Aracaju/Se,

terça-feira, 16 de maio de 2017

A Morte é uma Festa

Opinião Pessoal
A Morte é uma Festa
Clóvis Barbosa
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No Brasil, até meados do século XIX, eram comuns os enterros em igrejas. Havia toda uma preparação ritualística para a despedida. Um exemplo era a roupa a ser usada, a qual, na sua maioria, era a mortalha de São Francisco ou a de cor branca. A mortalha de São Francisco, com o seu cordão, além de representar a vida simplória, servia para que os anjos retirassem as almas do purgatório; já a de cor branca tinha diversas explicações: a pureza da vida vivida ou até mesmo o simbolismo da ressurreição de Cristo, cuja cor usada no manto para envolvê-Lo foi a branca. Em A hora derradeira de homens e mulheres africanos e seus descendentes: alguns apontamentos sobre os óbitos, Santo Amaro, Sergipe, 1802-1835, a professora da UFBa, Joceneide Cunha dos Santos, doutora em História Social, publicou na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, n° 44, de 2014, um trabalho de garimpagem no arquivo da Paróquia de Santo Amaro e nos Cartórios de Santo Amaro, Maruim e São Cristóvão, estudando os óbitos, testamentos e inventários da população africana, escravizada ou forro. O trabalho foi árduo, mas de grande significação para a produção historiográfica da escravatura brasileira. O Brasil, como sabemos, foi o campeão mundial da escravidão moderna, chegando ao ponto de, em 1820, dois anos antes da Independência, ter uma população composta de dois terços de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no Rio de Janeiro 700 mil africanos. Documentos demonstram que o Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista do mundo desde a Roma antiga. De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade levada para a América do Norte. Esses dados estão na obra O Navio Negreiro – Uma História Humana, de Marcus Rediker, professor de História Marítima da Universidade de Pittsburg (EUA). O trabalho de Joceneide tem, também, o papel de incluir o nosso Sergipe na vasta bibliografia existente sobre o comportamento da população africana e sua integração cultural a uma sociedade escravagista. A condição de escravos, afastados a ferros de sua origem, distante do seu meio, não impediu que esse extraordinário povo preservasse o seu espaço sagrado, composto de sua religiosidade, tradições e de seus signos culturais.
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As normas da Igreja Católica eram inúmeras em relação aos sepultamentos e aos sacramentos. Entretanto, o batismo, a confirmação, a eucaristia, o matrimônio, a penitência e a extrema unção eram também realizados com os escravizados. O único sacramento que não era aplicado para eles era o da ordem. Participavam, inclusive, das irmandades, incluídos ativamente na vida da igreja. João José Reis, um dos grandes estudiosos da matéria, em sua obra A Morte é uma Festa, mostra com profundidade as consequências da mudança existente.  A morte sem sepultura era muito temida pelas pessoas. A sepultura teria que ser em lugar sagrado, bem próximo dos vivos e das imagens divinas. E a Igreja era o local para uma espécie de contiguidade espiritual entre as almas e as divindades. Portanto, era costume o enterro ser feito nas igrejas e a sua proibição pelo arcebispado baiano, adicionado à concessão de monopólio funerário a uma empresa privada por 30 anos, gerou uma das mais importantes revoltas populares: a chamada Cemiterada. Esse levante ocorreu no dia 25 de outubro de 1836 em Salvador. A multidão destruiu completamente o Cemitério do Campo Santo, inaugurado três dias antes. As irmandades tiveram uma participação ativa no processo de organização e arregimentação da população contra as teses invocadas pela Igreja. Esta, dizia que os enterros em igrejas e em cemitérios contíguos faziam com que as matérias orgânicas em decomposição formassem uma espécie de vapor que seria danoso à saúde. A revolta atingiu em parte o seu objetivo, sendo revogado o monopólio dos enterros e o cemitério passando para a esfera pública. A verdade é que havia um preparo para a morte naqueles dias, o que tornavam os preparativos uma autêntica festa de despedida. Tanto os funerais pomposos como os mais simples, exigiam a participação de toda uma engrenagem que ia das rezadeiras e carpideiras às presenças solidárias das pessoas. Ainda hoje, e no decorrer do tempo, a morte tem sido tratada como um acontecimento palpitante e até festivo. Camus, em A Morte Feliz, diz que a aceitação, o entendimento e a consciência da morte são condições para ser feliz. Temer a morte, para ele, seria o mesmo que temer a vida.
