domingo, 29 de julho de 2018
Mulheres da antiguidade - Bassila
Isto é História
Mulheres Audaciosas da
Antiguidade
BASSILA
Vicki León
Embora as mulheres sempre tivessem participado da audiência no
teatro grego, elas não podiam ser hypocrites
(a palavra grega para “ator”) até os tempos romanos. Na realidade alegre,
obscena e às vezes grosseira do teatro de pantomina, as atrizes como Bassila
demonstraram tanto talento para a hipocrisia como o homem ao lado. Elas também
podiam exibir sua habilidade para nudez, acrobacias e travestismo; as mulheres
também faziam papeis masculinos, do mesmo jeito que os homens representaram
papeis femininos durante séculos.
Bassila veio de Aquileia, a cidade comercial mais importante
do norte da Itália no século III d.C. Sua carreira de atriz a levava para
aldeias e cidades ao redor do mundo romano. Atrizes de origem simples, muitas
das quais começaram como escravas, tinham a mesma posição social dos atores:
nenhuma. Uma lei romana proibia os senadores e outros homens livres de se
casarem com atrizes e outros tipos moralmente duvidosos.
Bassila e outras que alcançaram o estrelato se tornaram
famosas, ricas e procuradas, frequentando graciosamente grupinhos culturais
como os dos imperadores Nero e Adriano. Para alcançar sucesso, Bassila fez de
tudo: atuou como dançarina e representou em peças, pantominas e coros. Todavia,
a interpretação que a tornou mais famosa foi a da morte. Uma inscrição no
teatro de Aquileia elogia Bassila por sua fantástica habilidade de morrer
realisticamente no palco e a chama de “a décima Musa”.
- A próxima postagem de
“Mulheres Audaciosas da Antiguidade” vai falar de PLOTINA, imperatriz do vasto
Império Romano, foi imortalizada em mármore e em moedas como “Aquela do
Penteado Verdadeiramente Esquisito”. Foi casada com o Imperador Trajano e era
prima do futuro imperador Adriano.
- Do livro “Mulheres Audaciosas
da Antiguidade”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Editora Rosa dos
Tempos.
- As imagens aqui reproduzidas
foram retiradas do Google.
terça-feira, 17 de julho de 2018
A VIDA IMITA A ARTE?
Opinião pessoal
A vida imita a arte?
Clóvis Barbosa
Talvez “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, romance escrito em 1774,
seja a obra que mais tenha influenciado gerações. A paixão devastadora de um
jovem por uma mulher comprometida, o amor não correspondido e a narrativa que
compartilha a dor do personagem com o leitor levaram muitas pessoas ao suicídio.
A obra de Johann Wolfgang Goethe foi o marco divisor da literatura alemã. É ela
que inicia o período da prosa moderna. O livro se divide em duas partes. Na
primeira, incorpora uma experiência pessoal do próprio Goethe, que se apaixonou
por Charlotte Buff (Charlotte é, também, o nome da personagem por quem Werther
se encanta), mulher de Johann Kestner, um de seus amigos. O assédio é idêntico
entre autor e personagem: por meio do uso de cartas. A segunda parte traduz a
experiência vivida por outro membro de um grupo íntimo de Goethe, Karl Wilhelm
Jerusalem, que se apaixonou de igual forma por uma mulher casada e que termina
com uma tragédia, a mesma ocorrida com o jovem Werther: o suicídio através do
uso de arma de fogo. A simbiose desses acontecimentos vividos pelo autor serviu
de base para a produção dessa grande obra da história da literatura. Outro
grande escritor, William Shakespeare, com as suas tragédias escritas há mais de
quatro séculos, também tem influenciado e emocionado gerações ao explorar
sentimentos como o amor (Romeu e Julieta), ambição sem limites (Macbeth), ciúme, melancolia, inveja,
traição (Rei Lear, Otelo e Hamlet). Não são poucos os suicídios, principalmente entre jovens,
durante esse longo espaço de tempo, mormente inspirados em Romeu e Julieta. Mas,
por que determinadas obras literárias têm o condão de influenciar os leitores
para o mal ou para o bem? Qual a função da literatura no processo
político-pedagógico? São perguntas que ficam sem resposta diante de acontecimentos
violentos ocorridos num mundo cada vez mais banal e delirante, principalmente
quando essas obras se popularizam através das adaptações cinematográficas.
