Aracaju/Se,

domingo, 17 de junho de 2018

Mulheres da Antiguidade - Aquilia Severa


Isto é História

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
AQUILIA SEVERA
Vicki León
 
Como carreira, a castidade parece está perdendo terreno em nossa sociedade, a julgar pelas estatísticas caídas em relação ao número de freiras novas. Entretanto, há uns dois mil anos, a cobiçada função de virgem vestal, ocupada por não mais do que quatro a oito garotas locais ao mesmo tempo, era uma grande coisa em Roma. Desde os nebulosos estágios iniciais da Cidade Eterna, as vestais tinham a tarefa de cuidar do Fogo Sagrado de Vesta, deusa da terra. Se aquelas garotas deixassem o fogo apagar, um desastre não especificado sobreviria em Roma.  
 
Aquilia Severa, talvez a mais famosa vestal de todos os tempos, começou a trabalhar com a idade aproximada de seis anos. Em julho de 219 d.C., ela e outras vestais mantinham o fogo ardendo, mas, de qualquer maneira, um grande desastre se abateu sobre a cidade. Seu nome era Heliogábalo. Aos quatorze anos, esse gorduchinho atraente, vestido de maneira esquisita com montes de colares, braceletes, olhos pintados e uma longa camisola de seda, descrito por uma testemunha ocular como “um pesadelo de seda roxa e dourada”, entrou repentinamente na cidade rebocando uma pedra sagrada negra, puxada por seis cavalos brancos. Era o novo imperador de Roma.
 
Um dos vários rebentos inesquecíveis em uma dinastia maluca de governantes mãe-e-filho da Síria romana, Heliogábalo adorava religião e deixava a política para sua mãe Júlia Soêmia. Helinho, sumo sacerdote do deus-sol sírio, queria apresentar os romanos à sua nova divindade sem delongas. Assim, o imperador adolescente se desfez da esposa do momento, mandou que transportassem o fogo sagrado para o templo de seu novo deus-sol, e escolheu Aquilia Severa para sua noiva – foi um pouco como escolher a Madre Teresa para fazer o papel principal da história da vida de Madonna. Como o malandro rechonchudo explicou: “Estou casado com Aquilia para que crianças divinas possam nascer de mim, o sumo sacerdote, e dela, a suma sacerdotisa”.
 
Por sorte ou azar, o jovem Helinho ficou extremamente ocupado, organizando orgias, se travestindo e tendo casos com charreteiros, e não pôde concretizar seus planos de dinastia. Em menos de três anos, Heliogábalo e sua mãe elevaram  o grau de repulsa local a tal ponto que ambos foram assassinados pela guarda romana, sendo então despidos, arrastados pelas ruas num tipo diferente de parada, e jogados no rio Tibre.
 
Um outro imperador adolescente, filho adotivo de Helinho, ocupou o trono. A pedra negra e o culto ao deus-sol voltaram para a Síria e Aquilia – pelo menos, teoricamente – pôde retornar à sua virgindade vestal. É claro que agora estava faltando nela um componente vital, mas será que um seguro total não se aplicaria? Se uma vestal quebrasse deliberadamente seu voto de castidade, ela era enterrada viva numa câmara especial, com um lampião e um saco de papel contendo um lanche de pão, leite, óleo e água. Para verificar o cumprimento de seus votos, o sumo sacerdote fazia o famoso “teste do pescoço” nas pequenas vestais, a cada 5.000 quilômetros. Como qualquer bobo sabia, a glândula tiroide de uma virgem se expande após a primeira relação sexual. Como o caso de Aquilia era fora do comum, talvez eles lhe tenham concedido uma aposentadoria precoce, em relação aos trinta anos que normalmente as vestais serviam. Ela certamente já tinha passado o suficiente para tirar um santo do sério.      


