Aracaju/Se,

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Primavera sem Flores

Opinião Pessoal

Primavera sem flores
Clóvis Barbosa
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Tento entender, confesso, com minhas elucubrações filosóficas, o comportamento humano. E cada vez mais me conscientizo que o que nos humaniza é o fracasso. Não pretendo discutir teses antropológicas, mas refletir um pouco sobre as mesquinharias da vida a que tanto damos importância e nossa dificuldade em lidar com a felicidade coletiva. Se, como dizia a poetisa Florbela Espanca, “tudo no mundo é frágil, tudo passa...” por que elegemos determinados tipos de sentimentos como prioridade no nosso dia-a-dia? O ódio, exteriorizado com prazer orgástico, encontra neste momento de eleições ambiente propício para se desenvolver e, por vezes, desencadear um processo de obsessão contra aquele que pensa diferente de nós. Lembro-me de Millôr na sua conceituação de democracia e ditadura: “Democracia é quando eu mando; ditadura é quando você manda”. Tenho vivenciado, neste momento de escolha de representação política, casos inusitados que me fazem lembrar o talento desse grande escritor pernambucano Nelson Rodrigues, quando disse que “vivemos numa época dominada pelos idiotas”. A frase continua atualizada. Cícero, pensador romano, que viveu entre os anos 106 e 47 a.C, afirmava que “A verdade se corrompe tanto com a mentira como com o silêncio”.  a mentira é caolha e é arma dessa matilha tíbia de caráter; e o silêncio, a conduta dos dúbios de personalidade e dos castrados de mente e espírito. Infelizmente, a luta contra esse tipo de gente já nasce perdida, daí a impotência da minoria pensante. A mediocridade domina os ambientes em detrimento do mérito. Essa alcateia está em todos os lugares marcando posição. Recentemente estava numa festa quando, na roda de pessoas em que me encontrava, uma delas sugeriu a um dos interlocutores, um médico, que votasse em determinado candidato majoritário. A resposta foi violenta e os mais absurdos adjetivos foram desferidos contra o candidato, por sinal também médico. A coisa ficou feia e uma forte discussão tomou conta do recinto, somente não chegando a maiores consequências em face da intervenção dos presentes. Mas, a roupa suja que foi lavada naquele momento, deixando todos perplexos com as acusações reveladas, levou-me a uma dura constatação: ali estava consagrado o chamado ódio de classe, onde predominava a obsessão pela intocabilidade egoística da corporação. A contratação de médicos estrangeiros para atender a população pobre do interior era radicalmente contestada, entretanto, não se oferecia uma alternativa para uma prestação de saúde mais eficaz pelos profissionais da terra.
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Enquanto penso nesse tipo de comportamento humano, emociono-me ao lembrar-me de uma menina de 13 anos, Blanche Zybert. No dia 21 de setembro de 1943, ela escreveu um bilhete a lápis sobre um papel que dizia: “Querido Henri: estamos bem, em um vagão de trem que provavelmente nos levará à Holanda”. Jogou o bilhete pela janela do trem que a levava de Mechelen, Bélgica, a Auschwitz-Birkenau, o campo de extermínio criado pelos nazistas na Polônia. Esse bilhete foi encontrado e se encontra hoje no Kazerne Dossin, uma espécie de museu sobre o Holocausto, inaugurado em 2012 em Mechelen, no exato local onde servia de terminal para a chamada última viagem. Mas, os exemplos históricos estão aí para nos alertar daquilo que Kant, em “Crítica da Razão Prática”, nos dizia. O homem é um ser capaz de seguir uma lei moral racional. No entanto, também ele é suscetível de ser desviado dela pelos desejos. Agir moralmente, como se nota, é sempre uma batalha. Kant, como se observa, continua atualizadíssimo. O desejo tem sido o estopim dos grandes males que atormentam a humanidade. Por ele, cometem-se os atos mais vis ou  crueis. Mas, o desrespeito com o pensamento alheio tornou-se objeto de virulentos ataques e da oportunidade do destilamento de ódio contra alvos preferidos. Recentemente, uma polêmica tomou conta da mídia e das redes sociais. O presidente da OAB-DF, Ibaneis Rocha, deu entrada na Comissão de Seleção e Prerrogativas daquela seccional em um pedido de impugnação à inscrição nos quadros de advogados do ministro aposentado do STF, Joaquim Barbosa. O impugnante lembra vários fatos praticados pelo ministro contra advogados no exercício da profissão e até conceitos firmados em desfavor da OAB. Cita o caso de Maurício Correia, ex-ministro do STF e ex-presidente da OAB-DF, a quem lhe foi imputado pelo impugnado a prática do crime de tráfico de influência previsto no Código penal, tendo salientado: “Se o ex-presidente desta Casa, Ministro Maurício Correia não é advogado da causa, então, trata-se, de um caso de tráfico de influência que precisa ser apurado”. Em sessão do CNJ, generalizou suas críticas a juízes e advogados: “Há muitos juízes para colocar para fora. Esse conluio entre juízes e advogados é que há de mais pernicioso. Nós sabemos que há decisões graciosas, condescendentes, absolutamente fora das regras”. Sobre a criação de novos Tribunais Regionais Federais, disse que “Os Tribunais vão servir para dar emprego aos advogados e vão ser criados em resorts, em alguma grande praia”.
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Outras diatribes praticadas pelo antigo ministro do STF contra advogados foram citadas, todas merecendo o repúdio da instituição em várias oportunidades. Mas, o que se quer aqui registrar é o direito de petição que tem toda e qualquer pessoa. Se há o bom direito na pretensão do battonier da corporação advocatícia, esta vai ser avaliada, após o devido processo legal, onde a parte impugnada vai ter a oportunidade de se manifestar e rechaçar os argumentos produzidos contra si. Pronto, não há necessidade de tratar o evento como se fosse um ato insano ou de retaliação. Soa estranho que um homem integrante da mais alta Corte do país, que tratou a advocacia com desdém, fazendo acusações generalizadas, queira, agora, fazer parte dessa mesma instituição.  Penso que o homem quedou-se inerte ao seu cotidiano. E toda vez que ameaçam esse cotidiano nos transformamos em feras banais. É uma pena! Que fazer com pessoas que se contentam com uma primavera sem flores? Apesar de tudo, como Vandré, ainda acredito nas flores vencendo o canhão da insensatez.

