Opinião
Em nome do Pai
Clóvis
Barbosa
Duas
visões poéticas sobre Deus. Uma, do brasileiro nascido no Rio de Janeiro,
Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), pertencente à segunda geração da
escola romântica. A outra do americano nascido em West Hills, Walt Whitman
(1819-1892), considerado o grande poeta da revolução americana. De Abreu: “Eu
me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno e brincava na praia; o mar bramia, e,
erguendo o dorso altivo, sacudia, a branca espuma para o céu sereno. E eu disse
a minha mãe nesse momento: ‘Que dura orquestra! Que furor insano! Que pode haver
de maior do que o oceano ou que seja mais forte do que o vento?’ Minha mãe a
sorrir, olhou pros céus e respondeu: - Um ser que nós não vemos, é maior do que
o mar que nós tememos, mais forte que o tufão, meu filho, é Deus”. De Whitman:
“Quero fazer os poemas das coisas materiais, pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais. E farei os poemas do meu corpo e do que há de
mortal. Pois acredito que eles me trarão os poemas da alma e da imortalidade. E
à raça humana eu digo: - Não seja curiosa a respeito de Deus, pois eu sou
curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra
capaz de dizer quanto eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo
Deus em todos os objetos, embora de Deus mesmo eu não entenda nem um
pouquinho...”.

Quem tem
o privilégio de vivenciar nas manhãs chuvosas de Aracaju o espetáculo oferecido
pela natureza, não teria e não terá qualquer dúvida sobre a presença de Deus no
nosso cotidiano. As nuvens espessas não permitem o surgimento do sol que,
teimoso, procura nas brechas, por menor que sejam, desvirginá-las através dos
seus raios, até o momento que surge radiante, imponente, retumbante.
Fantástico! Na minha corrida matinal, ao passar pelas árvores que margeiam o
rio na Avenida Beira Mar, sinto na pele este cenário grandioso, belo e
emocionante. De repente, na direção oeste, do fundo do Parque da Sementeira,
surge, altaneiro, vibrantes, multicolorido, um dos maiores fenômenos, óptico e
meteorológico, da natureza: o arco-íris. É um espetáculo indescritível. Às
vezes penso como alguém pode achar um dia de chuva feio. Nada disso! Um dia de
chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos cumprem o mesmo papel: falar com
você, em nome de Deus. As árvores, as flores, o sol, o luar, os montes, o mar,
o rio e todos os fenômenos da natureza são as ferramentas criadas para lhe dar
a oportunidade de se encontrar, de ser humano, na maior acepção do termo.
Aprendi com os anos, depois de muito tempo, que a raiva e o ódio destroem e
desagregam a nossa vida e a do outro. A amargura não vale a pena, não traz
solução, só dificuldades.

Não se entende o porquê de tantas
atrocidades pelo mundo afora e que tanta vergonha já causou à humanidade.
Muitas delas praticadas em nome do Pai. Alguns casos são inexplicáveis e
mostram a involução dos homens enquanto seres humanos: O assassinato, na Segunda Guerra Mundial,
pelos nazistas, liderados por Adolph Hitler, de 6 milhões de judeus entre 1939
e 1945; a matança de 200 mil bósnios, 2 milhões de refugiados e o estupro de 40
mil mulheres pela milícia e exército sérvio durante a queda da antiga
Iugoslávia, entre 1992 e 1995; o massacre de Ruanda, em abril de 1994, quando
700 mil tútsis morreram e 200 mil foram refugiados, crime praticado pelas milícias
hútus, numa das maiores barbáries praticadas por um grupo étnico contra outro
do mesmo País; a morte em massa de 1,5 milhão de armênios e de 500 mil
deportados, praticados pelos turcos otomanos; o regime de terror instaurado no
Timor Leste, uma ex-colônia portuguesa
situada no sudeste asiático, pela Indonésia, que fez com que 150 mil timorenses fossem assassinados entre 1975 e
1999; o massacre praticado
pelo exército do Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, que matou 1,7 milhão de cambojanos sob as ordens de Pol Pot,
líder comunista que apoderou-se do poder no Camboja;
e
o genocídio ocorrido na Ucrânia entre 1932 e 1933, a mando do ditador soviético
Joseph Stalin, onde 3 milhões de ucranianos foram vitimados.

