domingo, 29 de outubro de 2017
Ensaio sobre a hipocrisia
Opinião Pessoal
Ensaio sobre a hipocrisia
Clóvis Barbosa
Facebook, uma data atrás. O
cidadão posta uma foto com os ex-presidentes da República, Lula, Collor e
Sarney. Abaixo das fotos, a frase: “Três ladrões deste país”. Entra um
interlocutor na página e afirma: “Está faltando
um ladrão aí”. “- quem?”,
pergunta o dono do perfil que postou as fotos. “– Você, que é professor da universidade, dedicação exclusiva, e só dá
uma aula por semana”, respondeu o visitante. Pronto, a partir daí a
baixaria tomou conta do diálogo, patrocinada pelo professor, que não se
conformava em ser desmascarado publicamente. Quem acompanhou as eleições pela
mídia e pelas redes sociais teve a oportunidade de observar disparates jamais
vistos na história do debate eleitoral, onde o ódio foi disseminado, a mentira
institucionalizada e a cultura do medo consagrada. O pior de tudo é que um
cancro se espalha em todas as classes sociais, onde a corrupção, a peta, o
logro, a molecagem, se tornam cada vez mais a regra, enquanto a decência se
transforma na exceção. Uma fauna obscurantista toma conta dos espaços,
manipulando informações sempre em benefício dos seus privilégios. Corrupção é
coisa dos outros, nós somos anjos. Eu estou tendo cada vez mais uma visão
pessimista sobre a natureza humana. E começo a acreditar que está muito difícil
restaurar a moralidade. Esta semana me deparei com um processo no Tribunal de
Contas de Sergipe que me deixou estarrecido pela forma como o dinheiro do
erário se evapora em certos setores do serviço público. Havia determinado, no
início do ano, na qualidade de Conselheiro daquela Corte, que fosse feita uma
inspeção nas instituições gestoras da saúde do Estado e do município de
Aracaju, tanto na área de pessoal, como nos contratos. Recebi o primeiro
resultado, que teve como ambiente auditado a Fundação Hospitalar de Saúde, que
abrange a administração do Hospital de Urgência de Sergipe, o HUSE, também conhecido como Hospital João
Alves Filho, a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, o Serviço de Atendimento
Móvel de Urgência (SAMU 192), os hospitais regionais de Nossa Senhora da Glória,
Estância, Propriá, Lagarto, Nossa Senhora do Socorro, os hospitais locais de Tobias
Barreto e Neópolis, além da Unidade de Pronto Atendimento de Boquim (UPA).
A Fundação Hospitalar de Saúde (FHS), vinculada à
Secretaria de Estado da Saúde (SES), tem como finalidade exclusiva, no âmbito
do Sistema Único de Saúde – SUS, prestar serviços de saúde em todos os níveis
de assistência hospitalar, tudo em consonância com a Lei Estadual nº 6.347, de 2008.
Vale aqui compreender o papel do SUS. O
Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores sistemas públicos de saúde do
mundo. Ele abrange desde o simples atendimento ambulatorial até o transplante
de órgãos, garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a
população do país. Amparado por um conceito ampliado de saúde, o SUS foi
criado, em 1988 pela Constituição Federal Brasileira, para ser o sistema de
saúde dos mais de 180 milhões de brasileiros. Antes do SUS, a assistência à
saúde cobria 40% da população brasileira por meio do setor privado e do fundo
contributivo da previdência social (INAMPS) assegurado, tão somente, aos
empregados formais. O restante da população (60%) dependia da filantropia. O
SUS vem sendo implantado como um processo social em permanente construção. Para
oferecer a cobertura universal da assistência à saúde, depara-se com o desafio
do seu financiamento. O mais comum é a insuficiência dos recursos financeiros
para se construir um sistema público universal. É verdade que se gasta pouco em
saúde frente à demanda. Todavia, também, se gasta mal. O acerto da escolha em
tratar, inicialmente, das despesas de pessoal fica patenteado no seguinte
quadro: No ano de 2013, a folha de pagamento da FHS foi de R$ 463 milhões de
reais, entre a folha propriamente dita, e os serviços de terceiros pessoa
física e jurídica. A despesa total com pessoal representa 83,15% da receita da fundação
advinda da transferência do Fundo Estadual de Saúde. Em 2013, o Fundo Estadual
repassou o montante de R$ 557 milhões de reais para a FHS, que é integrante da Administração Pública Indireta
do Poder Executivo do Estado de Sergipe, dotada de personalidade jurídica de
direito privado, sem fins lucrativos, de interesse coletivo e utilidade
pública, com autonomia gerencial, patrimonial, orçamentária e financeira,
quadro de pessoal próprio e prazo de duração indeterminado.