Post Scriptum
Quarta-feira de cinzas
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Durante a semana que estava escrevendo o artigo da quinzena passada (Ciclo da Vida, republicado em 28/09/2014), indagava a alguns amigos sobre a felicidade. – o que era felicidade? Recebi do amigo Luiz Eduardo Oliva, após publicação do artigo, o seguinte e-mail: “Na quarta feira de cinzas cai o pano. A vida volta à realidade. Os bacantes recolhidos salivam o sabor azedo da ressaca. Há ainda uma confusão na mente, ressoa o eco dos dias da tríade momesca. Vem a velha canção ‘carnaval desengano, deixei a dor em casa me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei, quarta-feira sempre desce o pano!’ Ah, a felicidade... e afinal, o que é a felicidade? Indagava-me ontem o velho Clóvis Barbosa ao brindar um Pinot Noir numa cantina ítalo-sergipano nada momesca. Eis a pergunta para nenhuma resposta convincente. A única que me ocorre é que a felicidade é a festa do coração, dura enquanto durar a festa. Lembrei-lhe o grande J. Inácio, o mágico pintor do amarelo, da luz do sol e das bananeiras nas terras Del Rey que um dia, exaltando o pintor de paredes no seu ofício numa manhã nos anos oitenta dum festival de arte de São Cristóvão, disse-me: ‘- Não sei porque os homens fazem festas. Para mim a festa é o sol que invade meu quarto trazendo todas as cores quando acordo e me diz: homem, vai pintar...’ Então lembrei a canção de Haroldo Barbosa e Luiz Reis ‘...eu abri a janela  e esse sol entrou...de repente, em minha vida  já tão fria e sem desejos...estes festejos, esta emoção...luminosa manhã...porque tanta luz, tanto azul...é demais pro meu coração...’ Vejo o quadro ‘Quarta-feira de cinzas’, obra do pintor alemão Carl Spitzweg e observo quanta verdade há nele para retratar o fim do carnaval... Um pierrot e sua realidade: finda a festa, de volta à prisão da vida, uma tosca moringa d'água e um exuberante raio do sol da esperança a atravessar as grades da prisão da vida... Carnaval desengano... Volto à pergunta do velho Clóvis Barbosa: E a felicidade...? Uma luminosa manhã...”

