segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Mata Escura - Conclusão
Isto é história
Mata Escura - Conclusão
Acrísio Torres
Eles, os abastados, utilizam o dinheiro para satisfação de seus sentimentos delituosos. Todo acolhimento era dado aos matadores. Todavia, presos os autores materiais de seus crimes, sem demora os abandonavam. – E o que me resta? – perguntou a si mesmo o bandido. Restava a Mata Escura morrer no patíbulo. No entanto, desejara ter tido o destino de suas vítimas. Ter terminado sua vida terrena como havia matado, e não porque havia matado. A lei de seus semelhantes o punia com a morte na forca. Mas, nessa punição não podia compreender que se achava com o Crucificado. Eram diferentes as condições. Discordava do reverendo Aires da Mata. Não podia conceber que o Crucificado, da cruz, o estivesse chamando e lhe oferecendo sangue e água para lavar as suas culpas, os seus crimes.
– Filho, não perca a sua alma, disse-lhe o sacerdote. O condenado calou. Nada mais podia manifestar sem revelar o nome dos autores intelectuais de seus crimes. Talvez fosse melhor morrer sem acusar, nem a esses. Não devia perder a alma, insistia o sacerdote. Nada mais disse Mata Escura. Entregou-se às mãos do carrasco. No entanto, por lembrança dele próprio, desejou lançar-se por si mesmo da forca. – Filho, não faça isso! – Gritou o reverendo. Para o velho sacerdote Aires da Mata era cometer mais um crime, um suicídio. Perderia a sua alma, advertira o assistente religioso. Deteve-se o condenado. Devia deixar o algoz cumprir o seu oficio, ao que Mata Escura se resignou, e pagou com a vida todos os seus crimes. Negra noite envolveu o horrível cenário.
(*) - Do livro Sergipe/Crimes Políticos I, Cenas da vida sergipana 2, autoria de Acrísio Torres, Thesaurus Editora, prefácio do jornalista Orlando Dantas, páginas 86 e 87.
- Chegamos ao final da obra do professor Acrísio Torres, membro da Academia Sergipana de Letras. Ele é autor das seguintes obras: História de Sergipe, 2ª. Edição (1967); Geografia de Sergipe, 1ª. Edição (1970); Literatura Sergipana, 2ª. Edição (1974); Minha Terra, Minha Gente, 1ª. Série, 1º grau; Aracaju, Minha Capital, 2ª. Série, 1º grau; História de Sergipe, 3ª. Série, 1º grau; Geografia de Sergipe, 3ª. Série, 1º grau; Sergipe e o Brasil, 4ª. Série, 1º grau; Leituras Sergipanas, 1ª. Série, 1º grau; Leituras Sergipanas, 2ª. Série, 1º grau; Leituras Sergipanas, 3ª. Série, 1º grau; Leituras Sergipanas, 4ª. Série, 1º grau; Virgínio de Sant’Anna, (1967); O Secretário de Guilherme Campos (1968); Graccho Cardoso (1973); Zózimo Lima (1973); Augusto Leite (1974); Os amores de Pedro II em Sergipe (1981); Cátedra e Política (1988) e Imprensa em Sergipe, I (1993).
- A próxima e última postagem do livro será feita no dia 8 de março de 2011, oportunidade em que estaremos apresentando o prefacio da obra, de autoria do jornalista Orlando Dantas, onde ele traça o perfil do autor e manifesta a sua discordância em relação ao momento do crime de Fausto Cardoso. Orlando Dantas foi proprietário do jornal Gazeta Socialista, mais tarde transformada em Gazeta de Sergipe, um dos jornais que fez história na imprensa de Sergipe.
Florbela Espanca - Sonetos
O que estou lendo?
Sonetos
Autoria – Florbela Espanca
Aletheia Editores - Lisboa
Contra-Capa
Florbela Espanca nasceu a 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, Portugal. Filha ilegítima (ou de “pai incógnito”), foi baptizada com o nome de Flor Bela de Alma da Conceição. Freqüentou a escola primária em Vila Viçosa, o Liceu André de Gouveia, em Évora (um liceu masculino), e a Faculdade de Direito de Lisboa. Casou-se por três vezes (1913, 1921 e 1925) e trabalhou como jornalista e tradutora. Florbela Espanca tornou-se um dos poetas portugueses mais célebres de todos os tempos. Cantora do Amor, a sua obra ímpar é fruto de um feminismo, muito ao gosto dos anos 20, mas também das contradições que lhe iam no espírito. Morreu (suicidou-se) a 8 de dezembro de 1930, em Matosinhos. Dela disse Fernando Pessoa ser uma “alma sonhadora, irmã gémea da minha”.