- A próxima postagem de “Mulheres Audaciosas da Antiguidade” vai falar de UMÍDIA QUADRATILA, uma mulher abastada e generosa com a cidade de Casino, na Itália, sua terra natal. Viveu 78 anos, tendo construído para sua cidade um templo. Um palco e um anfiteatro.  
- Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Editora Rosa dos Tempos.
- As imagens aqui reproduzidas foram retiradas do Google. 

sábado, 9 de junho de 2018

O Monstro da Intolerância


Opinião pessoal

O monstro da intolerância
Clóvis Barbosa
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Quem teve a oportunidade de ler “Eichmann em Jerusalém”, obra da cientista social judia Hannah Arendt, dificilmente atingirá um sono tranquilo. Ela nos fala do julgamento de Adolf Eichmann, um dos arquitetos da “solução final”, que durante o nazismo foi responsável pela deportação de milhões de judeus para os campos de extermínio. A ideia que nós tínhamos daquele oficial do terceiro reich como uma fera assustadora, brutal, medonha, sanguinária, capaz de, com as próprias mãos, extrair escalpos das vítimas, foi extirpada aos poucos do nosso pensamento. Eichmann, na verdade, não passava de um mero burocrata. Espantoso? Por que, então, outorgar a um artífice do carimbo, do clipe e do grampeador a honorável distinção emblemática de o “executor-chefe” do Estado alemão nazista? O impasse resolve-se na esfera psicológica. Psicológica? Mas por que não moral? É possível trabalhar com as duas estruturas na condução do caso. Psicologicamente, a engenharia mental de Eichmann estava mapeada segundo ângulos que se projetavam para a direção de um terreno singularmente demarcado: a psicopatia. Psicopatas não são doentes ou deficientes mentais. Doença mental é o distúrbio que afeta o elemento psíquico denominado “percepção”, a exemplo da esquizofrenia. Esquizofrênicos enxergam coisas que não existem no mundo real. Já a deficiência mental é a enfermidade que alcança o psiquismo no âmbito da “inteligência”. Por exemplo, a tríade oligofrênica: debilidade, imbecilidade e idiotia. Psicopatia, portanto, não é doença, nem deficiência. É uma condição, inata e irreversível. Ser psicopata equipara-se a ser branco, negro ou índio. Assim como um índio nasceu e morrerá índio, um psicopata nasce e morre psicopata. Essas reflexões nos impelem a traçar um paralelo entre Eichmann e outro psicopata, semelhantemente sedutor, o inglês Albert Pierrepoint, o mais famoso carrasco da Inglaterra entre os anos 1932 e 1955. Com efeito, ambos foram artesãos na escrituração da morte.
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Como registrado pela historiografia, Eichmann não estava preocupado com a justiça ou com a injustiça da execução em massa dos judeus. Sua irresignação moral partia do seguinte princípio: liquidar judeus era uma política do Estado ao qual servia. Portanto, operacionalizar o extermínio desse povo implicava tão-somente mais uma etapa da cadeia engrenada por fases matematicamente estabelecidas, a exemplo de fazer a triagem dos que iriam morrer, levá-los aos trens que os transportariam até a zona de execução, cumprir rigorosamente horários de saída e de chegada das locomotivas, conduzir os condenados a câmaras de gás e, por fim, matá-los. Na mente de Eichmann, nada disso consubstanciava crime. A logística da denominada “solução final” assumia cores semelhantes às que permeiam os armários de um escritório de contabilidade. Judeus mortos eram apenas números, vistos sem índice moral. Nesse sentido, Eichmann banalizou o mal, transformando a fattispecie numa atividade instrumental. Aniquilar judeus, para Eichmann, não era algo mau e, tampouco, bom, mas só uma instância, dentro do processo de sedimentação da filosofia nacional-socialista, de cuja implementação dependia a manutenção de seu status. Da mesma maneira que um comerciante de livros precisava vender mais compêndios para garantir o emprego, Eichmann se notabilizou como workaholic na matança de judeus para ascender na escala de respeitabilidade do establishment nazista. A essa postura, desprovida de sentimento ou valoração, vazia de compaixão, piedade ou até mesmo de raiva, Hannah Arendt chamou de “banalização do mal”. Alguém, cuja pulsação sanguínea coordene-se pela moralidade afeta à noção de bem e mal, sabe que a ação nazista foi perversa. Essa assertiva não se subordina a digressões para encontrar pálio de validade. Onde, todavia, burocratas veem a trucidação de humanos com indiferença, conferindo-lhes a envergadura de códigos de barra, o mal passa a ser corriqueiro, trivial, como resolver uma equação de álgebra.