- Publicado no Jornal da Cidade, edição de domingo e segunda-feira, 12  e 13 de outubro de 2014, Cqderno A-7.
- Postado no Blog Primeira Mão, em 12 de outubro de 2014, às 10h34min, sítio:


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mulheres da Antiguidade - Musa

Isto é história

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
MUSA
Vicki León
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A ascensão da carreira de Musa começou no último degrau da escada – como escrava numa residência romana do século I a.C., possivelmente como propriedade do próprio Júlio César. Quaisquer que fossem suas imperfeições, Júlio tinha um coração mais bondoso do que a maioria dos donos de escravos, que realmente eram quase todas as pessoas. Certa ocasião, ele foi jantar na casa de um sujeito rude chamado Pólio, cujo escravo acidentalmente quebrou uma taça de cristal. Enfurecido, Pólio ordenou que o garoto fosse jogado como comida de peixes num lago com enormes enguias lampreias. O garoto correu para César, suplicando para morrer de forma menos horripilante. Júlio respondeu libertando o garoto, aterrando o lago fatal, e fazendo com que quebrassem o resto das taças de cristal de Pólio em sua presença.
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Imperador Heliogábalo

Os escravos tinham realmente uma vida dura: eles podiam ser espancados, marcados a ferro por terem fugido, usados e abusados sexualmente, torturados se seu testemunho fosse necessário para fins legais e forçados a fazer tudo quanto é tipo de serviço sujo e perigoso. Séculos mais tarde, os escravos de fato serviram de comida de peixe em ocasião: o Imperador Heliogábalo adorava um prato de congros que eram engordados com escravos cristãos.
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Muitos fatores mantinham a multidão de escravos reaquecida ao longo dos tempos antigos, incluindo-se pirataria, prisioneiros de guerra, pobreza, bebês enjeitados e bebês nascidos de outros escravos. Do lado positivo, os escravos às vezes tinham chances de melhorar suas posições e de se tornar livres. Frequentemente, os donos os libertavam em seus testamentos, ou, anteriormente, os escravos podiam fazer trabalhos autônomos e comprar seu passe de saída da servidão. Homens e mulheres libertados, nas sociedades de Roma, Pérsia e Mesopotâmia, tradicionalmente preenchiam postos nos mais altos níveis administrativos.
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Escrava jovem, Musa tinha dotes físicos óbvios em seu curriculum vitae. Sua aparência motivou Júlio César a escolhê-la como um presente de “Alô, bem-vindo a Roma” para o potentado visitante, Fraates IV. Este velho cavalheiro do reino de Pártia (agora região nordeste do Irã) estava na cidade para bater um papo com Julio sobre seu novo status como Estado vassalo em dívida com o Império Romano.
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No momento em que recebeu seu prêmio em casa, Fraates já havia feito Musa pular um ou dois degraus acima na escada. Ela se tornou primeira concubina, depois esposa legal, depois mãe de seu filho, Fraataces. O rei Fraates já tinha um bando de outros filhos legítimos, mas logo Musa os tirou do caminho com a seguinte sugestão: “Querido, vamos mandar seus meninos para Roma como garantia de sua fidelidade”. Proveniente de uma longa linha de parricidas, o choque não poderia ter sido maior para o rei Fraates, quando Musa e seu filho aderiram ao estilo assassino e o transformaram devidamente em pó. Para proteger seu investimento, Musa então casou com o próprio filho, tornando-se governante de Pártia junto com ele – nessa associação não havia limite de ascensão – e cunhando uns retratos ótimos de si mesma em moedas mãe-filho. Nos tempos de Musa, as pessoas progrediam usando táticas criminosas que eram mais de caráter prático do que corporativo – acho que isso fazia dela uma jovem assassina em ascensão.  