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Relembro aqui a morte do jornalista Cleomar Brandi que, antes de partir, deixou uma carta sob o título “A última saideira”, onde ele se despede da vida, da sua velha Bahia, da sua Aracaju e dos seus amigos. No documento, ele dizia ao final, poetizando: “Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo sem tristezas nem vexames, mas apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de criança nos olhos. Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho”? Abaixo da missiva, um post-scriptum: “os amigos estão convidados para a última saideira no Bar do Camilo, assim que terminar o sepultamento. Já está pago”. E o Bar do Camilo recebeu os amigos de Cleomar, após o sepultamento, oportunidade em que todos tomaram, naquele dia, ao som de músicas, “a última saideira”. Essa criatividade de Cleomar nos faz lembrar outros casos pitorescos ocorridos com o segundo evento mais importante do homem: a morte. Os sumérios, por exemplo, não davam muita importância à vida após a morte. A rainha Shudi-Ad, rainha de Ur, que viveu no ano 2.500, antes de Cristo, preparou antecipadamente o seu próprio funeral, marchando para o seu túmulo com sessenta e quatro criadas, uma carruagem de madeira contendo ornamentos em ouro e prata, puxada por dois bois, quatro mulheres harpistas e seis soldados. Cada um dos membros da festa-funeral recebia uma bebida numa pequena taça, inclusive a rainha que estava à época com quarenta anos de idade. Todos os corpos, ou esqueletos, foram encontrados em sereno repouso, sem um diadema ou adorno sequer fora do lugar. Arqueólogos encontraram na Suméria vários casos de enterros em massa precedida por supostas festas. Em Porto Rico, o motoboy David Morales Colón, de 22 anos, assassinado enquanto conversava com a namorada, foi velado em cima de sua moto, uma Honda Repsol, em posição de largada. Também em Porto Rico, Angel Pantoja Medina, de 24 anos, exigiu antes de morrer, que se usasse um tipo especial de embalsamento para manter o seu corpo em pé por três dias durante o velório na casa de sua mãe, usando um boné do New York Yankees e óculos escuros.
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Artemísia II viveu no ano 350 a.C. e governou Caria, um reino situado no lado oposto da ilha grega de Rodes. Ela apaixonou-se pelo seu irmão, Mausolo, com quem casou. Após a morte de Mausolo, Artemísia mandou construir um túmulo que ficou famoso pela sua beleza e pelos enormes gastos investidos. Uma obra nunca vista fora do Egito. Tinha o formato de um bolo de casamento, com 41 metros de altura e tendo no alto a estátua do seu marido numa carruagem com 4 cavalos. Durante 3 anos, quando ocorreu a sua morte, o local era utilizado pela viúva para festas diuturnas patrocinadas para a sociedade cariana. Artemísia II adorava embebedar-se com ponches de vinhos feitos de ossos e cinzas de Mausolo. Bem, não é à toa que hoje chamamos os túmulos de mausoléu. Homenagem a Mausolo?  Malba Tahan, heterônimo do professor Júlio César de Mello e Souza, autor da festejada obra “O homem que calculava”, achava horrível a literatura funerária que cunhava em coroas de flores expressões como: homenagem eterna, recordação sincera, o último adeus, etc. Antes de morrer, aos 79 anos, após ministrar uma palestra em Recife, deixou uma carta para a família com instruções de como deveria ocorrer o seu velório. Rejeitava coroa ou flores com qualquer tipo de mensagem. E se alguém insistisse, a coroa deveria ser devolvida com um “delicado cartão” para que o ofertante fizesse da coroa o uso que quisesse. O funeral, como exigido pelo escritor, deveria ser o mais modesto possível e o caixão deveria ser de terceira classe. Ao seu enterro, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, compareceu grande número de pessoas, todas religiosamente comportadas e obedecendo as exigências do falecido e, se algumas flores foram vistas, as mesmas foram ofertadas anonimamente, sem qualquer dedicatória. Na oportunidade, foi lida uma mensagem de Malba, onde ele renovava a sua defesa pelo fim do isolamento e do preconceito contra os doentes de hanseníase. Por fim, citava a letra da música “Silêncio de um minuto”, de Noel Rosa, como imperativo da sua ojeriza ao luto: “Roupa preta é vaidade para quem se veste a rigor. O meu luto é a saudade e a saudade não tem cor”.

- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo, 31 de agosto de 2014, Caderno A-7. 
- Postada no Blog Primeira Mão, no dia 31 de agosto de 2014, domingo, às 13h56min, sítio: http://www.primeiramao.blog.br/post.aspx?id=8064&t=a-morte-e-uma-festa


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Mulheres da Antiguidade - A Sibila de Cumas

Isto é história

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
A SIBILA DE CUMAS
Vicki León
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Em se tratando de paranormalidade, o mundo antigo era uma enorme cidade, aberta 24 horas. Para aqueles que tinham pouca saúde, os santuários ofereciam tratamento enquanto a pessoa dormia, que era chamado de “incubação de sonhos”. Para os ricos, existiam os adivinhadores e astrólogos particulares. Até mesmo os pouco abastados podiam pagar as taxas variáveis dos feiticeiros e oráculos de rua. As mulheres desempenhavam parte proeminente em todos os níveis de serviço paranormal.
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Nos santuários da Grécia e de outros lugares, as mulheres que faziam profecias extraíam seus poderes do próprio local. Entretanto, os romanos tinham um solo pobre em oráculos, assim, uma outra tradição se desenvolveu. Genericamente chamadas de Sibilas, elas eram pessoas errantes que peregrinavam pela zona rural. Felizmente para os fregueses dos oráculos, elas seguiam órbitas regulares, parando de vez em quando, às vezes por um período de anos. Próximo a Nápoles, o santuário de Cumas se vangloriava de ter a consultora das sibilas em suas cavernas costeiras. Aqui a sibila de Cumas escreveu em folhas suas profecias arrepiantes.
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Ao contrário da Pitonisa em Delfos, as previsões da sibila se focalizavam com frequência em eventos no futuro distante. Logo no início, alguma alma solícita começou a documentá-las. Em pouco tempo, uma pilha de profecias do tamanho de uma enciclopédia, chamada de Livros Sibilinos, foi guardada debaixo de um templo em Roma. Somente 15 sacerdotes tinham a autorização para dar uma olhada nesta lista crescente de acertos e erros – e isso apenas no caso de terríveis emergências nacionais, como guerra, fome ou o aparecimento de um hermafrodita. Eu não estou inventando isso – pergunte à sibila.

A autora
Vicki León

- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da Antiguidade vai falar de “CORNÉLIA”, conhecida como uma mãe perfeita.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.

- Todas As imagens foram extraídas do Google.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Em Busca do Tempo Perdido