Baseado numa história de Quentin Tarantino, o diretor Oliver Stone
causou o maior furor com o filme “Assassinos por Natureza”, de 1994, onde um
casal de amantes atravessa o país matando pessoas. O filme trata do
relacionamento entre a mídia e a violência e é considerado um dos que mais
inspirou crimes na vida real. Em setembro de 1994, um jovem de 14 anos, morador
de Dallas, Texas, decapitou uma colega de classe de 13 anos. Ao ser preso,
disse: “Eu queria ser famoso, como os Assassinos
por Natureza”. Em 1995, William Savage foi assassinado com requintes de
violência. A vítima era amiga do autor de best-sellers
jurídicos John Grisham, que chegou a processar o diretor Oliver Stone, uma vez
que os assassinos Benjamin Darras e Sarah Edmondson, que ainda deixaram uma
outra vítima paraplégica com um tiro na cabeça, disseram que se basearam no
filme. Eles tinham passado a noite inteira assistindo a fita. A obra chegou a
ser responsabilizada pelo chamado “Massacre de Columbine”, fato ocorrido em 20
de abril de 1999 no Condado de Jefferson, no Colorado, quando dois jovens
estudantes, Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17 anos, atiraram em
vários colegas e professores, deixando um rastro de 15 mortes e 25 feridos. Em
2001, Luther Casteel abriu fogo contra os frequentadores de um bar em Kentucky:
“Eu sou um Assassino por Natureza”, gritou ele enquanto atirava. Matou duas
pessoas e feriu seis. O romance Fúria,
de Stephen King, inspirou Jeffrey Line Cox a tomar como reféns seus colegas de
classe. Armado com fuzil, ele exigiu um voo para o Brasil e um milhão de
dólares antes de ser dominado. No romance, é contada a história de Charlie
Everett Decker, um adolescente que mata a tiros uma professora e faz de sua turma
refém. Vários tiroteios e incidentes em escolas foram ligados à obra de King,
que, ciente disso, proibiu a publicação de novas edições e reimpressões. A obra
passou a ser conhecida como “o livro proibido de Stephen King”.
Ao longo da história, porém, muitos
outros livros deram a sua contribuição para a prática do mal. Mein Kempf, de Adolf Hitler, foi escrito
na década de 1920. O conteúdo antissemita e racista, que se tornaria a base ideológica
do governo nazista, já era pregado pelo futuro líder do povo alemão. O Príncipe, de Maquiavel, escrito em
1513, tornou-se modelo para as constituições modernas e nunca uma obra foi tão
estudada no mundo. Inspirou e inspira até hoje políticos de várias matizes
ideológicas. O Anticristo, de
Friedrich Nietzsche, que trata a religião cristã como “maldita”, questiona
Jesus Cristo e diz que “o evangelho morreu na cruz”. Para ele, a religião
cristã foi o maior desastre ocorrido no mundo ocidental. Ele acusa o
cristianismo pela destruição do império romano e das conquistas culturais e
científicas dos gregos e dos próprios romanos. O livro ainda hoje é tratado
pela Igreja e pelos cristãos como pérfido, odiento, escrito por um malcriado,
inimigo da religião. Lolita, de
Vladimir Nabokov, é um dos romances mais lidos. A história gira em torno da
paixão obsessiva de um homem maduro por uma menina de 12 anos, de nome Dolores.
Considerada uma obra imoral, teria influenciado o desejo mórbido por crianças,
a chamada pedofilia. Os Versos Satânicos,
de Salman Rushie, foi um dos livros mais atacados e perseguidos pelo mundo muçulmano,
chegando o seu autor a sumir por muito tempo em razão da caçada feita para
matá-lo. O autor critica o Profeta Maomé, fundador do islamismo. Laranja Mecânica, de Anthony Burguess,
transformado em filme por Stanley Kubrick em 1972, trata de violência. A obra
foi citada como inspiração para o assassinato de um menino de 14 anos por um
colega de classe no Reino Unido, bem como para um estupro múltiplo, onde os
criminosos transpuseram para a realidade uma cena do filme: enquanto praticavam
o estupro cantavam “Singin in the Rain”. O filme e o livro chegaram a ser
proibidos nos cinemas e livrarias britânicos.
