanos e forças curdas oficiais. Seu irmão Galip, 5 anos, e sua mãe Rehan,
também morreram afogados, mas seu pai, Abdullah Kurdi sobreviveu. Ele disse: - meus filhos eram as crianças mais
maravilhosas do mundo. Eles me acordavam todas as manhãs para brincar.
Alguém, irresignado com a morte de uma criança, cunhou um dos mais contundentes
petardos contra a humanidade, contra o mal existente em cada um de nós: “De
cada criança morta nascerá um fuzil com olhos que terminará por lhe achar o
coração”.
Em fevereiro deste ano, aqui neste
espaço, escrevi um ensaio sobre a origem do mal. Ali, tento fazer uma reflexão
através de sete perguntas capitais: se Deus foi o criador de tudo, o mal também
foi criado por Ele? Por que existe o
mal? O bem e o mal são intrínsecos à natureza humana? O mal é uma criação do
meio em que se vive? O que é, na verdade, o bem e o mal? Por que Deus tolera o
mal? Como nasceu o mal? Todos conhecem o Hino da Criação do Universo. Ali está
dito que Deus criou o céu e a terra, as águas do mar, a noite e o dia, plantas
que geram sementes, árvores frutíferas, seres vivos nas águas e pássaros que
voam abaixo do firmamento, animais domésticos, pequenos e selvagens, segundo
suas espécies, monstros marinhos, e seres humanos à Sua imagem e semelhança.
Tudo, portanto, foi criado por Deus. E a Bíblia arremata que tudo criado por Deus
é bom, especialmente o ser humano – homem e mulher -, coroamento da criação.
Depois dessa sentença bíblica, começam a fervilhar as perguntas que não saem da
cabeça. São perguntas para reflexão diante de um mundo de predomínio da
maldade. De um mundo onde cada vez mais o homem faz questão de mostrar seus
instintos primitivos. Aliás, na própria Bíblia, Habacuque questionou Deus sobre
o mal: Tu [Deus] és tão puro de olhos, que não
podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que
procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais
justo do que ele? E ali eu lembrava do perigo de se fazer tantas
perguntas. Há cerca de 2.400 anos, em Atenas, por perguntar demais, um homem
foi condenado à morte, obrigado a tomar veneno preparado com cicuta: Sócrates.
Aliás, para ele, o mal seria resultado da ignorância, não teria existência real
e, assim, o homem sábio deveria superá-lo. Mas, a sua morte, ao contrário do
que se imaginava, fez estimular na história da filosofia o pensamento
perquiridor. Epicuro, por exemplo, filósofo grego que nasceu no ano 341 e
morreu em 270 a.C., foi bastante persuasivo ao falar sobre o mal moral, ou
seja, o mal causado pelos seres humanos. Epicuro questionava como poderia um
Deus bom e todo-poderoso admitir o mal? Ora, segundo ele, se Deus não pode
impedir que isso aconteça, então não é verdadeiramente todo-poderoso.
Mas foi Santo Agostinho quem
defendeu a tese de que a origem do mal estaria no livre-arbítrio concedido por
Deus. Todo mal, para ele, seria resultado do livre afastamento do bem. O mal, assim,
seria a ausência do bem. Durante muito tempo se acreditou que a bondade vinha
da alma e o mal do corpo, com todas as suas contradições. E mais ainda, a
religião maniqueísta explicava a existência do mal diante do confronto de duas
forças antagônicas, uma representando o bem, Deus, outra o mal, o Diabo. Ambos
seriam fortes e nenhum deles conseguiria destruir o outro. Embora maniqueísta na
sua juventude, Santo Agostinho se afastou dessas teses, principalmente ao
tentar explicar o motivo de Deus permitir o sofrimento em decorrência da
prática do mal. Para ele, ao receber o livre-arbítrio, teria o homem o poder de
escolha. Santo Tomás de Aquino repete Santo Agostinho, e vê o mal como ausência
do bem. Segundo Aquino, o mal não tem perfeição nem ser. O mal só
pode significar a ausência do bem e do ser; pois o ser, enquanto ser, é um bem.
Por essa razão, o mal representa algo puramente negativo, ou melhor, ele não é
nem essência nem realidade. Ele se apresenta como privação de uma propriedade que
a substância deveria possuir. O mal, portanto, seria uma
privação, ou seja, a falta daquilo que deveria estar presente. Num momento em
que a igreja associava o mal à imagem do demônio e do pecado, Jean-Jaques
Rousseau revolucionou a discussão da matéria, ao enunciar “que a primeira fonte
do mal é a desigualdade” e que “O homem nasce livre, e em toda parte é posto a
ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto
ele”. Essa visão de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe criou muitos
problemas para ele, já que esse entendimento ia de encontro aos valores da
época, principalmente aqueles defendidos pela igreja. A obra de Rousseau está
consolidada em Discursos sobre as
Ciências e as Artes, Discurso sobre a
Origem da Desigualdade, O Contrato Social, Emílio e As Confissões e é tida
como importante na história da filosofia política. Já Kant entende que o mal
está enraizado na natureza humana, diante do poder de escolha que o homem tem
para decidir o que fazer. Enfim, o bem é um imperativo categórico e tudo que
vai de encontro a ele seria o mal.