A primeira
irregularidade encontrada foi a ocupação de cargos públicos sem a sua
respectiva criação, ou seja, quantitativo de pessoal superior ao aprovado. Do
que foi apurado pela equipe técnica, o Edital nº 1 – SEAD/SES/SE – FHS, de 10
de outubro de 2008, era para o preenchimento de 2.765 vagas, conforme
deliberação do Conselho Curador da Fundação Hospitalar. Sem que tivesse sido
apresentada nova deliberação do Conselho Curador, para equacionar a necessidade
do serviço, foram preenchidas 4.275 vagas. Significa dizer, portanto, que, em
tese, há 1.510 provimentos irregulares em cargos públicos. A segunda
irregularidade constatada foi a acumulação ilegal de cargos públicos. A
Constituição Federal estabelece que é vedada a acumulação remunerada de cargos
públicos, exceto, quando houver compatibilidade de horários. A nossa Carta Magna só admite a acumulação de
um cargo de professor com outro técnico ou científico, ou a de dois cargos ou
empregos privativos de profissionais de saúde, com profissões regulamentadas. E arremata que a proibição de
acumular estende-se a empregos e funções e abrange autarquias, fundações,
empresas públicas, sociedades de economia mista, suas subsidiárias, e
sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo poder público. A partir
do cruzamento das informações constantes entre a folha de pagamento da FHS com
o Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde (CNES) e os dados do SISAP/Auditor/TCE,
foram identificados 1.340 servidores em potencial descumprimento do mandamento
constitucional. A terceira irregularidade encontrada foi a de servidores da FHS
(efetivos ou contratados por tempo determinado) prestando serviços para a
própria Fundação Hospitalar de Saúde através das Pessoas Jurídicas, como SAMED,
COOPERCADIO e COOPANEST. Verificou-se, neste caso, uma evidente violação ao
princípio constitucional da moralidade administrativa, pois o pressuposto
lógico da contratação de pessoa jurídica é a ausência ou deficiência de
profissionais no quadro pessoal de FHS. Ora, se a Fundação pode contratar jornada
de trabalho entre doze e trinta e seis horas semanais, é juridicamente imoral
remunerar um servidor próprio por meio de empresa interposta.
A quarta
irregularidade apontada consistiu no pagamento excessivo de horas
extraordinárias em manifesta violação ao princípio da eficiência
administrativa. A flexibilização na contratação de jornada de trabalho permite
o adequado dimensionamento do serviço com o quadro de pessoal, sobretudo com a
contratação por tempo determinado. Na contramão da eficiência administrativa, há
trinta e um servidores com duplo vínculo na FHS e recebendo horas
extraordinárias em ambos. A quinta irregularidade foi a identificação de remuneração
acima do teto constitucional. A Constituição dispõe que, para o caso em tela, a remuneração e o subsídio dos ocupantes de
cargos, funções e empregos públicos da administração direta, autárquica e
fundacional, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as vantagens pessoais
ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em
espécie, do Governador, no âmbito do Poder Executivo. Por fim, a sexta e última
irregularidade foi a ilegalidade do pagamento da gratificação “salário
variável” para servidores cedidos da Fundação Hospitalar de Saúde, sem que esta
gratificação tivesse sido incorporada ao vencimento dos servidores. Inserido
no contexto de que cabe aos Tribunais de Contas a fiscalização da efetiva e
regular aplicação dos recursos públicos em benefício da sociedade, e diante de
tantas irregularidades, fui obrigado a tomar algumas medidas que foram
aprovadas pelo Pleno da Corte à unanimidade. Lincoln dizia que se pode enganar a todos por algum tempo; se pode
enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo. Isso me faz lembrar a estória de Procusto. Diz a mitologia que um monstro chamado Procusto tinha um leito de ferro,
onde deitava suas vítimas. Se a vítima fosse maior do que o leito, Procusto
amputava o excesso, nos braços ou nas pernas; se menor, ele esticava-a até
alcançar o tamanho do leito, levando-a à morte. Teseu executou Procusto,
deitando-o transversalmente no próprio leito e decapitando as sobras. Eram
muitas. Eis o impasse. Quem se acha dono do tamanho dos outros e do tamanho do
povo acaba correndo o risco de perder braços e pernas. E, quem sabe, até a
cabeça.