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Na Grã-Bretanha, Pierrepoint, o legendário carrasco dos 608 enforcados, pouco se importava em matar culpados ou inocentes (vítimas de erros judiciários). Catalogava seu cemitério pessoal meticulosamente num caderno. A função que o Estado lhe deu foi a de levar delinquentes ao cadafalso. Queria cumprir seu múnus com extremo profissionalismo, procurando ser, inclusive, o mais rápido dentre os colegas de trabalho. Igualmente, banalizou a morte, disfarçando-a atrás da performance institucional. O discurso de Eichmann e Pierrepoint, de que jamais fizeram algo premeditadamente, para o bem ou para o mal, e que apenas cumpriam ordens, é a desculpa típica desses homens que se recusam a ser pessoas. É verdade que Hannah, com o seu Eichmann em Jerusalém, quis defender a tese que a monstruosidade não está na pessoa, mas no sistema e “que o perigo e o mal maior não estão na existência de mentes doentias, mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais”. No momento em que o homem se recusa a ser uma pessoa, ele renuncia a uma das mais importantes características da definição humana: a de ser capaz de raciocinar criticamente. Isto faz com que a humanidade percorra uma trilha cada vez mais perigosa, a do chamado extremismo. Essa incapacidade de raciocinar é o que permite que pessoas comuns cometam os atos cruéis que assistimos no dia-a-dia. No momento em que perdemos a capacidade de distinguir o bem do mal, o branco do preto, o belo do feio, nossas ações humanas tendem a ser manipuladas de forma incontrolável. Uma das grandes consequências desse nosso comportamento é o surgimento da doença da intolerância, composta pelo conjunto de ideologias e atitudes ofensivas, principalmente contra aqueles que não pensam como nós. A intolerância tem sido definida como um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humanas. A última eleição presidencial e o atual período pós-eleitoral, por exemplo, têm registrado a cada dia espetáculos de intolerância jamais vistos.
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No mês de fevereiro do corrente ano, tivemos a oportunidade de assistir a uma cena estarrecedora ocorrida na lanchonete do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma encontrava-se naquele espaço acompanhando sua esposa, a psicanalista Eliane Berger, que faz um longo tratamento de câncer. De repente, o casal começou a ser hostilizado por uma mulher, sendo apoiada por outras pessoas, aos gritos lancinantes de “Vá para o SUS!”, “safado”, “ladrão”, “fdp”. Outro caso insólito foi o da madame rica de Salvador que disse: “Os pobres, não contentes em receber o bolsa família, querem ainda ter direitos”. Esse tipo de comportamento é observado todos os dias, principalmente endereçado aos negros, homoafetivos, nordestinos. Faço minhas as palavras do teólogo Leonardo Boff, para quem um dos principais males da intolerância é o que faz suprimir a liberdade de opinião, o pluralismo, e que impõe o pensamento único, citando como exemplo o atentado ao Charles Hebdo, em Paris. Para Boff, “É imperioso evitar a tolerância passiva, aquela atitude de quem aceita a existência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar. Há que se incentivar a tolerância ativa que consiste na coexistência, na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito por ele e consegue ver os valores da diferença e assim pode se enriquecer”. Se todos nós tivermos essa compreensão, a de que a tolerância é antes de tudo uma exigência ética, com o direito de cada pessoa ser aquilo que ela é, com suas diferenças, não resta a menor dúvida de que o mundo será bem melhor. Ademais, já se disse que a liberdade de expressão é tudo aquilo que está entre o bom senso e o direito à integridade física e moral do outro. Se a sua “liberdade de expressão” oprime ou afeta a vida e a integridade de outro, não é liberdade de expressão, é crime de discriminação. Por tudo isso, é preciso pensar, exercer o senso crítico, antes que seja tarde demais.