Um soneto de Florbela
A Maior Tortura
A um grande poeta de Portugal
Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
Não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!
E nem flor de lilás, tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!
Poeta, em sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!
Mas minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és,
Para gritar num verso a minha Dor!...
Cavaco Silva e a lição da morte política
Artigo pessoal
Cavaco Silva e a lição da morte política
Clóvis Barbosa
Cavaco Silva Presidente de Portugal |
Vindo de Barcelona, cheguei em Lisboa na sexta feira, dia 21 de janeiro. Estava ansioso para assistir as eleições presidenciais em Portugal, que seriam realizadas no domingo, 23 de janeiro, onde seis candidatos disputavam a hegemonia do poder presidencial no país luso: Aníbal Antônio Cavaco Silva, 71, Presidente desde 2006, com o apoio do Partido Social Democrata, do CDS – Partido Popular e do Movimento Esperança Portugal; Defensor de Oliveira Moura, 65, independente, deputado do Partido Socialista; Francisco José de Almeida Lopes, 55, pelo Partido Comunista Português e pelo partido ecologista “Os Verdes”; José Manuel da Mata Vieira Coelho, 58, deputado pelo PND e apoiado pelo partido Nova Democracia; Manuel Alegre de Melo Duarte, 74, apoiado pelo Partido Socialista, pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses; e Fernando de La Vieter Ribeiro Nobre, 60, candidato independente. No domingo, a cidade de Lisboa estava calma, nem parecendo que estávamos num dia de eleições. A temperatura oscilava entre 6 C° e 8º. Em Madragoa, São Bento, Alto do Pina, no Chiado, Rossio, Belém e outros bairros da velha Lisboa, o ambiente era de total silêncio em relação às eleições. Nas sessões eleitorais, o clima era de plena tranqüilidade e a conversa era só uma, a abstenção em massa. Tentei mostrar a alguns eleitores a importância da participação popular no processo de escolha do Presidente da República.
Lisboa, vista do Rio Tejo |
Replicando, alguns disseram que não adiantava nada, porque o presidente se comportava como um monarca inglês. Não mandava em nada, alternando o comando do Estado, entre o primeiro-ministro, que é o chefe do governo, Banco Central Europeu, responsável pela moeda única da zona euro, e que na sua missão de assegurar o poder de compra da moeda, prejudicava imensamente a soberania do estado português, e, ainda, o parlamento europeu, que é quem dita as normas aos países do continente. Outros, porém, concordavam em votar. A cidadania exige a participação ativa do cidadão na vida do seu país, do seu estado, do seu município, do seu condomínio, em todos os campos da atividade humana. O voto, por sua vez, possui uma simbologia singular, que é o de oportunizar ao cidadão a participação nos destinos da sua comunidade, de sua nação, e de sua história. Portanto, o estado democrático só se concretiza com a verdade eleitoral, ou seja, a participação dos eleitores no processo de escolha dos seus representantes. Daí a minha surpresa com o resultado das eleições. A abstenção foi histórica: 53,37% dos portugueses não foram as urnas, permitindo que a minoria reelegesse o Presidente Cavaco Silva que, dos 46,63% dos votantes, obteve a vitória esmagadora de 52,94% contra 47,1% de todos os cinco candidatos juntos.
José Sócrates 1º Ministro Português |
Os analistas afirmam que um dos motivos da abstenção foi a entrada em vigor do cartão único, ou cartão do cidadão, que dentre outros números, modificou o do título eleitoral, o que dificultou a sua procura pelo eleitor, fazendo com que muitos desistissem de cumprir o seu dever de votar. Quanto ao vencedor, Cavaco Silva, reeleito para a presidência de Portugal, somente terá desafios pela frente num país que viu decrescer a atividade econômica em 2010, prenunciando uma crise de grandes proporções. No mês de abril, segundo os analistas, quando se conhecerem os dados da execução orçamentária do primeiro trimestre, é que poderá ocorrer uma reviravolta na política portuguesa, falando-se até na dissolução da Assembléia da República, cuja minoria socialista com o apoio dos sociais-democratas administram o País na pessoa de José Sócrates, o primeiro-ministro. Sim, antes que esqueça, nos termos da Constituição Portuguesa, o regime lá é semipresidencialista. A administração do Estado é feita pelo governo, representado por um primeiro-ministro, que é nomeado pelo Presidente da República, tendo em conta os resultados das eleições para a Assembléia da República e o nome é indicado pelo partido mais votado nesse escrutínio. O nome de José Sócrates foi escolhido justamente porque a oposição à Cavaco Silva foi a vitoriosa nas eleições da Assembléia da República nas últimas eleições.
