Opinião
O “Ó do Borogodó”
Clóvis
Barbosa

O
Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, é, talvez, um dos mais
preparados juristas do país. À margem disso, é
dado a decisões e depoimentos polêmicos. Quem não se recorda do habeas corpus concedido ao banqueiro
Daniel Dantas, do grupo Opportunity, investigado e preso por crimes financeiros
e tentativa de suborno durante a Operação Satiagraha da Polícia Federal?! Sua
postura foi criticada pela opinião pública, tendo sido acusado pelo Ministério
Público de ter “suprimido instâncias judiciais”. Mendes atacou na época o juiz
Fausto D’Sanctis, responsável pelos decretos de prisão preventiva, e a Polícia
Federal, por estarem tentando consolidar no Brasil um “estado policialesco”. Os
bate-bocas com colegas da Corte têm sido usuais, principalmente aqueles
considerados mais graves, como os que foram travados com Joaquim Barbosa,
Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello e Luiz Fux. Quando ocupava o cargo de
presidente da Casa, discutiu com o ministro Joaquim Barbosa. Durante um
julgamento ambos divergiram. Irritado com Barbosa, Gilmar disse que o
ministro não tem condições de dar lição a
ninguém. Barbosa, por sua vez, respondeu: Vossa excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do
Judiciário brasileiro. Vossa excelência
quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso.

Mendes não esconde e faz questão de
revelar as suas preferências político-partidárias. Nomeado pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso, demonstrava certa ojeriza ao governo do PT. No
começo da Operação Lava Jato, quando os canhões apontavam para
os governos Lula/Dilma e para a cúpula do partido, foi bastante mordaz: o que se instalou no País nesses últimos
anos está sendo revelado na Operação Lava Jato. É um modelo de governança
corrupta, algo que merece o nome de cleptocracia. Em 2015, foi um dos três ministros
do STF a votar contra o fim do financiamento empresarial de campanhas
eleitorais. Chegou a afirmar na época que a medida somente beneficiaria o PT,
pois, segundo ele, não precisaria mais de doações por já ter acumulado muito
dinheiro ao lesar os cofres públicos. Chegou a ser irônico ao enfatizar que o partido que mais leva vantagem na
captação das empresas privadas agora, como madre Tereza de Calcutá, defende o
fim do financiamento privado. Diz um provérbio português que “o tempo é
senhor da razão”. Resultado: os ventos da Operação Lava Jato voltaram-se para
figuras políticas abençoadas pelo ministro
Gilmar. Os outroras encômios ao trabalho da operação transformaram-se em
críticas: os investigadores da Lava Jato
precisam calçar as “sandálias da humildade” e não podem se achar o “ó do
borogodó”.

Ao ler esta crítica de Gilmar e a
citação, voltei aos meus doze anos. Ouvia muito a frase o “ó do borogodó”. – Fulano tem borogodó, coisa que você não
tem. Não entendia muito o significado. Na década de 70, assisti a
um show numa boate de Ipanema. Osvaldo Sargentelli, “O rei do ziriguidum”,
estava se apresentando com as suas belas mulatas. Lá pras tantas, Sargentelli,
ao elencar cada uma delas, dizia: as
minhas mulatas têm borogodó! Não há uma definição acabada para o termo. Para
o Dicionário Michaelis, em sua versão on-line no Uol (http://bit.ly/aslVBX), o verbete
“borogodó” é apresentado como substantivo masculino popular – atrativo
físico muito peculiar. Não é somente a beleza. É um algo a mais. Alguma coisa
como a forma de olhar, o esmero no tratamento, o jeito encantador de se postar
diante de outro, enfim, o “ó do borogodó” é algo ou alguém com alguma coisa a
mais, especial. E foi nesse sentido que Gilmar Mendes se posicionou contra os jovens
integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal que participam da
Operação Lava Jato – eles não podem se achar o “ó do borogodó”. Mas acredito
que essa meninada não quer ser o “ó do borogodó”. Eles estarão satisfeitos
quando conseguirem mudar esse quadro assustador que ameaça, a cada dia, o
tecido social brasileiro, fazendo com que a decência seja a regra de
comportamento e a corrupção a exceção. Não o contrário.