A autora
Vicki León
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- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da Antiguidade vai falar de “FÚLVIA”, uma mulher encantadora que tinha uma veloz capacidade de mudar de marido endinheirado e poderoso. Mandou e desmandou ao lado de um dos seus maridos, Marco Antônio, no império Romano. Foi ofuscada, entretanto, por Cleópatra VII, tudo isso nos anos 40 a.C.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ciclo da Vida

Opinião pessoal
Ciclo da Vida
Clóvis Barbosa


Akira Kurosawa. Japonês e um dos mais brilhantes cineastas da história do cinema. Qual o cinéfilo que não assistiu Os sete samurais, Yojimbo, O guarda-costas? Pois bem, revi, um dia desses, Viver (Ikiru), um dos mais líricos filmes de sua carreira e com uma grande carga de humanismo. O filme foi realizado em 1952 e, na época, recebeu o prêmio especial do senado de Berlim durante o Festival Internacional daquela cidade. A história: Kenji Watanabe é um servidor público que tinha o maior orgulho de nunca ter faltado a um só dia do seu trabalho numa repartição da prefeitura de Tóquio, durante 30 anos. Era um troféu que ele carregava pela sua vida trivial. Mas, um dia ele descobre que está com câncer e o seu tempo de vida é muito curto. O câncer lhe ensinou a redescobrir a vida em relação às suas conquistas e prioridades e se volta para o projeto de construir uma praça na sua pequena aldeia. Um gesto simples, mas importante na reviravolta dada na vida do personagem. Muitas vezes, é através do sofrimento que se atinge a felicidade. Não foi Vinícius de Moraes que disse que o sofrimento é o intervalo entre duas felicidades? Como se vê, foi preciso que houvesse a perspectiva da morte para mudar um tipo de vida aparentemente medíocre. Embora triste e fale sobre esta doença cruel, o filme é a favor da vida. Mas este é o ciclo da vida: nascer, viver e morrer. Entre o nascer e o morrer o homem sempre está à procura da felicidade. E o que é isto? Platão dizia que a felicidade está na perseguição daquilo que você não tem. E quando consegue não se satisfaz, e se apega a uma nova busca. Em outras palavras, a felicidade nunca se estabelece no homem. Aristóteles, por seu turno, acreditava que a felicidade estava naquilo que a gente já tem. Santo Agostinho dizia que a vida virtuosa e a comunhão com Deus levam a uma vida feliz. Já Nietzsche afirmava que não existe a felicidade plena. O homem, para ele, é um ser pervertido. Reduz-se ao prazer da carne.
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Na região onde hoje estão situados o Irã e o Afeganistão, no século VII a.C., Zoroastro foi fundador de uma doutrina religiosa, chamada zoroastrismo, que defendia um estado de felicidade plena quando o bem derrotasse o mal, transformando a vida do homem em algo agradável e repleto de justiça e de saúde. O problema é que o bem sempre está guerreando contra o mal e, felicidade que é bom, jamais. Nessa mesma época, dois filósofos chineses apontavam dois caminhos para se atingir a felicidade: Lao Tsé dizia que ela poderia ser atingida pela prática de nossas ações e pela relação com a natureza; Confúcio pregava o disciplinamento rigoroso das relações sociais como fórmula de atingir a perfeita felicidade. O Dalai Lama Tensin Gyatso enfatizava o caminho da auto-reflexão. O budismo, doutrina religiosa criada na Índia por Sidarta Gautama, defende a tese de que a felicidade se atinge com o fim do sofrimento. Muitos filófosos identificaram a felicidade associando-a ao prazer, como é o caso de John Locke e Kant. Mas, no século XX, dois filósofos, o inglês Bertrand Russel e o espanhol Julián Marias, voltaram a tocar no assunto. O primeiro escreveu A Conquista da felicidade, onde, utilizando-se do método da investigação lógica, conclui que para ser feliz é preciso eliminar o egoísmo. Para o segundo, autor de A felicidade humana, a humanidade é infeliz, justamente por não se importar com a reflexão filosófica sobre a felicidade. Já no período helênico, Epicuro defendia a tese que ser feliz é ter liberdade e prazer. Por muito tempo chegou a se confundir o epicurismo com o hedonismo. Conversa fiada. O que Epicuro defendia era a tranquilidade da mente e o domínio das emoções, e não o prazer pelo simples prazer. Outras ignomínias foram traçadas através do tempo sobre o assunto. Todos nós sabemos que o futuro é fator de inquietações. Horácio e Epicuro defendiam a vida presente sem se preocupar com o futuro.
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Tom Jobim escreveu uma das mais belas músicas do nosso cancioneiro, A felicidade. Para ele, tristeza não tem fim, felicidade sim. E arremata: a felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar, voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar. Para aqueles que defendem a inatingibilidade da felicidade, Jobim nos conta uma estória: A felicidade do pobre parece a grande ilusão do carnaval. A gente trabalha o ano inteiro pra fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira e tudo se acabar na quarta-feira. Ou a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor. Brilha tranquila, depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor. Os poetas Pessoa e Drummond têm posições bem simples: Do primeiro, às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido; Do segundo, ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. Enfim, filósofos, religiosos, escritores e poetas sempre se dedicaram a tentar definir um tipo de comportamento ou estilo de vida que representasse a felicidade plena. Mas, na verdade, todos procuram a felicidade e não dá para precisar um conceito absoluto sobre ela. Somos dependentes dessa procura. Com efeito, o que é felicidade para mim pode não ser para outrem. O retorno à tardinha dos pardais com o seu canto agoniado pode ser um momento de exuberância, de satisfação para uns, mas de chatice para outros. Portanto, não existe uma fórmula acabada que leve o homem a atingir a real felicidade. Ela não existe. Mas há uma verdade que todos devem refletir. Quem faz a felicidade é a própria pessoa. Lembremos que não se colhe o que não se planta. Há um provérbio aborígene que diz mais ou menos que somos todos visitantes deste tempo, deste lugar. Estamos só de passagem. O nosso objetivo é nascer, crescer e amar... depois vamos para casa. Este é o ciclo da vida!