Defensor Moura O lanterninha das eleições |
Mas, afora isso, fiquei impressionado com o depoimento de Defensor Moura, o lanterninha, que obteve apenas 1,6% dos votos: “não felicito quem ganhou”. Em política é preciso saber perder, saber, inclusive, morrer. Dizia Churchill: “Política e guerra são igualmente excitantes e perigosas. Acontece que, na guerra, morremos uma única vez, enquanto que, na política, morremos inúmeras”. Esse é o inevitável problema da política: saber morrer. Churchill soube. E é isso que distingue os fracos dos fortes. Estes aceitam a derrota, mesmo que injusta; aqueles não a querem, mesmo quando a merecem. Todos sabem que se não fosse Churchill, o mundo hoje poderia estar nas mãos do nazi-facismo. Todavia, Churchill venceu a guerra. Com a derrota da Alemanha, em 1945, o planeta retomou seu curso e Churchill, vitorioso, candidatou-se à recondução como premiê, na certeza de que o parlamento inglês reconheceria sua grandeza. Mas, ele perdeu. Sobreviveu à grande guerra, mas morreu (temporariamente) na política, perdendo o pleito para o trabalhista Clemente Attlee. O que fez Churchill? Xingou Attlee? Não. Digeriu a derrota e recolheu-se. O resto da história todos sabem, Churchill concluiu a sua obra (Memórias da 2ª, Guerra Mundial), o que lhe rendeu o Nobel em 1953. Concluindo, com a sua derrota, Churchill também saiu vencedor. Tanto que, em 1951, já com 76 anos, retomou ao cargo de primeiro-ministro. É assim que as coisas funcionam na política.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 30 e 31 de janeiro de 2011, Caderno A, p. 7.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Maysa - Viver, sofrer e amar demais
Grandes personalidades
Já saturada de apresentações e sentindo que o momento era de músicas diferentes, Maysa decidiu passar uma temporada na Espanha. Voltou em 1969, quando fez um antológico show no Canecão. O público exigiu que ela retornasse oito vezes ao palco. A revista Visão escreveu, na semana seguinte: “Quando sua voz quente, rouca, inapelável se estendeu, abraçando o Canecão inteiro, houve o silêncio. Nem um som, nem o menor ruído, nem o gelo de milhares de copos ousavam sequer tilintar”. Depois que separou-se de Miguel, conheceu o ator Carlos Alberto, com quem se casaria mais uma vez. O casal foi viver em Maricá, cidade em que Maysa ficaria até o fim da vida. O casamento lhe fez beber menos, e sua alegria lhe traria de volta a beleza arrebatadora. Também voltou a gravar discos e a participar de novelas. Mas a relação aos poucos foi se desgastando, até a separação, em 1975. A melancolia e o medo da solidão voltavam a assombrá-la.
Republicado do site: http://www.novo.almanaquebrasil.com.br/categoria/ilustres-brasileiros/
Maysa
Viver, sofrer e amar demais
Escrito por Bruno Hoffmann
Ela abandonou o lar – num tempo em que isso era um escândalo – para seguir o sonho de ser cantora. Tornou-se dona de um dos repertórios mais melancólicos da música brasileira, interpretado com uma voz grave que virou sinônimo de dor de cotovelo. “Minhas músicas refletiram meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui compor nada alegre.”
Catedral da Sé, em São Paulo, estava cheia de pompa naquela tarde de janeiro de 1955. A família Monjardim, uma das mais importantes do Espírito Santo, dava a mão de uma jovem de 17 anos a André Matarazzo, sobrinho do conde Francesco Matarazzo, um dos homens mais ricos do Brasil. A moça entrou na igreja com um vestido de cetim italiano branco, adornado por pérolas, e foi clicada por ávidos fotógrafos de colunas sociais. Era o enredo de um conto de fadas para boa parte das moças da época. Porém, mais tarde, todos descobririam que Maysa Figueira Monjardim era diferente. Logo depois romperia o casamento, se lançaria como uma das cantoras mais singulares do Brasil, encantaria multidões e seria vítima de desamores e angústias sem fim. A mulher dos enormes e profundos olhos verdes seguiria sua trajetória, como diz a música de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, famosa em sua voz, para “viver, sofrer e amar demais”.