Contardo Calligaris, escritor e psicanalista
A verdade é que o País passa por uma verdadeira
lavagem ética e é preciso que haja perseguição aos princípios e valores que
deveriam estar no DNA de todo cidadão. Contardo Calligaris, em artigo na Folha
de São Paulo, edição do último dia 9/02, ao
abordar o tema sobre a vulgaridade do poder, diz que o poder é vulgar de duas
formas básicas, que se misturam facilmente. Há a vulgaridade do poder sem
cultura e há a vulgaridade do poder sem questões e dilemas morais. Segundo Calligaris,
o poder sem cultura é vulgar porque ele só se exibe. Já o poder sem preocupação
moral é vulgar porque seu exercício não tem nem sequer “desculpas” e revela
imediatamente o gozo de quem o detém. Ou seja, o poderoso sem preocupação moral
governa só para gozar de seu próprio poder. Não é por acaso que certos
representantes dos poderes constituídos, flagrados na prática de comportamentos
criminosos, reagem quase sempre com violência, em linguagem ralé ou grosseira, num
tom ameaçador que lembra os tempos dos coronéis da casa-grande vociferando para
a senzala. É salutar à ordem pública o conhecimento amplo das acusações
baseadas em provas envolvendo funcionários ou agentes do Poder Público. Elas
são de interesse geral. O agente público sempre está colocado numa vitrina
sujeita a inspeção e controle da sociedade.
Montesquieu, o grande artífice da tripartição
dos poderes, dizia que a corrupção de uma administração começa quase sempre com
a corrupção dos seus princípios. Tal reflexão deveria ser assimilada pelos que não
compreendem o real papel do Estado. O Estado não “é” deles. Tampouco é “para”
eles. É para todos. A visão patrimonialista de Estado, onde não há distinção
entre os limites do público e do privado, precisa ser erradicada da nossa
democracia. Como diz o ministro Ayres Britto, ex-presidente do STF, “o
patrimonialismo é o ovo da serpente de toda corrupção enquadrilhada”. Posso me
enganar, mas o Brasil precisa dar um salto de qualidade, saindo da barbárie em
busca da civilização. Para tanto, concordo plenamente com Britto, ao receber na
semana passada o prêmio FGV de Direitos Humanos, concedido pelas escolas de
Direito da Fundação Getúlio Vargas: o
Brasil deu um tranco na cultura da impunidade de pessoas postadas nos andares
de cima da sociedade, e a Lava Jato se constitui numa espécie de patrimônio da
coletividade brasileira no sentido de responsabilizar quem comprovadamente tem
culpa no cartório. A sociedade precisa abrir os olhos. Dirigir a sua
curiosidade para a transformação verdadeira do País. Uma sociedade sem ódios,
mas solidária e justa para todos. Punir severamente os desvios de conduta é o
início da transformação. Por que não? Seremos o “ó do borogodó”!
POST-SCRIPTUM
Platão popozudo

- O que
você carrega aí, embaixo do braço? Parece bem pesado. - São as obras completas
de Valesca Popozuda. Uma edição bilíngue em capa dura. - Valesca o que? De quem
se trata? Nunca ouvi falar. É uma escritora russa? - Que russa, que nada.
Brasileiríssima. Segundo um professor do Distrito Federal, é uma grande
pensadora contemporânea. - O que foi que ela escreveu? Nunca li. - Obras
fundamentais para a compreensão do mundo atual. Vou citar apenas algumas: “Pica
Mole Style”, “Quero te Dar”, “Hoje eu não Vou Dar” e “Beijinho no Ombro”. Veja
esses versos: “Eu fiquei foi peladinha, na hora, bateu neurose/ Além do ‘piru’
pequeno, e aí, ele não sobe?” - Perto disso, o “Lepo-Lepo” parece canção de
ninar. E é assim mesmo, ‘piru’, com i? - Sim, por isso a minha edição das obras
dela é bilíngue. Muita coisa precisa ser traduzida, não é de fácil compreensão.
É como tentar ler Kierkegaard no original. - Mas que história é essa de
pensadora contemporânea? - Foi um professor do ensino médio que colocou na
prova uma pergunta sobre uma música de Valesca, e a introduziu, ou melhor
dizendo, a apresentou, como uma grande pensadora contemporânea. Como tudo hoje,
o caso acabou na internet, com muita gente indignada. - Mas o professor falava
sério? - Ele disse que era apenas uma brincadeira para atrair a mídia e mostrar
que os jornalistas só se interessam por notícias ruins. - Profundo isso, sem
duplo sentido. E como é que se chama o professor? - Antônio Kubitschek. -
Parente do presidente? - Nada. O pai dele também era um pensador contemporâneo
e para homenagear o presidente Juscelino deu o sobrenome ao filho. - Será que
se o filho tivesse nascido agora ele teria dado o nome de Antônio Popozudo? -
Este é um excelente exemplo de raciocínio lógico de um clássico discípulo do popozudismo.
Você tem certeza de que nunca leu nada de Valesca? (Publicado no jornal “A
Tarde”, sem autoria, Caderno 2, página 3, edição de segunda-feira, 14/04/2014,
Humor, sob o título “Falam por Aí”).
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- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição 25/02/2017,
Caderno A-7.
- As fotos foram retiradas do Google.