Post Scriptum
Coisas que eu gostaria de ver em Aracaju
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Sob o título acima, assinado por Hercílio Arandas, o jornal Correio de Aracaju, de 1° de maio de 1948, página 2, publicava o seguinte artigo, na coluna “Fatos, Alegorias e Ficções”: “1 - Pelo menos uma Faculdade de Filosofia para o preparo dos futuros professores que, segundo as atuais exigências, vão desaparecer ou tornar-se reduzidíssimos. 2 - A barra aberta para o maior desenvolvimento de nosso comércio, da cidade e de todo o Estado. 3 – Uma ponte ligando a Barra dos Coqueiros à cidade, com uma parte giratória, como a do Recife, para a passagem dos barcos. 4 – Uma linha de bondes que vá a Atalaia, além de marinetes. 5 – A remoção desse grotesco calçamento para as ruas afastadas e ainda não calçadas, e a sua substituição por outro mais moderno, rejuntado por cimento. 6 –Uniformidade e ordem nos transportes urbanos, de sorte que o povo soubesse por onde passam e as horas em que passam. 7 – A organização de ‘comandos’ para fiscalização das casas de pasto e de outros centros de serventias públicas. 8 – A retirada dos depósitos de lixo que se encontra em cada terreno desocupado, mesmo junto às casas de morada. Que o governo obrigasse aos proprietários a construir casas neles, ou cercá-los com muro. 9 – Calçada na Avenida Simeão Sobral, para que o visitante que entrasse nela tivesse a impressão da ‘cidade menina’. 10 – A edificação de vilas populares, a fim de atender o angustioso problema da falta de casas”. No mais, o articulista justificava cada um desses desejos para a melhoria da bucólica Aracaju dos anos 1940.


- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de 12.04.2015, Caderno A-7.
- Postada no Blog Primeira Mão em 12 de abril de 2015, às 16h00min, sítio:





domingo, 27 de maio de 2018

Mulheres da Antiguidade - Eumáquia


Isto é História

Mulheres Audaciosas da Antiguidade
EUMÁQUIA
Vicki León
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Uma das pessoas mais ultra-realizadoras de Pompeia, Eumáquia era uma nova-rica e soube fazer bom uso dessa riqueza. Em seus tempos – século I d.C. – sua encantadora e estimulante cidade natal de 20 mil habitantes (8.000 dos quais escravos), na Baía de Nápoles, era famosa por seus vinhos finos, cebolas, ervas, molho de peixe, mel, lã crua e pela produção e tingimento dos tecidos acabados. A família de Eumáquia havia enriquecido fabricando tijolos. Ela, por sua vez, casou com um homem que possuía hectares de extensão em terras nas encostas férteis do Vesúvio, onde eles criavam ovelhas, legumes e pelo menos um menino.
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Em 62 d.C., quando um grande terremoto danificou as estruturas de muitas construções públicas, Eumáquia interveio e pagou pela construção do que se tornou o maior prédio da cidade. Localizado no Fórum, no centro da cidade, o complexo do prédio cheio de colunatas que ela construiu, alojava o mercado de lã e servia de quartel general para a mais importante associação comercial da cidade – os pisoeiros. Além de lavar as peças de roupa, os pisoeiros deixavam a lã grossa recém-tecida de molho e depois a prensavam, transformando-a em tecido fino. Por sua generosidade cívica, Eumáquia subiu rapidamente ao topo das paradas de sucesso da associação dos pisoeiros, que levantou uma estátua com uma inscrição em sua homenagem (e, eu espero, ofereceu-lhe lavagem à seco grátis pelo resto de sua vida).
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Eumáquia pode ter tido um motivo oculto para sua generosidade. Exatamente na época em que ela contratou a construção daquela estrutura grandiosa, seu filho Marco se candidatava a um cargo público. Também não fazia nenhum mal o fato de mamãe ser uma sacerdotisa pública de Vênus (embora existissem templos para Ísis e muitos outros cultos em Pompeia, Vênus era a padroeira especial da cidade natal de Eumáquia. É por isso que Pompeia é tão abarrotada de murais, estátuas e referências à deusa do amor).     
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Eumáquia não deixava muita coisa ao acaso. Num gesto clássico de escalada social, ela dedicou sua versão das Torres Trump a Tibério e Lívia, o imperador em exercício e sua influente mãe (As duas estátuas, uma de si mesma e a outra da falecida, mas divina Lívia, adicionaram um toque atraente).       
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A certa altura, Eumáquia tirou uma folga do remoinho de obrigações sacerdotais, maternas e políticas para construir rapidamente um túmulo de mármore para si, sua família e auxiliares domésticos, na melhor região para mortos de Pompeia. Com sorte, talvez ela tenha tido a chance de ocupar suas igualmente pretensiosas acomodações antes que o Vesúvio carregasse sua linda cidade e todas as suas obras para o esquecimento em 79 d.C.
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Para Júlia Félix, “A verdade na propaganda” não era apenas uma propaganda sensacionalista da Madison Avenue. Nascida em berço de ouro, em Pompeia, Júlia herdou sacos de dinheiro e propriedades. Sua residência, repleta de lindas pinturas, estátuas, murais, sofás de mármore e um pátio com jardim interno ostentando sua própria escultura de um falo monstruoso, ocupavam uma quadra inteira da cidade. Em 62 d.C., um terremoto daqueles sacudiu Pompeia e danificou sua propriedade. Em lugar de (pasmem) gastar seu capital, Júlia pagou pelos consertos alugando parte dos seus alojamentos. Em seu anúncio, pintado numa parede, ainda se lê: “Aluga-se: parte da propriedade de Júlia Félix, num contrato de aluguel renovável por mais cinco anos, iniciando-se nos idos de agosto – banheiros públicos, bordel, taverna e noventa lojas e quartos no andar superior”. O aluguel de Júlia viu um bocado de ação. Assim como seus locatários, a julgar por uma pichação encontrada numa parede: “Você foi um estalajadeiro, um vendedor de panelas, um açougueiro, um padeiro, um trabalhador de fazenda, um vendedor de bronzes, um comerciante de roupas velhas e agora é um oleiro. Se você se dedicar à tarefa de espancar mulheres, terá desempenhado todo tipo de ocupação”.  