Post Scriptum.

01. A deselegância do plagiador
Moacyr Scliar, brasileiro, autor de Max e os Felinos; Iann Martel, canadense, autor de As aventuras de Pi. Duas estórias idênticas contadas por escritores diferentes. Scliar fala de um jovem judeu que foge da Alemanha nazista em um navio com destino ao Brasil. No caminho o navio naufraga, mas ele se salva num bote com um jaguar que também vinha na viagem; Martel fala de um jovem indiano que emigra com os pais, dono de um zoológico, para o Canadá. No meio do caminho o navio naufraga e o jovem se salva num bote com um tigre de bengala. A semelhança entre as obras não é mera coincidência. É plágio mesmo. O livro de Martel foi transformado em filme que teve 11 indicações ao Oscar de 2013. Questionado com a semelhança das obras, Martel confessou ter usado a idéia do brasileiro e acachapou: “quis aproveitar uma boa idéia, estragada por um escritor ruim”. Scliar, médico e professor universitário gaúcho, morreu em 27 de fevereiro de 2011 sem ter visto essa safadeza.



02. O Resgate de uma história
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A historiografia sergipana está merecendo, com urgência, um estudo sobre a esquerda do nosso estado, desde a criação do partido comunista. O seu comportamento durante o Estado Novo, a clandestinidade, a redemocratização em 1945, os anos de chumbo da ditadura militar até os dias atuais. Quem vem fuçando a vida de alguns militantes é o pesquisador Gilfrancisco, que tem encontrado verdadeiros achados sobre figuras, embora anônimas para a geração atual, que tiveram participações importantes no processo de transformação social, quer como militantes partidários ou como intelectuais. É o caso, por exemplo, do jornalista Fragmon Carlos Borges, um intelectual que dirigiu por muito tempo o jornal comunista A Verdade e é autor de ensaios publicados em várias revistas brasileiras. Nascido em Frei Paulo, ele é irmão de José Carlos Borges, Carloman Carlos Borges e Josaphat Carlos Borges, todos com passagens pela política e pelas atividades culturais. Assim, é de inteira importância conhecer a vida desses jovens idealistas sergipanos, que tiveram uma participação significativa na nossa história política e cultural.        

- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 28 e 29 de setembro de 2014, Caderno A-7.