Nascida em berço de ouro, desde cedo Maysa surpreendia quem se acercava, por seu jeito sincero e corajoso. Na adolescência, era arteira e namoradeira, mas também apresentava tendências à depressão. Nessa época, já tirava algumas notas ao piano. A primeira composição, com apenas 12 anos, revelava seu estado de espírito não muito otimista. Era Adeus, que mais tarde gravou em disco. O namoro com André Matarazzo começou quando tinha apenas 15 anos. Ele era bem mais velho – tinha pouco mais do dobro de sua idade. Depois do casamento, a vida do casal começou a ficar cada dia mais atribulada. Ela queria levar à frente a carreira de cantora. Ele não gostava nada da idéia. Até que um produtor a ouviu cantar numa festa caseira e se encantou com sua voz rouca e sedutora. Insistiu para que gravasse um disco. O marido cedeu, mas exigiu que a capa não trouxesse seu sobrenome e nem a foto da cantora. Assim foi, mas o disco logo começou a fazer sucesso e o casamento a ruir, até Maysa ir para o Rio e confidenciar ao pai: “Não volto mais”. Ser dondoca não era seu projeto. Com o André, teve seu único filho, o hoje diretor da Globo Jayme Monjardim.
Nasce a cantora
No Rio de Janeiro, Maysa passou a apresentar-se em boates, entoando composições próprias. Era raro mulher compor à época. Logo gravaria outros discos, e o sucesso foi aumentando. Entre as canções emblemáticas, Meu Mundo Caiu, Agonia, Tarde Triste, Felicidade Infeliz, Pedaços de Saudade, além de uma magistral versão de Ne Me Quitte Pas. Mas ela se incomodava com a marcação cerrada da imprensa. Como constata a biografia Maysa – Numa Só Multidão de Amores, de Lira Neto, não houve um só dia de 1958 em que não saiu nada sobre a cantora em jornais paulistas e cariocas. Além da carreira em boates do Rio, Maysa começou a se apresentar no exterior, a comandar programas de tevê, a participar de filmes como atriz. Tamanha pressão fez com que bebesse cada dia mais. Também costumava tomar remédios para emagrecer, que lhe pioravam o humor. Mais tarde, admitiria que aquela fora uma das fases mais turbulentas de sua vida.
As músicas eram uma saída para desvelar sua personalidade melancólica. “Minhas composições sempre refletiram meu estado de alma, minha tristeza e solidão. Nunca consegui compor nada alegre”, confessou ela, autora de mais de 50 canções. Para Manuel Bandeira, seus grandes olhos verdes eram “dois oceanos não pacíficos”. Os relacionamentos amorosos tinham a mesma intensidade da carreira de Maysa. Uma de suas grandes paixões foi o então jornalista Ronaldo Bôscoli, que conheceu em 1961. Até mudou o repertório para gravar um disco só de bossas dele e de Roberto Menescal. Os dois seguiram juntos para uma turnê em Buenos Aires, mesmo com Bôscoli mantendo um relacionamento sério com Nara Leão. O clima foi apaixonado, mas também houve brigas homéricas em restaurantes e hotéis. Na volta, Bôscoli estava decidido a ficar só com Nara. Mas não esperava que Maysa fosse capaz de fazer tudo por amor. Ainda no aeroporto do Galeão, convocou a imprensa e disparou: “Quero anunciar que vou me casar com Ronaldo Bôscoli”. O sujeito não soube o que fazer. Nara, sim, e o relacionamento acabou para sempre. A história de Bôscoli com Maysa, porém, se manteria, entre indas e vindas, durante mais alguns anos, mesmo após ela se casar com o espanhol Miguel Azanza. Quando descobriu que o jornalista compositor iria se casar com Elis Regina, Maysa encontrou a cantora num bar e esbravejou: “Gauchinha, você não canta porra nenhuma”, e quase acertou-a com uma garrafa de uísque. Mais tarde, afirmou: “A Elis é a melhor cantora do Brasil”.
“Sou uma mulher só”
Acidente que matou Maysa Ponte Rio-Niterói |
No comecinho de 1977, recebeu a notícia de que seria avó. Encheu-se de alegria pela novidade, mas continuava triste com todas as outras coisas da vida. Para piorar, os remédios que tomava para emagrecer não a deixavam dormir há dias. Entrou em sua Brasília e seguiu do Rio para Maricá. Mas não conseguiu completar a travessia da ponte Rio-Niterói. O acidente, em 22 de janeiro de 1977, abreviava a vida de uma das personalidades mais singulares da música brasileira. No seu diário, uma das últimas anotações foi: “Tenho 40 anos. 20 de carreira. Sou uma mulher só. O que dirá o futuro?”.