- A próxima postagem de “Mulheres Audaciosas da Antiguidade” vai falar de AQUÍLIA SEVERA, a mais famosa vestal de todos os tempos, começou a trabalhar aos seis anos. Viveu nos idos de 219 d.C. Ela esposou Heliogábulo, imperador romano.
- Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Editora Rosa dos Tempos.
- As imagens aqui reproduzidas foram retiradas do Google. 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Ética e Fé e Madonna, a Rainha das Ruas de Ará


Opinião pessoal


Ética e Fé
Clóvis Barbosa
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Já se disse que Ética é a capacidade que se tem para distinguir o certo (o bom) do errado (o mau). Ela não estabelece regras de conduta cogentes, como a Moral e o Direito, mas tenta justificá-las. Entretanto, também, pode ser afirmado que “ser ético” é necessariamente ter uma vida coerente, amparada por normas morais. Se assim se entende, pode a contradizer-se com a ética, considerando que aquela se caracteriza pela idéia firme de que aquilo que se pensa ou se está praticando é a absoluta verdade, sem qualquer comprovação ou critério científico de verificação? A Dúvida pode conviver com a Ética? E com a ? Com a Ética até que sim, mas com a é impossível. No campo ético, eu posso ter dúvidas se algo que estou fazendo é correto ou não, mesmo munido de todas as ferramentas de reflexão e de todo conhecimento científico. Com a é diferente, eu creio e pronto! E não se diga que a é uma exclusividade de quem tem Ética. Não é, pois, nem sempre, quem é ético tem fé, ou quem tem fé é ético! É com fundamento nessas premissas que trago para reflexão dois episódios controvertidos para os filósofos, ambos envolvendo o sacrifício de filhos. O primeiro de natureza bíblica, vivido por Abraão e seu filho Isaac, outro de cunho mitológico, envolvendo Agamenon e sua bela filha Ifigênia.
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Sobre Abraão, a história está no Livro do Gênesis. Depois de Abraão aliar-se a Abimeleque e ir residir na terra dos filisteus, Deus o pôs à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou”, e Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre o monte que eu te indicar”. Abraão segue rigorosamente as instruções. Sequer levou em consideração a perquirição do seu filho que viu a lenha e o fogo, mas não via o cordeiro para o holocausto. No lugar indicado por Deus, após amarrar o seu filho e o colocar sobre a lenha do altar, desembainhou a faca a fim de matá-lo quando, repentinamente, ouviu um grito de um  anjo do Senhor, que lhe disse: “Não estendas a mão contra o menino e não lhe faças mal algum. Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu único filho”. O mal foi evitado e Isaac substituído por um cordeiro. Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, diz que essa provação divina ou teste espiritual ainda hoje é objeto de aplausos, de louvação, não somente nos púlpitos das igrejas como em toda parte pela “grandeza” do ato de Abraão, que se dispôs a cumprir tarefa tão repugnante. Não é sem razão que o apóstolo Paulo o cognominou de “pai de todos os que têm fé” (Romanos 4:11). 
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Episódio Agamenon: Irrompeu-se na Grécia uma epidemia de peste, onde homens adoeciam e morriam, ficando os médicos impotentes com o seu alastramento. Agamenon mandou chamar o pontífice de Apolo, Calcas, acreditando que a doença teria sido enviada por um deus irritado com alguma ofensa ou erro praticado contra ele. Depois de algumas cerimônias religiosas, Calcas comunicou a Agamenon que a peste foi enviada pela deusa Ártemis, irmã de Apolo, que não gostou do seu ato quando de uma caçada na floresta, tendo ali abatido uma corça branca, animal consagrado àquela deusa que o amava com ternura. A situação da epidemia seria resolvida se Agamenon sacrificasse em seu altar a sua filha primogênita, a princesa Ifigênia. Irritado com tal proposta, Agamenon convocou o seu Conselho - Menelau, Ulisses, Diomedes, o sábio Nestor de Pilos e Ajax, filho de Telamon - e transmitiu-lhes o problema que merecia uma rápida solução. Depois de muita discussão, Agamenon concordou em sacrificar a sua filha. No momento em que a faca tocava o seu pescoço, ouviu-se um grito de espanto. A faca desaparecera das mãos de Calcas, surgindo uma corça alva debatendo-se em agonia. No último momento, Ártemis condoeu-se com a beleza egípcia de Ifigênia e ela foi salva.
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Os dois episódios têm tratamentos diferenciados, um considerado abjeto, outro heroico, pelo menos na visão de Kierkegaard, que não procura justificativas para o ato insano, execrável, de Abraão. Passa o sarrafo até naqueles que o defendem. E o filósofo levanta uma questão: até que ponto os defensores do ato de Abraão fazem idéia do que estão falando? E dá o exemplo de uma possível reação de um padre caso um fiel seguisse o mesmo caminho de Abraão. O sacerdote iria até o homem, munido de toda a sua dignidade eclesiástica, e berraria: “Homem desprezível, abjeção da sociedade, que diabo o possuiu para que desejasse assassinar seu filho?”. Seria ético o padre ter este comportamento quando ele próprio exalta o ato de Abraão como de grandeza? Aí está o grande abismo que separa a ética da religião. O filósofo dinamarquês vai mais longe e coloca na balança o exemplo de Abraão com o de Agamenon, que sacrificaria a sua filha Ifigênia pelo bem do Estado e do seu povo. Neste caso, o seu ato estaria envolto numa ética universal, ou seja, “o herói trágico troca o certo pelo que está ainda mais certo, e o observador o vê com confiança”. Kant (1724-1804), em Crítica da Razão Prática, afirma que as passagens da Bíblia que parecem transgredir os limites da credibilidade racional devem ser interpretadas de modo alegórico e não literal. Atualmente, diante de tudo o que se vê, o “ser ético” parece cada vez mais distante. Como disse Saramago, “Somos nós que temos de nos salvar, e isso só é possível com uma postura de cidadania ética, ainda que isto possa soar antigo e anacrônico”.