E diz Kant: (...) o fundamento do mal não pode residir em nenhum objeto que determine
o arbítrio mediante uma inclinação, em nenhum impulso natural, mas unicamente
numa regra que o próprio arbítrio para si institui para uso da sua liberdade,
i.e., numa máxima. O espiritismo também defende a pureza da alma e que nela
está armazenada bilhões de anos de existência. Para essa doutrina, a origem do
mal estaria na consciência do homem e na sua convivência com o bem, este sempre
eterno e aquele temporário. Para os Espíritos da Codificação Espírita, o bem é
tudo o que é conforme a lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta. Allan
Kardec, no Livro dos Espíritos, enuncia:
[...]
os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa ao homem a escolha
do caminho. Tanto pior para ele, se toma o mau caminho: sua peregrinação será
mais longa. Se não existissem montanhas, o homem não compreenderia que se pode
subir e descer; e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos
duros. É preciso que o Espírito adquira experiência e, para isso, é necessário
que conheça o bem e o mal. O pensamento
humano e a ideia do mal tiveram o seu ponto máximo na descoberta do inconsciente por Sigmund Freud. Para ele,
grande parte das nossas ações é movida por desejos recônditos, formulados a
partir de lembranças traumáticas reprimidas, tal qual um reservatório
de impulsos eticamente inaceitáveis para o indivíduo. Retorno a Kant, que pertenceu ao grupo que defendia uma das
matrizes do sistema ético, a chamada deontologia, onde o que importa são os
princípios. Se a regra é “não matarás”, “não roubarás”, “não mentirás”, violará
o sistema quem as descumprir, pois amparadas por ideais universais. Mas saiu de
Czeslaw Milosz - poeta, romancista e ensaísta, de naturalidade
polonesa, prêmio Nobel de literatura em 1980 - a ideia de que o bem e o
mal só existem no homem. Assim, se a espécie humana deixar de existir, eles, o
bem e o mal, também desaparecerão. É o mal existente em cada um de nós que mata
as nossas crianças, que cria os nossos medos. O corpinho de Alan de rosto na
areia, na beira do Mediterrâneo, parecia mostrar que ele dormiu cansado de
tanto brincar... quem sabe com os peixinhos, sonhando que crianças como ele
nunca mais morreriam.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo, 27 de setembro de 2015, Caderno A, página 7.
- Postado no Blog "Primeira Mão", Aracaju-SE, em 27 de setembro de 2015, às 14h28min, site: http://www.primeiramao.blog.br/post.aspx?id=9826&t=feridas-da-vida
domingo, 20 de setembro de 2015
Mulheres da Antiguidade - Aspásia
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
ASPÁSIA
Vicki León
Os
atenienses antigos eram como os nova-iorquinos: se você não tivesse nascido lá,
podia esquecê-la. Na metade do século V, a.C., as mulheres ousadas mais famosas
do mundo fizeram essa dolorosa descoberta. Proveniente de uma boa família em
Mileto, a talentosa Aspásia poderia ter sido tudo se tivesse permanecido em sua
base natal. Considerada a mais importante das cidades jônicas na Ásia Menor,
Mileto estava assentada como uma rainha na costa da região que hoje corresponde
à Turquia, sendo ela mesma uma potência militar e colonial. Todavia, como
Evita, Aspásia sentiu a atração da Big Apple
– que, naqueles tempos, significava Atenas.
Ela
veio para a cidade como uma residente estrangeira – uma situação tão criticada
naqueles tempos quanto é hoje nos Estados Unidos. Acostumada à liberdade social
e intelectual que as mulheres desfrutavam na Jônia, Aspásia tentou viver da
mesma maneira em Atenas. Imediatamente, foi rotulada como uma hetera, um termo
elástico significando qualquer coisa desde
“companheira-não-sexual” a “prostituta descarada”, dependendo do
contexto.
Se
Aspásia vendia ou dava de graça, parece ser irrelevante. Ela traficava coisas
muito mais perigosas – os atenienses realmente detestavam que uma mulher
pudesse usar seu cérebro e perspicácia política para conquistar o respeito e a
amizade de Péricles, Sócrates e outros homens instigadores e agitadores. Homens
poderosos a procuravam – não para sexo, mas para aconselhamento sobre oratória.
Aspásia também não tinha problemas no departamento de qualidades físicas.
Péricles, o líder divorciado de Atenas, a adorava. Impossibilitados de se
casarem, eles viviam juntos como marido e mulher e tiveram um filho, também
batizado de Péricles. Pensando bem, ele a tratava melhor do que uma esposa
ateniense era tratada: passando em casa duas vezes por dia para beijá-la,
discutindo tudo com ela, desde filosofia até rumores de mercado, e lhe dando
respeito, amor e liberdade de movimento durante duas décadas.
Falada,
admirada, severamente criticada, imitada e parodiada, Aspásia era singularmente
semelhante ao filósofo Sócrates. Ambos tinham a coragem de fazer aquilo que
achavam ser certo. Como Sócrates, supostamente Aspásia foi levada a julgamento
por sua irreverência. Como ele, ela não tinha qualquer riqueza a não ser o
depósito de riquezas de sua mente (o que presumivelmente prova que ela não era
uma hetera, já que a maioria delas se dava muito bem na área financeira). Ambos
tinham vidas cheias de tragédia e crítica injusta. Por exemplo, Aspásia foi
perseguida por “incitar” a guerra de 430
contra a ilha de Samos – com base no raciocínio de que Mileto e Samos eram
inimigos tradicionais. Também existem comparações maldosas de Aspásia com
Targélia, uma cortesã de Mileto famosa como agente secreta.
Entre
430 e 427 a.C., uma praga destruiu as entranhas de Atenas, matando um terço de
sua população. Aspásia sobreviveu, mas perdeu Péricles, o amor de sua vida.
Antes de morrer, seu amado pôde tornar seu filho um cidadão ateniense. O garoto
veio a ser general. Foi bom que Aspásia não tenha vivido para ver 406 a.C.,
quando os atenienses se voltaram contra o segundo Péricles e o mataram.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “ELPINICE”, mulher ateniense que viveu no século V,
a.C. Era arrogante, intelectual e elegantemente falida.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
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