Post Scriptum
Marcelo
Déda
Recebi
de Alberto Magalhães, funcionário público estadual de Sergipe, o seguinte e-mail
que compartilho com os leitores: “Há alguns dias estive no gabinete do
conselheiro Clóvis Barbosa de Melo e pude avistar, a lhe fazer companhia, uma
foto do então governador Marcelo Déda, que me impregnou de rara emoção. Na
fotografia, feita em momento de descontração, em ambiente doméstico, ele estava
vestido com uma camiseta comum, de cor clara, cabelos meio desalinhados e um
sorriso feliz. A sua expressão era de alegria, vitalidade, paz... uma flor no
auge do seu desabrochar. Essa exuberante imagem, se sobrepondo àquela que nos
foi apresentada pela mídia, nos seus últimos dias, me trouxe ao pensamento, num
segundo, muitas outras imagens de sua pessoa antes de seu padecimento. Ao ver a
vida pujante e a beleza dos já descritos sentimentos expressos em sua face foi
impossível não me comover intimamente e não encher os olhos de ternura e de um
misto de alegria, tristeza e irresignação. Esse momentâneo desencontro de
sentimentos se deu em virtude da despedida precoce de alguém que ainda tinha
mais para nos oferecer e para ser retribuído. Aquela imagem me remeteu ao
Marcelo Déda cidadão consciente do seu chamado, do pai e esposo zelosos, do
militante engajado, do amigo sincero, do apreciador do chopinho e da MPB.
Daquele homem tão aparentemente comum, mas herói social, que acreditou na
possibilidade de um mundo melhor para todos e que foi fazer a sua parte e
contribuir para tal. Que, num embate final, venceu. Porque não passou nem
passará para nós, o povo sergipano”.
-
Publicado no Jornal da Cidade,
Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 26 e 27 de outubro de 2014,
Caderno A-7.
- Postado no Blog Primeira Mão, Aracaju-SE, no domingo, 26 de outubro de 2014,
às 14h11min, sítio:
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Mulheres da Antiguidade - Fúlvia
Isto
é história
Mulheres Audaciosas da Antiguidade
FÚLVIA
Vicki
León

É
improvável que você tenha ouvido falar de Fúlvia – uma decadente encantadora
cuja velocidade para passar por dinares e maridos (entre eles Marco Antônio)
chamou a atenção até de romanos indiferentes. Como outras companheiras de
pré-celebridades, seus feitos foram ofuscados pela atração principal que seguiu
suas pegadas matrimoniais – Cleópatra VII.

Marco
Antônio foi o companheiro número três de Fúlvia. Cúrio, seu maridinho anterior,
quando mais jovem, havia sido amigo íntimo de Marco Antônio. Amigos realmente íntimos. O pai de Cúrio tinha
ficado uma fera com o intenso relacionamento homossexual dos dois – e com as
tentativas de Marco de sugar seis milhões de sestércios de seu amante.

Fúlvia
e Marco Antônio tinham outras coisas em comum além de Cúrio: eles adoravam
dinheiro, festas e poder, mesmo que isso significasse provocar revoltas,
guerras ou confusão. Quando Júlio César morreu, Marco Antônio ficou com o mapa
de mina para alcançar o topo. Primeiro ele e Fúlvia revigoraram suas
respectivas fortunas, mergulhando no dinheiro que Júlio César havia deixado
para ele. Depois sugaram os recursos do Estado até a exaustão e começaram a
vender os bens estatais. O celeiro de pechinchas de Fúlvia e Marco Antônio
ficou conhecido como parada única para a compra de títulos, privilégios e
imóveis – e até mesmo cidades. Naturalmente, esses abusos grosseiros levaram a
expurgos, vendettas e guerras –
afinal, isso era a Itália. Entre aqueles que foram assassinados estava o famoso
orador Cícero, que falou tantas coisas maliciosas sobre Marco que Fúlvia
atravessou sua língua com um alfinete quando o assassino entregou a cabeça de
Cícero para ela.