Opinião Pessoal

Em Busca do Tempo Perdido
Clóvis Barbosa



Gostaria de ter conhecido Policarpo Quaresma, aquele de triste fim, na obra do genial escritor Lima Barreto. Não, não iria para Curuzu, mas o levaria para Bruzundanga. Por favor, Curuzu não é o bairro da Liberdade, em Salvador de Bahia, onde está situada a nação ileaê. Aliás, por falar em ileaê, qual é Vovô? Que história é essa de não permitir que sarará miolo, amarelo empapuçado, moreno cor de canela, branquelo e índio saiam no bloco? É apartheid às avessas? Isto é segregação racial, meu irmão! Pois bem, como não vim para explicar, mas para confundir, vou questionar esse negócio judicialmente e, quem sabe, no próximo carnaval, eu não esteja com Policarpo Quaresma desfilando na avenida pelo ileaê. Mas vamos voltar ao nosso personagem, homem extremamente nacionalista e idealista. Fui buscá-lo na prisão, após formalizar um habeas corpus em seu favor, onde tranquei o processo que apurava o crime de traição à pátria, acusado que fora pelo Marechal Floriano Peixoto, então Presidente da República. Policarpo, reconheço, era polêmico. Tentou, por exemplo, mudar a língua falada no país para o tupi e, claro, não conseguiu o seu intento. Em Bruzundanga me criou vários problemas. Passou o sarrafo em todo mundo. Na estrutura governamental, na forma de gerir o dinheiro público, na corrupção desenfreada, na falta de compromisso com a educação e saúde, nas propinas, nos privilégios políticos, na hipocrisia e pseudo-erudição dos intelectuais. Enfim, não teve uma só ação política, social, econômica e cultural que não fosse atacada ferozmente. 

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Fiquei preocupado com a reação da elite bruzungandense. Antes que nos expulsássemos ou decretassem a nossa prisão, fugimos para Utopia, uma ilha perfeita com uma beleza natural extraordinária. Após alguns dias, num hall de um hotel, diviso Policarpo Quaresma conversando com Sir Thomas More, o “patrono dos estadistas e políticos”, título que lhe foi outorgado pelo Papa João Paulo II, no ano de 2000. Ao seu lado, numa discussão acalorada, também se encontravam Peter Gilles, amigo de More e Raphael Nonsenso, um velho marinheiro que fez algumas viagens com Américo Vespúcio. O debate, como não poderia deixar de ser, era a vida naquele país e a possibilidade de implantar a sua filosofia na Europa. A inexistência de propriedade privada; a obrigatoriedade do trabalho para todos, sem exceção; jornada de seis horas, três no período matutino e três no vespertino; e a igualdade como princípio rigoroso, inclusive no uso da vestimenta, ou seja, lisa para todos. Lá, a criança desde cedo é ensinada a cultivar a terra, ao tempo em que os estudos e a aprendizagem artística são obrigatórios. Seus habitantes são pacíficos, bondosos, solidários e grandes anfitriões. São avessos ao uso de jóias e vestimentas extravagantes, como as usadas pelos estrangeiros. Policarpo dizia que a vida utopiana era um ataque virulento à sociedade do renascimento cristão europeu. Criticou a religião, os direitos humanos, chegando ao ponto de malhar o seu modo de vida, tido, para ele, como monótono e castrador da ambição humana. Criticou o paganismo sem perceber que os habitantes de Utopia eram pagãos.