SAIBA MAIS
Maysa, de José Roberto Santos Neves (Mauad, 2008). Caixa de DVDs da minissérie Maysa – Quando Fala o Coração (2009), dirigida por Jayme Monjardim.
Republicado do site: http://www.novo.almanaquebrasil.com.br/categoria/ilustres-brasileiros/
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Adendo
Meu Mundo Caiu
Composição: Maysa
Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim
Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí
Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar
Mata Escura (VII)
Crimes que abalaram Sergipe
Mata Escura (VII)
Acrísio Torres
Era noite quando retornou à cadeia o reverendo Aires da Mata. Procurou persuadir Mata Escura a receber os socorros da religião. - Devia confessar-se, insistiu. Mas o condenado persistiu na recusa. Deu a entender, porém, de que talvez o desejasse no outro dia. Retirou-se o velho sacerdote. Fez-se um curto silêncio, que Mata Escura interrompeu dirigindo-se aos guardas. Pedira-lhes charutos. Fumou-os demoradamente. – Preciso dormir – disse o bandido. Atirou o resto do charuto a um canto da cela e deitou-se no duro leito de palha. Logo adormeceu. E, no mais fundo do seu ser, desejou não mais despertar. Tudo caiu no mais completo silêncio. A noite avançava, fria, escura, cheia de expectativas. Um dos guardas também havia adormecido. Eram quatro horas da madrugada quando Mata Escura espertou.
Não pôde mais dormir. Acendeu um charuto e recomeçou a fumar, sentado no velho catre. Havia uma decisão nos seus olhos, que se escoavam através da pequena grade da cela. Nuvens passavam lentamente. Eram seis horas da manhã. Os guardas perceberam a fisionomia mudada do condenado. Aproximaram-se e lhe indagaram se desejava alguma cousa. Talvez se tivesse decidido à confissão. Mata Escura voltou-se para os dois guardas com olhos de contrito. Desprendeu duas longas e meditativas baforadas do charuto. Depois, começou a falar de seus crimes. – Mandem vir um padre – disse. Pouco depois se achava junto ao condenado o reverendo Aires da Mata. Escutou-o em demorada confissão. Terminada a confissão, ministrou-lhe os sacramentos. Ao receber os sacramentos o bandido sorriu ligeiramente.
Não pôde deixar de compreender o contraste entre seus crimes e aquele ato de santificação da alma. Nasceu-lhe a dúvida. Entretanto, depois da confissão e sacramento Mata Escura tornou-se outro. Transformou-se-lhe o espírito. Havia agora uma certa resignação nas suas palavras, nas suas atitudes. Fumava continuamente. No entanto, nada mais disse, senão poucos momentos antes de se encaminhar ao patíbulo. Parecia meditar acerca de seus crimes. Um dos guardas perguntou ao condenado se queria alguma cousa para comer. Mata Escura respondeu sem olhar o vigia, como se não desejasse interromper os seus pensamentos. – Quero, para me sentir mais forte. O famoso bandido tinha na mente a horrível visão do patíbulo. Comeu pouco. Todavia, bebeu diversos copos de vinho e voltou a fumar.
Deixava-se dominar mais e mais pelas suas reflexões. Não tinha mais dúvida do fim próximo. Talvez pensasse em transformar as horas que lhe restavam em advertências aos que sonhassem seguir os seus passos. Pouco depois, a pedido do condenado, retornava a sua cela o reverendo Aires da Mata. Tivera a lembrança de escrever à mãe, em Capela. Pedira ao reverendo a cópia de uma carta. O velho sacerdote indagou à autoridade policial se isso era permitido. Não havia impedimento em lei. E, deste modo, ouviu do condenado em que sentido queria que escrevesse. Preparada a cópia, foi lida pelo reverendo, que logo depois se retirou. Mata Escura pediu ao cabo do destacamento que a reproduzisse, pois não sabia ler nem escrever. Enquanto o cabo reproduzia a carta ficou o bandido a refletir nos seus termos.
Escrevia à mãe da cela aonde o conduziram os seus crimes. – Os meus numerosos crimes, pensava amargamente. Na minuta o reverendo não se limitara ao desejo do condenado. Este o compreendera. Havia sido levado ao crime pela má educação dada pelos pais, principalmente pela mãe. O seu triste destino era um exemplo a ela para melhor saber educar os outros filhos. Tinha o pensamento no futuro dos irmãos. Não podia conceber pudessem eles palmilhar como ele a senda do crime. Lembrara também haver sido conduzido ao crime pelo patronato de ricos senhores. Servira-lhes de instrumento para assassinar. E advertia os irmãos a que não se deixassem enganar por esses desalmados senhores.
