Opinião
REVISTA DO RÁDIO
Clóvis Barbosa
Marlene e Emilinha Borba
Entre os oito e quinze
anos de idade aconteceram fatos extraordinários em minha vida na capital
baiana. Diria que foi uma fase muito rica na aquisição de conhecimentos, em amadurecimento
para enfrentar a vida e autoafirmação cultural e cidadã. Não fui aquela criança
teorizada pelos psiquiatras/psicólogos como a que teve uma vida normal do ponto
de vista de brincar e estudar. Trabalhei para sobreviver desde cedo e, ao invés
de ser um elemento prejudicial à minha formação, foi muito importante para o
meu crescimento, pois, em momento algum, fiquei privado de participar de
brincadeiras típicas da infância e de frequentar regularmente a escola. A minha
normalidade era sentida pelo bem-estar físico, mental e social e pela
capacidade de adaptação ao meio. É verdade que na vida ninguém cresce sozinho.
Nesse caminhar tive pessoas extraordinárias que passaram pela minha história e influenciaram
de forma decisiva na formação do meu caráter e daquela lei moral, de que nos
fala Kant - na Crítica da razão prática
- existente em nós. Nas
orações sempre agradeço por esses anjos que Deus colocou em minha vida, uns já
falecidos e outros ainda vivos. Sou-lhes grato por menor que tenha sido a sua contribuição.
Foi uma fase em que cada minuto era aproveitado intensamente. Aprendi a ser
inteiro em tudo em que me envolvia. Na fase impúbere, não sei bem o porquê,
sempre fui “do contra”. Em casa, havia uma disputa sobre todo e qualquer
acontecimento do cotidiano. A briga era infernal, mas, paradoxalmente, o senso
de humor, a pacificidade e a solidariedade predominavam
entre nós todos – irmãos e pais. Eu, particularmente, sempre estive ao
lado dos oprimidos.

Enquanto os homens torciam
pelo Vitória e as mulheres eram fãs de Cauby Peixoto e Wanderley Cardoso, eu
era torcedor do Bahia e fã de Francisco Carlos - um cantor de sucesso na década
de 1950 - e Roberto
Carlos. Em paralelo à vida no meu lar, no labor diário e nos estudos tinha uma
afeição muito grande à vida cultural proporcionada pelos cinemas de Salvador e
pelo Instituto Goeth, situado no Corredor da Vitória, próximo à Praça do Campo
Grande. Era admirador do cinema clássico e dos movimentos culturais da época. Acompanhei
o surgimento da Nouvelle Vague Francesa,
de Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Eric
Rohmer e Jacques Rivette, sendo a maioria desses cineastas vinda da crítica
cinematográfica feita numa revista de vanguarda, o Cahiers de Cinéma. Acompanhei o neorrealismo italiano nas figuras
dos seus idealizadores, Roberto Rosselini, Luchino Visconti e Vittorio de Sica.
Nunca me esqueço do filme Ladrões de
Bicicleta, que fui assistir num cinema de subúrbio, em Plataforma. Vi o cinema novo no Brasil florescer -
influenciado pela nouvelle vague e
pelo neorrealismo -, que teve como
expoentes Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Nelson
Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Roberto Santos, Paulo César
Saraceni, Olney São Paulo e Rogério Sganzerla. Vivenciei o surgimento do novo cinema alemão, também inspirado
pela nouvelle vague e pelos movimentos
de protesto de 1968, e que teve como nomes importantes Wim Wenders, Werner
Herzog, Volker Schlondorff e Rainer Werner Fassbinder; o nascimento do cinema
baiano em filmes como Redenção, Barravento, A Grande Feira e Tocaia no
Asfalto.

Gratas recordações tenho das filmagens de O Pagador de Promessas na Ladeira do
Carmo e Pelourinho (único filme brasileiro a ganhar a
Palma de Ouro em Cannes), quando
testemunhei os gritos do diretor Anselmo Duarte e as interpretações dos atores
Leonardo Vilar, Geraldo D’El Rey, Glória Menezes e tantos outros. Foram
momentos fascinantes. Saía do IEIA (à época era Instituto de Educação Isaías
Alves) no Barbalho, seguia em direção ao Santo Antônio, passando pelo Além do
Carmo, até chegar à Igreja do Passo. Descia os seus 55 degraus e me sentava
timidamente na Ladeira do Carmo. Não sei o porquê, mas nunca fui expulso do set
dos trabalhos cinematográficos. Tenho a impressão de que era a minha farda caqui
do colégio que impunha respeito ou me tornava invisível. Tinha de tudo nas
gravações, e a multidão de curiosos de vez em quando era contida pela polícia e
seguranças. Certo dia, se aproximou do local o famoso cordelista Cuíca de
Santo Amaro, causando reboliço. A turba começou a entoar o “bota vaca no
currá, Zé Coió quer mamar” e as filmagens tiveram que ser suspensas. Registre-se
que foi nele, Cuíca, que Dias Gomes - autor da peça que deu nome ao filme
– se baseou para criar um dos personagens. Enfim, foram momentos inesquecíveis.
Outra faceta que eu tinha era a de acompanhar as programações das emissoras de
rádio da Bahia e do Rio de Janeiro, principalmente. A Rádio Sociedade da Bahia,
ligada ao grupo de Assis Chateaubriand, a Rádio Excelsior e a Rádio Cultura
predominavam na época com um cast de
fazer inveja. Até os Serviços de Alto Falante - muito comuns na época nos bairros de Salvador - primavam pelo bom
gosto.