Sir Thomas More era um homem simples, humilde, mas dotado de um senso de humor. Respondeu para Policarpo que “o homem é criatura de Deus, e por isso os direitos humanos têm a sua origem n’Ele, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da redenção. Poder-se-ia dizer, com uma expressão audaz que os direitos do homem são também direitos de Deus”. A discussão não terminou bem, principalmente pelas atitudes grosseiras de Raphael Nonsenso que tentou, inclusive, agredir Policarpo. Não deu para continuar em Utopia. Fomos para Lilliput. Lá encontramos náufragos do navio de Gulliver. Era uma terra de habitantes extremamente pequenos e idiotas. Viviam cotidianamente em guerra por motivos fúteis. Não houve condições de viver na ilha, dada à pequenez da comunidade e a escassez de alimentos. Fomos para outra parte da ilha, Brobdingnag, que, ao contrário de Lilliput, era uma terra de habitantes gigantes. Também não deu para permanecer nesse local. Viajamos para a ilha flutuante de Laputa, uma terra muito estranha. Eu estava ansioso para saber as impressões de Policarpo, até quando, viajando para mais longe, ele encontrou os Houyhnhm, uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, mas que temiam uma raça de humanos chamada Yahoo. Pela primeira vez vi Policarpo Quaresma triste, bastante meditabundo. Alguns dias depois, confessou-me: “Vamos embora. Estou enojado do ser humano”. Não me disse o porquê. Só sei que foi depois de percorrermos as ilhas visitadas por Gulliver. Não houve como demovê-lo da sua ensimesmação. 
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No retorno, lembrei-me de Manuel Bandeira. Gritei para Policarpo Quaresma com o peito cheio de alegria: Vamos embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá tenho a mulher que quero na cama que escolherei. Lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente que Joana a Louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente da nora que nunca tive. Lá farei ginástica, andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau de sebo e tomarei banho de mar! Senti Policarpo Quaresma se recompondo e inebriado com a minha dissertação. E continuei: E quando estiver cansado deito na beira do rio, mando chamar a mãe-d’água pra me contar as histórias que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar. Em Pasárgada, Policarpo, tem tudo, é outra civilização, tem um processo seguro de impedir a concepção. Tem telefone automático, alcalóide à vontade e até prostitutas bonitas pra gente namorar. Os olhos de Policarpo brilhavam. Arrematei: E quando eu estiver mais triste, mas triste de não ter jeito. Quando de noite me der vontade de me matar, vou-me embora prá Pasárgada. – Lá sou amigo do rei – Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Vamos amigo, vamos embora pra Pasárgada. Policarpo Quaresma chorou. Ao mesmo tempo ria. Era grande a sua expectativa de, quem sabe, viver o resto de sua vida em Pasárgada. Colocou na radiola “Gulliver Suíte”, do compositor alemão Georg Philipp Telemann, e vibrava com os movimentos da suíte para violinos escrita em 1728. Repetiu umas dez vezes o movimento “chaconne of the lilliputians”. Era outro homem. Acabou-se o triste fim. E fomos em busca do tempo perdido. 


Post Scriptum

Gilfrancisco e Anísio Dário

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Gilfrancisco é um baiano soteropolitano que veio morar em Sergipe depois de participar da vida cultural da Bahia. A sua formatura em Letras pela Universidade Católica de Salvador lhe vocacionou para o mundo da pesquisa. Ousado, curioso, ouvinte paciente, não pode ouvir uma conversa de valor histórico que parte para o garimpo. É um conhecido das bibliotecas. E é um perfeito bisbilhoteiro. Tem estudos sobre Gregório de Matos, “O boca de todos os santos”, Enoch Santiago Filho, Arthur de Salles Campos, e tantos outros. Em 2008, publicou A Romancista Aline Paim, onde resgata a história e o talento dessa mulher nascida em Estância e que tem uma vasta obra publicada. Quem quiser conhecer o poeta Enoch Santiago Filho, por exemplo, não pode deixar de ler Flor em rochedo rubro. Os pedaços de uma vida breve, como foi a de Enoch, nos remete ao conhecimento de um dos mais talentosos poetas de Sergipe, tudo isso graças ao já nosso Gilfrancisco. Agora, Gilfrancisco nos presenteia com a lembrança de um infausto acontecimento que marcou a vida política de Sergipe nos anos 40 do Século passado: o violento assassinato do operário comunista Anísio Dário. Um grupo de intelectuais, estudantes e trabalhadores reuniam-se no Cinema Rio Branco, na Rua João Pessoa, centro de Aracaju, para protestar contra a cassação do registro do Partido Comunista Brasileiro, bem como dos mandatos dos seus parlamentares. O ato foi esvaziado pela proibição emanada do Chefe de Polícia João Monteiro, o professor Monteirinho. Impossibilitados da realização do evento, os manifestantes saíram em passeata quando foram surpreendidos com a violência policial e que teve um macabro resultado. Além de várias pessoas feridas, o operário Anísio Dário, que participava da manifestação, foi morto a tiros pela polícia e teve o seu corpo praticamente irreconhecível pela violência das patas da cavalaria policial. O crime ficou insolúvel e ninguém foi punido, até porque o Estado, através do seu aparelho policial, à época, não estava a serviço da segurança pública, mas do status quo dominante. A morte de Anísio Dário é um acontecimento marcante da nossa história política. A sua transformação em livro confirma, mais uma vez, a qualidade de pesquisador que vem sendo demonstrada por Gilfrancisco. Vamos aguardar.

- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo, 17 de agosto de 2014, Caderno A-7.
- Postado no Blog Primeira Mão em 17 de agosto de 2014, domingo, às 18h28min, sítio:

terça-feira, 7 de março de 2017

Mulheres da antiguidade - Hispala Fecênia

Isto é história

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
HISPALA FECÊNIA
Vicki León
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Assim como os franceses gostam da cultura americana e ao mesmo tempo a desprezam, os antigos romanos se apropriavam generosamente da cultura grega enquanto sustentavam sérias dúvidas sobre ela. Por exemplo, quando se tratava de religião, os romanos se afastavam assustados das religiões de ritos extáticos e dos ébrios cultos báquicos da Grécia. No mínimo, eles criticavam duramente qualquer pessoa que aderisse a eles.
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Em torno de 186 a.C, quando Roma ainda era uma República, uma jovem escrava chamada Hispala Fecênia tornou-se involuntariamente uma iniciante em ritos báquicos num santuário local, tendo sido levada até lá por seu amo. Hispala não era uma puritana, mas ela atingiu seu cociente máximo de obscenidade quando teve de participar de uma suruba de sexo promíscuo com homens e mulheres desvairados. Originalmente, o culto báquico nem sempre era tão pornográfico assim, era um culto só de mulheres cujos festivais aconteciam durante o dia. Em algum momento, uma sacerdotisa chamada Paula Ânia o havia modificado para uma combinação de Missa Negra e orgia-pornô.
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Não demorou muito, o amo de Hispala morreu e, em seu testamento, a libertou. Hispala adotou a prostituição como carreira, mas sua bolsa não iria se encher com essa atividade. Ela se apaixonou por um doce e jovem vizinho chamado Ebúcio e se tornou sua amante, cobrando-lhe uma taxa especial de “apaixonados”. Sem o conhecimento do rapaz, o padrasto havia esbanjado seus fundos mútuos. Para escapar da prisão, o padrasto pressionou a mãe de Ebúcio: “Querida, faça com que o garoto se envolva em alguma coisa depravada, como um culto báquico, para que ele não dê com a língua nos dentes sobre sua propriedade. Do contrário, serei forçado a tirar suas medidas para um terno de cimento”.
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Logo Hispala ouve dizer que seu namorado não vai estar disponível às noites durante algum tempo em razão dos planos de iniciação da mãe. Horrorizada, Hispala lhe diz que o culto báquico é como o Hotel Califórnia: “Você pode fazer seu check out a qualquer momento que quiser, mas nunca conseguirá sair”. Em pouco tempo Ebúcio já tinha ouvido toda a história picante de Hispala. Ele então entra em confronto com os pais, que o expulsam de casa. Antes que alguém se dê conta, ele e Hispala estão frente ao equivalente a um júri de acusação, sendo entrevistados por um cônsul romano.
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Hispala não estava nem um pouco feliz em divulgar todos os seus segredos, temendo os deuses e, pior ainda, os adoradores báquicos, que amariam despedaçá-la membro por membro se ela revelasse seus segredos. O cônsul promete a ela uma proteção de testemunha classe A, que no final era um quarto no segundo andar da casa de sua sogra (nepotismo?). O caso é conduzido mais serenamente do que um julgamento de mafioso: Hispala dá com a língua nos dentes, e 7.000 homens e mulheres são presos e executados como integrantes de uma conspiração bacanal, como foi descrita. Em vez de um aperto de mão e um obrigado, dizem que o Senador Romano premiou Hispala e Ebúcio com 100 mil sestércios, um final feliz incomum e sem preconceito de sexo.               

A autora
Vicki León
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- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da Antiguidade vai falar de “A SIBILA DE CUMAS”, um santuário localizado próximo a Nápoles onde teve a sibila mais famosa da antiguidade, cujas profecias eram arrepiantes.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.

- Todas As imagens foram extraídas do Google.
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