Sem
nunca ter sido fiel a apenas uma esposa, amante ou a um só sexo, Marco Antônio
ficou ainda mais ocupado a partir de 42 a.C., se revezando entre Fúlvia e
família e a nova amante, Cleópatra, no Egito. Fúlvia se mantinha ocupada
travando uma pequena guerra contra Otaviano em nome de Marco – de um lado como manobra
do tipo “volte para casa para os braços da mamãe”, e de outro para deixar seu
marido saber que os divertimentos de grande ação ainda estavam em Roma.
Finalmente ela perdeu e fugiu para Atenas, onde ela e Marco tiveram um encontro
amargo antes que ele se perfilasse para lutar na Itália. Esgotada por todos
esses esforços (não é fácil ser ruim assim), Fúlvia morreu em razão de uma
doença em 40 a.C. Sempre galante, o novíssimo viúvo Marco apresentou a seu
oponente Otaviano a versão de que Fúlvia era a culpada por toda aquela
confusão. Otaviano, que por acaso tinha uma irmã recém-enviuvada andando
melancólica pelos cantos, respondeu: “aceito a sua história, se você aceitar a
minha proposta”. Resultado final: Marco Antônio tomou Otávia como nova esposa,
quase no mesmo momento em que Cleópatra estava dando à luz seus gêmeos.
Competindo com uma vida tão monumentalmente desordenada, não é de admirar que
Fúlvia tenha desaparecido pelas brechas da história.

Faustila, a agiota da antiguidade
Pompéia pode não ter se vangloriado de oferecer cartões de
crédito ou abatimento para carros, mas tinha agiotas do tipo mais voraz
possível. Faustila foi uma das pessoas que conquistaram proeminência sombria
por suas transações de negócios inflexíveis. Os piores agiotas, como Faustila,
tinham suas bases de trabalho nos antros de jogatina ou nas tavernas,
frequentemente usando as paredes em lugar de documentos escritos em papel.
Faustila frequentava diversos antros de jogatina em sistema rotativo, por isso
suas transações aparecem em várias paredes da cidade. Empréstimos de quinze e
vinte dinares eram típicos de um dia de trabalho. Ela cobrava juros mensais,
que saíam a 45 por cento ao ano. Competente no departamento de garantias,
Faustila recolheu brincos, um relógio e um capuz de uma cliente desesperada
como garantia pelo empréstimo. Esses detalhes foram devidamente anotados em
paredes que sobreviveram à destruição de Pompéia, em 79 d.C., provando que os
agiotas realmente vivem para sempre.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de Mulheres Audaciosas da
Antiguidade vai falar de “SULPÍCIA”, que viveu em torno do ano 15 a.C. na Roma
Antiga, e se dedicou à arte poética, levado por Marco Messala, o seu
mecenas.
– Do livro “Mulheres Audaciosas da Antiguidade”,
título original, “Uppity Women of Ancient Times”, de Vicki León, tradução de
Miriam Groeger, Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- Todas As imagens foram extraídas do Google.
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Primavera sem Flores
Opinião Pessoal
Primavera sem flores
Clóvis Barbosa
Tento
entender, confesso, com minhas elucubrações filosóficas, o comportamento humano.
E cada vez mais me conscientizo que o que nos humaniza é o fracasso. Não
pretendo discutir teses antropológicas, mas refletir um pouco sobre as
mesquinharias da vida a que tanto damos importância e nossa dificuldade em lidar
com a felicidade coletiva. Se, como dizia a poetisa Florbela Espanca, “tudo no
mundo é frágil, tudo passa...” por que elegemos determinados tipos de
sentimentos como prioridade no nosso dia-a-dia? O ódio, exteriorizado com
prazer orgástico, encontra neste momento de eleições ambiente propício para se
desenvolver e, por vezes, desencadear um processo de obsessão contra aquele que
pensa diferente de nós. Lembro-me de Millôr na sua conceituação de democracia e
ditadura: “Democracia é quando eu mando; ditadura é quando você manda”. Tenho
vivenciado, neste momento de escolha de representação política, casos
inusitados que me fazem lembrar o talento desse grande escritor pernambucano
Nelson Rodrigues, quando disse que “vivemos numa época dominada pelos idiotas”.