(*) - Do livro Sergipe/Crimes Políticos I, Cenas da vida sergipana 2, autoria de Acrísio Torres, Thesaurus Editora, prefácio do jornalista Orlando Dantas, páginas 86 e 87.
- Nova postagem de cenas da vida sergipana no dia 1º de março de 2011. Vai concluir a saga do criminoso Mata Escura, ainda do tempo do império, a caminho do patíbulo, onde paga, enforcado, pelos crimes cometidos, tudo de acordo com o autor e obra acima.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Banho de Civilização
Artigo pessoal
Banho de Civilização
Clóvis Barbosa
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Le Procope, o mais antigo café de Paris |
Pois bem, vim tomar esse “banho de civilização” numa fase crítica da economia européia, onde na Espanha e Portugal os salários estão sendo reduzidos, na Inglaterra os servidores públicos demitidos e o desemprego atingindo índices preocupantes. Fui a Madrid, Paris, Barcelona e hoje estou em Lisboa testemunhando as eleições presidenciais. Em Paris, vi a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, o antigo Hotel Ritz, a Champs-Elysées, o museu do Louvre, de Versalhes, a Igreja de Notre Dame e outros pontos turísticos da bela Paris e pronto. Não estava muito interessado. O meu tesão estava voltado para um local parisiense: Montparnasse. Neste local, a década de 1920 foi efervescente. Pelas suas ruas, residências, cafés, bares, restaurantes, desfilaram grandes pintores, escritores, revolucionários, escultores, poetas, enfim, artistas de vários matizes, vagabundos e a boemia parisiense. Queria sentir o cheiro de Kiki de Montparnasse, a grande musa, o odor alcoólico e o extraordinário humor de Ernest Hemingway (você não dá para andar com Ernest!), a dramaticidade de Cocteau, o existencialismo de Sartre e Simone de Beauvoir, os narizes empinados de Scott e Zelda Fitzgerald, o narcisismo de Ezra Pound, a pantera na coleira de outra pantera, Josephine Baker, com seus seios à mostra, o talento para ganhar dinheiro de Coco Chanel, a beleza de Jeanne Hébuterne, o último grande amor de Modigliani, as brincadeiras de Francis Picabia e Tristan Tzara, a cumplicidade entre Gertrude Stein e Alice Toklas, a paixão pelas “pequenas mulheres” francesas de E. E. Cummings e John dos Passos, a chatice de James Joyce e as taras de Salvador Dali e Pablo Picasso. Era a Paris dos anos doidos.
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La Coupole em 1927 |
Para começar, hospedei-me num hotel situado no bairro chamado Alésia, com estações do metrô próximas ao complexo Montparnasse, que envolvia os seguintes locais: Falguiére, Pasteur, St. Placide, Denfert Rochereau, St. Jacques, Mouton Duvernet, Raspail, Gaité, Edgar Quinet, Vivan e o St-Germain-Des-Prés. Deixei o metrô e fui caminhando, como diria Chico Buarque, pela Avenue Maine e cheguei em Gaité. Pronto, estava no complexo Montparnasse. Entrei no La Coupole. Claro, não perguntei mas deu vontade: quais eram as mesas que Jean Paul Sartre e Josephine Baker sentaram? Apesar de uma reforma ocorrida em 1980, os assentos de veludos da década de 20 permaneciam no local. Fui no La Closerie de Lilas. Lá foi onde Hemingway escreveu grande parte do livro “O Sol também se Levanta” e onde o livro auto-biográfico de kiki de Montparnasse, com o seu prefácio foi lançado, onde a sua compra dava direito a receber um beijo da autora, o que transformou Montparnasse numa loucura, com gente por todos os lados. Lá também era freqüentado por Lenin, Trotski e Scott Fitzgerald. Segundo pude constatar, boa parte da decoração original encontra-se presente. Fui no St-Germain-Des-Prés e lá visitei três lugares: a escultura de Picasso homenageando o poeta Guillaume Apollinaire, perto do Café de Flore, local preferido de Sartre e Beauvoir, o Les Deux Magots, também freqüentado por artistas da época, onde tomei um cafezinho. E o Le Procope, um café, dizem, fundado em 1686 e onde o filósofo Voltaire tomava 40 xícaras de café com chocolate por dia. Nesses três cafés fiz questão de adentrar e sentir a sua energia que me levava ao período de 1920 a 1930.