Somos filhos da África. Para aqui vieram os
nossos antepassados, como escravos para, com sua força de trabalho, submeter-se
a uma exploração do homem pelo homem. Ao chegar ao Brasil, eram açoitados de
forma severa para, de logo, acostumarem-se no contexto da opressão
institucionalizada. Foram tripudiados, espancados, explorados, animalizados em
sua dignidade e autoestima. A chibata era o símbolo do instrumento de tortura a
ser aplicada àqueles que não se conformavam com o establishment. Certa vez, um engraçadinho, pelo twitter, ao me solidarizar com a fome na
África, me mandou às favas, dizendo que eu deveria era me solidarizar com os
pobres e oprimidos daqui e não querer ser um pai de povo que eu sequer
conhecia. O que fazer?! A mediocridade e a insensibilidade são irmãs gêmeas,
até porque o que a não ficção complica, a ficção elucida com muita clareza. Ou
será o contrário? A verdade é que o meu seguidor de twitter desconhece o que foi a carnificina escravocrata em nosso
país. Esquece, por exemplo, que o Brasil foi o campeão mundial da escravidão
moderna, chegando ao ponto, em 1820, dois anos antes da Independência, de ter
uma população onde dois terços eram de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no
Rio de Janeiro 700 mil africanos. Documentos demonstram que o Rio de Janeiro
foi a maior cidade escravista do mundo desde a Roma antiga.

E para arrematar: De 1600 a 1850, 4,5 milhões de
escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade
levada para América do Norte. Quem se dedicar a ter uma visão mais aprofundada
dos navios negreiros, vai se horrorizar com a forma desumana como eram tratados
os africanos nesse meio de transporte. Os escravos sempre somavam um número bem
superior que a tripulação. Viajavam com os pés presos, agrilhoados, a fim de evitar
fuga. Qualquer tipo de insurreição era combatido com violência, desde a tortura,
passando pelo açoite e o pau de arara, e findando na própria morte. Ademais,
pelas condições promíscuas da viagem, estavam também sujeitos a todo tipo de
doença. A escravidão foi um dos acontecimentos mais tristes da história da
humanidade. O pior é que os escravocratas, fidelíssimos cristãos, falavam nos
cultos e nas missas em nome do Pai. Quer saber mais? Compre e leia “O Navio
Negreiro – Uma História Humana”, de Marcus Rediker, professor de história
marítima da Universidade de Pittsburg (EUA), tradução de Luciano Machado,
Companhia das Letras, 464 págs. Mas, interessante, gostei do epíteto da vontade
que supostamente eu teria de pretender ser o pai do povo somaliano, como dito
pelo twitteiro. Quem me dera! Mas
estou satisfeito por ser filho da África e, seja ela pai ou mãe, é minha
pretensão honrá-la.

A
inquisição foi outro acontecimento que envergonhou a humanidade, durante o qual
30 milhões de pessoas foram assassinadas no período mais obscurantista e
corrupto da igreja católica. O pior é que esses crimes bárbaros também foram
praticados em nome do Pai, contrariamente a todo o seu ensinamento. Não existe
em lugar algum das Sagradas Escrituras qualquer ato desse jaez praticado por
Jesus Cristo ou determinado aos seus seguidores. Em nenhum momento do Novo
Testamento qualquer dos seus Apóstolos deu essa instrução à Igreja. Em Lucas,
há uma passagem onde dois discípulos de Jesus, Tiago e João, estavam
aborrecidos porque algumas cidades se recusaram a ouvir sua mensagem e
indagaram o Senhor sobre a possibilidade da descida de fogo do céu para
consumir seus habitantes. Jesus não gostou do que ouviu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque
o filho do homem não veio para destruir as almas dos homens. Essa dívida
impagável tem a igreja católica com a humanidade e com Deus. Durante mais de
seis séculos perseguiu e matou milhões de pessoas. Não estamos aqui para
manipular a palavra sagrada, mas para, em seu nome, do Filho, e do Espírito
Santo, louvar e agradecer, bendizer e adorar. Em Mateus, Jesus anuncia o tipo
de “espírito suave” que deixou como exemplo para todos nós: “...Porque o meu
jugo é suave e o meu fardo é leve”. E olhando o arco-íris faço da leveza e da
suavidade o meu caminhar... Em nome do Pai.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de 4/2/2017.
- As fotos foram retiradas do Google
Nenhum comentário:
Postar um comentário