A frase continua atualizada. Cícero, pensador romano, que viveu entre os anos
106 e 47 a.C, afirmava que “A verdade se corrompe tanto com a mentira como com
o silêncio”. a mentira é caolha e é arma dessa
matilha tíbia de caráter; e o silêncio, a conduta dos dúbios de personalidade e
dos castrados de mente e espírito. Infelizmente, a luta contra esse tipo de
gente já nasce perdida, daí a impotência da minoria pensante. A mediocridade
domina os ambientes em detrimento do mérito. Essa alcateia está em todos os
lugares marcando posição. Recentemente estava numa festa quando, na roda de
pessoas em que me encontrava, uma delas sugeriu a um dos interlocutores, um
médico, que votasse em determinado candidato majoritário. A resposta foi
violenta e os mais absurdos adjetivos foram desferidos contra o candidato, por
sinal também médico. A coisa ficou feia e uma forte discussão tomou conta do
recinto, somente não chegando a maiores consequências em face da intervenção
dos presentes. Mas, a roupa suja que foi lavada naquele momento, deixando todos
perplexos com as acusações reveladas, levou-me a uma dura constatação: ali
estava consagrado o chamado ódio de classe, onde predominava a obsessão pela
intocabilidade egoística da corporação. A contratação de médicos estrangeiros
para atender a população pobre do interior era radicalmente contestada,
entretanto, não se oferecia uma alternativa para uma prestação de saúde mais eficaz
pelos profissionais da terra.
Enquanto penso
nesse tipo de comportamento humano, emociono-me ao lembrar-me de uma menina de
13 anos, Blanche Zybert. No dia 21 de setembro de 1943, ela escreveu um bilhete
a lápis sobre um papel que dizia: “Querido Henri: estamos bem, em um vagão de
trem que provavelmente nos levará à Holanda”. Jogou o bilhete pela janela do
trem que a levava de Mechelen, Bélgica, a Auschwitz-Birkenau, o campo de
extermínio criado pelos nazistas na Polônia. Esse bilhete foi encontrado e se encontra
hoje no Kazerne Dossin, uma espécie
de museu sobre o Holocausto, inaugurado em 2012 em Mechelen, no exato local
onde servia de terminal para a chamada última viagem. Mas, os exemplos
históricos estão aí para nos alertar daquilo que Kant, em “Crítica da Razão
Prática”, nos dizia. O homem é um ser capaz de seguir uma lei moral racional.
No entanto, também ele é suscetível de ser desviado dela pelos desejos. Agir
moralmente, como se nota, é sempre uma batalha. Kant, como se observa, continua
atualizadíssimo. O desejo tem sido o estopim dos grandes males que atormentam a
humanidade. Por ele, cometem-se os atos mais vis ou crueis. Mas, o desrespeito com o pensamento
alheio tornou-se objeto de virulentos ataques e da oportunidade do destilamento
de ódio contra alvos preferidos. Recentemente, uma polêmica tomou conta da
mídia e das redes sociais. O presidente da OAB-DF, Ibaneis Rocha, deu entrada
na Comissão de Seleção e Prerrogativas daquela seccional em um pedido de
impugnação à inscrição nos quadros de advogados do ministro aposentado do STF,
Joaquim Barbosa. O impugnante lembra vários fatos praticados pelo ministro
contra advogados no exercício da profissão e até conceitos firmados em desfavor
da OAB. Cita o caso de Maurício Correia, ex-ministro do STF e ex-presidente da
OAB-DF, a quem lhe foi imputado pelo impugnado a prática do crime de tráfico de
influência previsto no Código penal, tendo salientado: “Se o ex-presidente
desta Casa, Ministro Maurício Correia não é advogado da causa, então, trata-se,
de um caso de tráfico de influência que precisa ser apurado”. Em sessão do CNJ,
generalizou suas críticas a juízes e advogados: “Há muitos juízes para colocar
para fora. Esse conluio entre juízes e advogados é que há de mais pernicioso.