Interior de La Closerie de Lilas |
Pronto! Faz parte da minha razão de vida escrever um romance envolvendo ficção e realidade, escrevendo um livro sobre este período maluco da história parisiense. Vou a Paris de 1920. Vou mostrar a Hemingway que eu dou para andar com ele. Vou ter, evidentemente, que me conter no álcool. Bebo muito pouco. Uma garrafa de vinho, no máximo. Agora mesmo estou escrevendo no hall do hotel tomando um vina salceda, rioja crianza 2006, de 16 euros. Vou convidar para ir comigo Carlos Alberto Menezes, professor e criminalista, Zoroastro, o Zorô, jornalista, João Ubaldo Ribeiro, escritor, Ângêla e seu marido comandante da ex-Varig, o sobrinho da cantora Maiza Matarazzo, o escritor português Saramago (sim, eu sei que ele morreu em 2010), um amigo de Zorô, herdeiro de vários imóveis do Rio de Janeiro, o poeta Araripe Coutinho, com a sua extraordinária língua "plesa", Luiz Eduardo Oliva, da Segrase, e o professor Cabral do Departamento de Educação Física da Ufs. Vamos sair do Rio de Janeiro de avião e vamos desembarcar na estação ferroviária de Lion (?). A aventura vai começar justamente nessa estação. Vamos de metrô para a Gare Montparnasse. Lá, as cortinas se abrirão e um novo cenário surgirá. A primeira guerra mundial (1914-1918) e a revolução bolchevista (1917), serão acontecimentos recentes. Vamos chegar exatamente no dia em que Kiki de Montparnasse estará lançando o seu livro autobiográfico com prefácio de Ernest Hemingway. A compra do livro faz com que o comprador receba um beijo de Kiki. O La Closerrie de Lilas está cheio de gente, todos querendo receber um beijo da musa de Salvador Dali, Modigliani e Picasso. Eu e meus amigos, estaremos recebendo um banho de cultura.
- Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de domingo e segunda-feira, 23 e 24 de janeiro de 2011, Caderno A, p. 7.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Churchill, Visionário. Estadista. Historiador
O que estou lendo?
Churchill
Visionário. Estadista. Historiador.
Autor John Lukacs
Jorge Zahar Editor
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Contra Capa
Em 1940, Winston Churchill foi o homem que não perdeu a Segunda Guerra. Ainda hoje, mais de quarenta anos após sua morte, Churchill ocupa um lugar de destaque no cenário político mundial. Este livro não é uma biografia tradicional. Com a autoridade de quem dedicou a vida a estudar a personalidade e a condição de Churchill como estadista, John Lukacs lança nova luz sobre aspectos pouco conhecidos ou pouco explorados da vida e da carreira política de Churchill, sugerindo ainda tópicos para futuras pesquisas.
A relação de Churchill com Stalin, Roosevelt e Eisenhower, por exemplo; ou o como e o quanto sua natureza de historiador fez dele um estadista melhor. Lukacs investiga também a impressionante capacidade visionária de Churchill - que, vista em retrospecto, nos mostra o quanto ele anteviu o advento da Segunda Guerra e da Guerra Fria - e sua posição a respeito da integração da Europa. E nao se omite a respeito de fracassos e críticas.
O último capítulo é uma forte e comovente evocação dos três dias que o autor passou em Londres para o funeral de Churchill, em 1965. Pelo prisma de diversos personagens anônimos ou conhecidos, que assim como ele participaram daquele momento histórico, Lukacs oferece um último tributo ao lugar de Churchill na história. Lúcido e instigante, este livro é uma admirável mistura de talento literário com inteligência critica, inabalável apreço pelo que Churchill fez para deter o mal de Hitler e compreensão perspicaz de sua personalidade. Uma leitura indispensável.
O Autor
John Lukacs

John Lukacs lecionou história no Chestnut Hill College, na Filadélfia, até aposentar-se e é professor visitante de diversas universidades. É autor de mais de vinte livros, com destaque para Cinco dias em Londres e O Duelo: Churchill x Hitler, ambos publicados com sucesso por esta editora. Recebeu vários prêmios e distinções acadêmicas
Mata Escura (VI)
Crimes que abalaram Sergipe
Mata Escura (VI)
Acrísio Torres
Talvez Victor Hugo tenha razão ao afirmar que “a sociedade, eis a assassina, os vícios, eis os ladrões”. É necessário prevenir a criminalidade. Nada parece mais eficaz para essa prevenção que a educação do homem, no sentido de torná-lo um ser social melhor. Na cadeia de Itabaiana, Mata Escura foi recolhido a uma cela pequena e sórdida. Sobre uma mesa foi posta uma imagem de Cristo crucificado. Duas velas foram acesas. Mata Escura sentou-se no duro catre. Tinha o espírito mergulhado em reflexões amargas. Nesse momento, dele se aproximou um velho vigário, que lhe devia prestar as consolações espirituais. O condenado levantou os olhos para o velho vigário. Recusou os seus serviços, que lhe pareciam inúteis. Estava cansado, disse, e pediu que deixasse para outro dia os consolos espirituais.