O Apanhador no Campo de Centeio, de Jerome David Salinger, é considerado pela
revista Time como um dos cem maiores
romances de língua inglesa. The Catcher
in The Rye, seu título original, é um clássico que marcou várias gerações e
foi considerado a bíblia da Geração Beat. O livro conta a história
autobiográfica de Holden Caulfield, um adolescente americano que se revolta
contra a falsidade do mundo e os valores da sociedade adulta. Ele chega ao
ponto de afirmar: “Até que achei bom eles terem inventado a bomba atômica. Se
tiver outra guerra, vou me sentar bem em cima dessa porcaria de bomba”. Expulso
do colégio, em função de notas baixas, ele foge da sua realidade e viaja de
trem para Nova York. Lá adota um estilo de vida totalmente desconhecido para um
jovem de 17 anos: bebida, mulher e drogas. Depois do assassinato de John
Lennon, Mark David Chapman confessou que tirou do livro de Salinger a
inspiração para matar o ex-Beatle, crime ocorrido em 1980. Diz-se, também, que
o livro teria influenciado Robert John Bardo no assassinato da modelo e atriz
Rebecca Shaeffer, e a John Hinckley Jr., na tentativa de matar o ex-presidente
Ronald Reagan em 1981. A primeira edição do livro é de 1951 e seu autor, com a
fama repentina conquistada com a obra, se tornou um ermitão, defensor
intransigente de sua privacidade, refugiando-se num local de difícil acesso. Evidente
que não podemos acusar esta ou aquela obra literária, ou mesmo cinematográfica,
como a culpada das tragédias humanas. O próprio Goethe disse que seu romance
nunca teve o intuito de estimular o suicídio entre os seus leitores. Ora, quem
passou por momentos traumáticos e resolve se vingar do mundo procurará sempre
alguma coisa para justificar a sua insanidade. É certo que a maldade, somada a
uma pré-disposição criminosa ou suicida, faz parte de alguns indivíduos. Mas os
livros podem cooperar com o insano? Estaria certo Oscar Wilde em dizer que “A
vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”?
Post Scriptum
Boa-noite
Cinderela

Anos 80, Aracaju, uma sexta-feira qualquer. Ala
interna e externa do Cacique Chá
entupida de gente. As mesas completas de intelectuais, advogados, médicos,
servidores públicos, bancários, políticos e todo tipo de tribo. Repentinamente,
adentra ao recinto o vereador de uma cidade da Grande Aracaju, conhecido por Lulu,
acompanhado de duas louras de “fechar quarteirão”. Todos ficam boquiabertos com
a beleza e com os corpos perfeitos das duas mulheres. Estilo mulherão, bocas
carnudas, bumbuns arrebitados cobertos por saias apertadíssimas, blusas que
deixavam transparecer a dureza dos seios, olhos verdíssimos que lembravam os
mares do Caribe. Ninguém ligava para os cumprimentos efusivos de Lulu,
demonstrando certa soberba diante dos presentes. Não houve quem não se
levantasse para ver aquelas maravilhosas mulheres. Gama, Alberto Carvalho,
Eugênio, Bira, Elber Batalha, HBT, Antônio Góis, Emídio, Valdemar, todos embevecidos
com a beleza desnorteante daqueles monumentos. Até o professor Silvério
arriscou uma olhadela. Lisboa reconheceu a verdade nua e crua da perfeição
feminina, traçando um paralelo com um poema de Olavo Bilac, dizendo: “Última
flor do lácio, inculta e bela, (...) Ouro nativo, que na ganga impura, a bruta
mina entre os cascalhos vela...”. Doutor, o proprietário do Cacique,
aproximou-se da mesa de Lulu e foi apresentado às meninas, sendo o único que
ganhou beijos de saudação. Depois de desfilar com as duas “feras” pelo recinto
e deixar todo mundo com inveja, Lulu partiu em seu possante veículo com as
beldades. Todos queriam saber de Doutor o que ele conversou com as meninas. – Lulu me disse que ia fazer uma tal de
“ménage a trois”. Vocês sabem o que é isso? Na terça-feira seguinte, no
horário de almoço, chega Bira apavorado, tremendo e gaguejando: - Lulu foi encontrado todo cagado na Estrada
do Cafuz. Tinha dormido por dois dias. As duas mulheres que estavam com ele
fugiram com o carro. Nisso, entra Arame
Nu, com aquele boné a Sherlock Holmes, e diz professoralmente, na qualidade
de perito da SSP: - Lulu caiu no conto do
Boa-Noite Cinderela, que consiste no crime de drogar a vítima para roubá-la. Já
descobrimos a droga que foi usada na bebida de Lulu: o rohypnol, cuja substância
ativa é o flunitrazepam, capaz de deixar uma pessoa dormindo por até 72 horas.