- Publicado no Blog Primeira Mão, Aracaju-SE, em 28 de setembro de 2014, às 12h16min, sítio:


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Mulheres da Antiguidade - Hortênsia

Isto é história

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
HORTÊNSIA
Vicki León
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A morte e os impostos eram coisas tão inevitáveis e indesejáveis nos tempos romanos como são em nossos dias; às vezes, as mulheres sentiam a agulhada tanto da última como da primeira. Em 42 a.C., cinco homens arrastaram o país inteiro para uma guerra civil – uma atividade sempre custosa, antes mesmo que os helicópteros e os mísseis Scud tivessem sido inventados. Para financiar a aventura, os triúnviros no poder decidiram sapecar um imposto nas mulheres – e somente nas mulheres – cuja fortuna excedesse 100 mil dinares. Mil e quatrocentas mulheres receberam a ordem de desembolsar o equivalente à renda de um ano, e, aproveitando a ocasião, emprestar uns cinquenta avos de suas propriedades para o governo a juros. Para assegurar o cumprimento do estabelecido, eram oferecidos prêmios a informantes, livres ou escravos, sobre senhoras que, como diríamos, sonegassem. Em outros pontos críticos da história romana, as matronas cheias de dinheiro tinham doado generosamente. Entretanto, desta vez as circunstâncias eram diferentes; esta era uma guerra civil, e as únicas escorchadas eram as mulheres ricas.
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Embora nunca tivesse tido autorização para defender causas jurídicas, Hortênsia, a filha de Hortensius, o maior orador e advogado de Roma, tinha uma educação espetacular e um verdadeiro talento para direito e retórica. Ela foi escolhida pela multidão de 1.400 mulheres lívidas para atuar como sua porta-voz. Nenhum homem teve a coragem ou interesse de defender sua causa. Com Hortênsia liderando, as mulheres fizeram uma barulhenta marcha política pelas ruas de Roma até o Fórum, onde ela fez um discurso extremamente eficiente em nome delas.
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Do que Hortênsia foi capaz? Isso ficou demonstrado na defesa. Ela convenceu os coléricos triúnvaros a reduzir o número de mulheres taxadas de 1.400 para 400. Mais crucial ainda, eles decretaram que novo imposto cairia, como chuva, igualmente sobre mulheres e homens, tanto cidadãos como estrangeiros. Admitimos que não foi tão bom quanto apagar totalmente a ideia, mas aqueles rapazes militares de fato precisavam furiosamente de dinheiro.
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O discurso de Hortênsia entrou para a história de Roma, sendo lido e memorizado por meninos (e, esperamos que também meninas) durante séculos. Por falar nisso, o pai e mentor de Hortênsia não pôde testemunhar seu eloquente dia de glória; ele havia morrido oito anos antes. Ironicamente, nenhum dos filhos de Hortênsia seguiu suas pegadas ou as de seu pai.
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Aselina era uma mulher de reputação duvidosa que dirigia um prostíbulo e um restaurante pé-sujo em Pompeia. Do lado de fora de sua espelunca, um sinal de pedra com quatro falos e um copo de dados revelava aos passantes que no primeiro andar havia bebida e jogatina; no segundo andar, estavam as senhoras fáceis, mas não necessariamente baratas. Uma casa de prostituição internacional, a de Aselina repetia a natureza cosmopolitana do mundo romano no século I d.C. As garçonetes (que podem ter dobrado no serviço como prostitutas ou vice-versa) vinham da Grécia, África do Norte e Creta. Como sabemos disto? As paredes da taverna estavam cobertas com seus nomes e citações libidinosas sobre as promoções do dia, e pichações dos frequentadores regulares, como Dezembro e o velho boa-praça Escordopordônico, ou “Pum d’Alho”. Embora a maioria das damas de Aselina fosse escrava, elas participavam ativamente da política, decorando o prédio com propagandas dos candidatos e incentivando o sedento eleitorado masculino a votar. Quase todos os pompeanos, inclusive Aselina, se envolviam na política local. Somente os próprios candidatos  ficavam abençoadamente calados – nem um veneno lançado!

- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da Antiguidade vai falar de “MUSA”. Ela era uma escrava que foi abençoada por Júlio César, em Roma, no Século I d.C. Ela se tornou a primeira concubina de Fraates IV, do reino de Pártia, hoje região nordeste do Irã.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.

a autora
Vicki León
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