                                          Retratos da Vida
Madonna
A rainha das ruas de Ará
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Ele perambulava pelas ruas de Aracaju, vivendo de pequenos biscates e da boa vontade das pessoas. Homossexual assumido, defendia com unhas e dentes a sua opção sexual. Bom de briga e no uso da faca, esteve várias vezes preso pela prática do crime de lesão corporal, pois não admitia atos homofóbicos contra ele. Por duas vezes o tirei da prisão. Ninguém o conhecia pelo seu nome de batismo, Amós Lima Chagas, mas pelo seu apelido: Madonna, um dos tipos mais populares e conhecidos de Aracaju. Era uma pessoa prestativa e muito solidária com quem ele gostava. Eu, particularmente, adorava o seu senso de humor. Lembro-me que certa vez estava conversando com Magnobaldo (um homem de mais de 200 quilos, proprietário de uma loja na Rua 24 Horas) no estacionamento localizado no antigo cine Aracaju, na Rua Laranjeiras, esquina da Rua Capela. Repentinamente chega Madonna e fala para Magnobaldo: - Gordinho gostoso, vim buscar a minha mesada! Magnobaldo, irritado com a petulância, respondeu: - Não tem mesada porra nenhuma, me respeite viado safado! Madonna botou as mãos nos quartos e foi logo replicando: - Ah, é?!  Agora sou viado safado?! Quando você me comia eu não era! Pois vou espalhar na Rua 24 horas que você me botava pra lhe chupar dentro da loja! Foi um Deus nos acuda para Magnobaldo, que espavorido disse: - Não! Não! Por favor, tome aqui 20 reais. Mas houve um momento histórico na vida de Madonna. O casal Marivaldo e Jandira, proprietários de uma gráfica no centro da cidade, gostava muito dele e resolveu mudar a sua vida. Depois de muitos conselhos e ponderações, conseguiu persuadi-lo a dar uma reviravolta no seu dia-a-dia. Aquilo, para o casal, não era vida de gente. E não é que o quadro mudou completamente para Madonna? Com carteira assinada, calça comprida e camisa social, todos os dias ele chegava e saía religiosamente no horário comercial da gráfica. Ajudava na oficina, limpava as máquinas, fazia pagamentos bancários. Era um autêntico “faz-tudo” no seu emprego. Abandonou os trejeitos femininos, deixou a droga e até estava mais tolerante com os moleques que mexiam com ele, engolindo vários tipos de sapos. Estavam todos admirados. Seus vizinhos do Bairro Industrial estavam atônitos com a mudança radical operada em sua vida. Estava até almoçando em restaurantes. O Bar da Finha, na rua Laranjeiras, era o preferido nas sextas-feiras por causa da feijoada. Mas três meses depois, talvez pelos maus tratos e preconceitos dos transeuntes, Madonna causou o maior furor na Rua Laranjeiras. Tirou a gravata, rasgou a camisa, despiu-se da calça, meia e sapato e saiu de cuecas aos gritos lancinantes: - Chega! Não quero mais ser homem! Nasci para ser mulher! E correu em direção ao calçadão da Rua João Pessoa. A verdade é que Madonna era, ao mesmo tempo, amado e odiado. Amado pela alegria e humor que irradiava; odiado por aqueles que insistem em jogar lama no amor homossexual, para torná-lo sujo quando, com efeito, todo amor se faz limpo, exatamente porque é amor. Penso que se a sociedade respeitasse a diversidade do amor, vendo nele uma forma de contemplação sublime, superaríamos o vilipêndio dos assassinatos covardes e construiríamos um mundo único, homogêneo, leve, igual pelo respeito divino das diferenças. Bem disse Araripe Coutinho numa crônica para Madonna: Não mais corre atrás de ninguém, não mais grita, não mais rouba, nem se arruma de salto alto, nem pede roupa velha aos travestis, nem mais dorme sobre o colchão de pregos, nem mais ilumina o bairro Industrial, nem mais chora, nem mais eu, nem mais nada. Na madrugada de uma sexta-feira, ano de 2012, ele foi encontrado totalmente ensanguentado atingido por golpes de paralelepípedos no centro de Aracaju. Quatro dias depois morreria de traumatismo craniano.
      
         - Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de 1º e 2 de março de 2015, Caderno A-7.
- Ética e Fé, foi postado no Blog Primeira Mão em 1° de março de 2015, às 12h18min, site:


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