Lulu nunca mais foi ao Cacique Chá e o fato o traumatizou ao ponto de renunciar
ao cargo de vereador.
-
Publicado no Jornal da Cidade,
Aracaju-SE, edição de domingo, 7 de junho de 2015, Caderno A-7.
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Postado no Blog Primeira Mão, em 07
de junho de 2015, às 17h39min, site:
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Mulheres da antiguidade - Umidia Quadratila
Isto é História
Mulheres Audaciosas da
Antiguidade
UMÍDIA QUADRATILA
Vicki León
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Não é de admirar que poucas pessoas queiram contestar a
literatura antiga – desencavar fatos a partir de preconceitos antifeministas é
como desembaraçar uma bola de linha de pesca. Um caso ilustrativo é o de Umídia
Quadratila, uma mulher abastada e generosa para com sua cidade natal de Casino.
Durante seus 78 anos de vida, ela desembolsou grandes quantias para um templo,
um palco e um anfiteatro para sua cidade, situada na Itália central. Estava
claro que Umídia amava o teatro que em seus tempos significava a cômica e
frequentemente obscena pantomina. Ela também era maníaca por jogos de tabuleiro.
Mais tarde, ela se divertia com ambos em casa, sendo rica o suficiente para
manter uma troupe inteira de atores à
mão.
Umídia também tinha a tarefa de criar seu neto. Com
frequência, ela pedia conselhos sobre a educação do menino, ao amigo da família
e escritor, Plínio, o Jovem. Seu trabalho mais difícil era manter a criança
longe de seus divertimentos simplórios, mas irresistíveis. Ele cresceu para se
tornar um esnobe e tanto, assim, acredito que ela tenha conseguido seu intento.
Quando Umídia morreu, ela deixou dois terços de suas
propriedades para o neto e um terço para a neta. Em uma carta para um amigo,
Plínio aplaudiu sua herança politicamente correta, desaprovou suas atividades
triviais, mas relutantemente dá um ponto de bônus para a velha mulher por não
ter exposto seu herdeiro a atividades inúteis de “mulheres sem nada para fazer”.
O que Plínio teve a dizer sobre suas realizações – criando seu neto, apoiando
as artes, doando dinheiro para obras públicas? Coisa alguma. Felizmente, temos
mais fontes de informação do que apenas o Plínio. Hoje dispomos de inscrições
que confirmam as contribuições de Umídia. Mas, imaginem quantas vidas ainda
devem estar escondidas nos casos em que as coisas não se encaminharam desta
maneira.
A autora
Vicki León
- A próxima postagem de
“Mulheres Audaciosas da Antiguidade” vai falar de BASSILA, uma atriz vinda de
Aquileia, cidade comercial situada no norte da Itália. Ela fez de tudo para
alcançar o sucesso, chegando ao ponto de interpretar a morte realisticamente.
Viveu no século III d.C.
- Do livro “Mulheres Audaciosas
da Antiguidade”, de Vicki León, tradução de Miriam Groeger, Editora Rosa dos
Tempos.
- As imagens aqui reproduzidas
foram retiradas do Google.
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