Foi no palco da Rádio
Excelsior, que ficava próxima à Praça da Sé, que vi um show do grande cantor de boleros Bienvenido Granda. No
auditório e nas ondas da Rádio Sociedade desfilavam nomes como Ubaldo Câncio de
Carvalho, Renato Mendonça, Armando Chaves, Pacheco Filho, Antônio Laborda, José
Athaide. Tinha até programa de rádio teatro. Nessas emissoras desfilavam o compositor
Riachão e um cantor de voz muito
bonita, Osvaldo Fahel. Existia uma
exibição semanal de meia hora, intitulada PRK-30,
na fase memorável da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, apresentada por
Lauro Borges e Castro Barbosa, que modulava: “Cavaleiros e cavaleiras de ambos os sexos, muito boa tarde. Acaba de
subir ao ar a sua PRK-30, falando diretamente do segundo andar do Edifício
Espícler, enquanto não anunciam a construção do primeiro andar. É por isso que
anunciamos sempre: NO AR, PRK-30!”. Eram apenas duas vozes que representavam
dezenas de personagens, uma espécie de Chico Anísio das décadas de 50 e 60.
Aliás, há quem diga que o humorista cearense foi muito influenciado por essa
dupla de sucesso na história do rádio. Mais fascinante ainda era a acirrada
disputa artística que se travava na Rádio Nacional e pelo Brasil afora, tendo
como protagonistas as cantoras Emilinha Borba e Marlene, e os cantores Cauby
Peixoto e Francisco Carlos. O gesto simples de girar um botão criava, repentinamente,
um momento mágico. Tinha uma emissora de Pernambuco cujo locutor de vozeirão falava
o seguinte bordão: “Pernambuco, você é meu”. E continuava, “Aqui é a Rádio
Jornal do Comércio... É Pernambuco falando para o mundo”.

Minha mãe, fã ardorosa
de Emilinha, acompanhava cantando em duo com a voz que vinha do rádio: “Chiquita bacana lá da Martinica, se veste
com uma casca de banana nanica”, ou: “Quando
a lama virou pedra e mandacaru secou, quando arribação de
sede bateu asa e voou; foi aí que vim-me embora carregando a minha dor, hoje eu
mando um abraço pra ti pequenina, Paraíba masculina muié macho sim senhor”,
clássico de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Mas minha velha nunca foi
assistir Emilinha pessoalmente. Eu era obrigado a ver os seus filmes e passava
a ela o papel desempenhado pela artista ou a música que ela interpretava.
Lembro-me de alguns filmes, como “Tristezas não pagam dívidas”, onde ela canta “Atire a primeira pedra”; “Aviso aos
navegantes”, em que se apresenta com uma capa de plástico e sob uma chuva artificial,
onde interpreta a música Tomara que chova.
Enfim, foram inúmeros os filmes. O mesmo quadro era com Cauby Peixoto.
Diferentemente, minha mãe não admitia as canções interpretadas por Marlene ou
Francisco Carlos. Nessas horas, mudava-se imediatamente de emissora. Mas ela
gostava também de Dolores Duran, Elizete Cardoso, Dalva de Oliveira, Maysa e
Ângela Maria. Em outubro de 2007, eu estava em São Paulo quando minha
mãe telefonou-me pedindo para comprar um CD de Emilinha Borba. Fui a uma loja
da Avenida Paulista sem qualquer esperança de encontrar, contudo, achei vários
CDs da cantora. Entreguei todos a ela, que vibrou com o presente. Soube que
todos os dias ela tocava um a um dos CDS. Mas, na verdade, estava ouvindo pela última
vez a voz daquela que durante muito tempo encheu o seu mundo de magia. É que ela
faleceu poucos dias depois, mas seus duos
com Emilinha permanecem vivos em minha memória.
- Publicado no Jornal
da Cidade, Aracaju-SE, edição de 08/05/2021, Caderno A-7.
- Fotos extraídas do Google