Nós sabemos que há decisões graciosas, condescendentes, absolutamente fora das
regras”. Sobre a criação de novos Tribunais Regionais Federais, disse que “Os
Tribunais vão servir para dar emprego aos advogados e vão ser criados em resorts, em alguma grande praia”.

Outras
diatribes praticadas pelo antigo ministro do STF contra advogados foram
citadas, todas merecendo o repúdio da instituição em várias oportunidades. Mas,
o que se quer aqui registrar é o direito de petição que tem toda e qualquer
pessoa. Se há o bom direito na pretensão do battonier
da corporação advocatícia, esta vai ser avaliada, após o devido processo legal,
onde a parte impugnada vai ter a oportunidade de se manifestar e rechaçar os
argumentos produzidos contra si. Pronto, não há necessidade de tratar o evento
como se fosse um ato insano ou de retaliação. Soa estranho que um homem integrante
da mais alta Corte do país, que tratou a advocacia com desdém, fazendo
acusações generalizadas, queira, agora, fazer parte dessa mesma instituição. Penso que o homem quedou-se inerte ao seu
cotidiano. E toda vez que ameaçam esse cotidiano nos transformamos em feras
banais. É uma pena! Que fazer com pessoas que se contentam com uma primavera
sem flores? Apesar de tudo, como Vandré, ainda acredito nas flores vencendo o
canhão da insensatez.
Post Scriptum
Quarta-feira de
cinzas
Durante
a semana que estava escrevendo o artigo da quinzena passada (Ciclo da Vida, republicado
em 28/09/2014), indagava a alguns amigos sobre a felicidade. – o que era
felicidade? Recebi do amigo Luiz Eduardo Oliva, após publicação do artigo, o
seguinte e-mail: “Na quarta feira de
cinzas cai o pano. A vida volta à realidade. Os bacantes recolhidos salivam o
sabor azedo da ressaca. Há ainda uma confusão na mente, ressoa o eco dos dias
da tríade momesca. Vem a velha canção ‘carnaval desengano, deixei a dor em casa
me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei, quarta-feira sempre
desce o pano!’ Ah, a felicidade... e afinal, o que é a felicidade? Indagava-me
ontem o velho Clóvis Barbosa ao brindar um Pinot
Noir numa cantina ítalo-sergipano nada momesca. Eis a pergunta para nenhuma
resposta convincente. A única que me ocorre é que a felicidade é a festa do
coração, dura enquanto durar a festa. Lembrei-lhe o grande J. Inácio, o mágico
pintor do amarelo, da luz do sol e das bananeiras nas terras Del Rey que um
dia, exaltando o pintor de paredes no seu ofício numa manhã nos anos oitenta
dum festival de arte de São Cristóvão, disse-me: ‘- Não sei porque os homens
fazem festas. Para mim a festa é o sol que invade meu quarto trazendo todas as
cores quando acordo e me diz: homem, vai pintar...’ Então lembrei a canção de
Haroldo Barbosa e Luiz Reis ‘...eu abri a janela e esse sol
entrou...de repente, em minha vida já tão fria e sem desejos...estes
festejos, esta emoção...luminosa manhã...porque tanta luz, tanto azul...é
demais pro meu coração...’ Vejo o quadro ‘Quarta-feira de cinzas’, obra do
pintor alemão Carl Spitzweg e observo quanta verdade há nele para retratar o
fim do carnaval... Um pierrot e sua realidade: finda a festa, de volta à prisão
da vida, uma tosca moringa d'água e um exuberante raio do sol da esperança a
atravessar as grades da prisão da vida... Carnaval desengano... Volto à
pergunta do velho Clóvis Barbosa: E a felicidade...? Uma luminosa manhã...”
- Publicado no Jornal da Cidade, edição de domingo e segunda-feira, 12 e 13 de outubro de 2014, Cqderno A-7.
- Postado no Blog Primeira Mão, em
12 de outubro de 2014, às 10h34min, sítio:
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