Victor Hugo |
(*) - Do livro Sergipe/Crimes Políticos I, Cenas da vida sergipana 2, autoria de Acrísio Torres, Thesaurus Editora, prefácio do jornalista Orlando Dantas, páginas 86 e 87.
- Nova postagem de cenas da vida sergipana no dia 22 de fevereiro de 2011. Vai continuar abordando a saga do criminoso Mata Escura, ainda do tempo do império, a caminho do patíbulo, onde iria pagar, enforcado, pelos crimes cometidos, tudo de acordo com o autor e obra acima referida.
Adendo
Muitos leitores do blog têm questionado sobre a aplicação da pena de morte ao criminoso Mata Escura. Observem que estamos nos referindo ao período do império, onde o Brasil era colônia de Portugal. À época, a nossa legislação era regida pelas chamadas ordenações reais, ou sejam, as afonsinas, as manuelinas e finalmente, as filipinas. Previa-se a pena de morte. Para uma melhor compreensão do assunto, segue, abaixo, matéria esclarecedora sobre o assunto:
HISTÓRIA DO DIREITO
Ordenações Filipinas
considerável influência no direito brasileiro
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O sistema jurídico que vigorou durante todo o período do Brasil-Colônia foi o mesmo que existia em Portugal, ou seja, as Ordenações Reais, compostas pelas Ordenações Afonsinas (1446), Ordenações Manuelinas (1521) e, por último, fruto da união das Ordenações Manuelinas com as leis extravagantes em vigência, as Ordenações Filipinas, que surgiram como resultado do domínio castelhano. Ficaram prontas ainda durante o reinado de Filipe I, em 1595, mas entraram efetivamente em vigor em 1603, no período de governo de Filipe II. Não houve inovação legislativa por ocasião da promulgação da Ordenação Filipina, apenas a consolidação das leis então em vigor. O foco eram casos concretos reduzidos a escrito, isto é, essa legislação estava muito distante do tipo de consolidação que se deu na França no início do século XIX, como conseqüência da Revolução Francesa, na qual se baseiam os nossos atuais códigos, que buscam sanar as contradições, repetições e lacunas - as consolidações da época mal tinham uma parte geral, com regras abstratas. Além disso, como não era intenção de Filipe I e Filipe II, castelhanos que circunstancialmente governavam Portugal, impor novas leis a esse povo, aproveitaram-se das normas já existentes, optando por não corrigir as contradições e lacunas anteriormente existentes. A norma editada seguia a estrutura dos Decretais de Gregório IX, dividindo-se em cinco livros que continham títulos e parágrafos: (I) Direito Administrativo e Organização Judiciária; (II) Direito dos Eclesiásticos, do Rei, dos Fidalgos e dos Estrangeiros; (III) Processo Civil; (IV) Direito Civil e Direito Comercial; (V) Direito Penal e Processo Penal. Destaca-se o livro II, que demonstra a principal característica dos direitos do Antigo Regime, ou seja, a existência de normas especiais para cada uma das castas que compunham a sociedade daquele período.
Como os costumes que imperavam à época eram muito variados e locais, a regra que vigorava nos julgamentos era, sempre que possível, seguir a jurisprudência do mais alto tribunal do Reino - a Casa de Suplicação. Construía-se, assim, uma forma de buscar uniformidade nas decisões e, em última instância, fortalecer o poder central em detrimento dos vários poderes locais. Nos casos a serem julgados e que não estivessem previstos nas Ordenações Filipinas, casos omissos da legislação nacional, aplicavam-se subsidiariamente (i) o direito romano (Código de Justiniano), a partir das glosas (interpretações) de Acúrsio e das opiniões de Bártolo ou (ii) o direito canônico. Este último invocado quando estivesse em voga o pecado, como nos casos de crimes de heresia ou sexuais. Portanto, para julgar os casos que a eles chegassem, os tribunais deveriam ter à sua disposição o texto das Ordenações, o Corpus Iuris Civilis de Justiniano (glosas de Acúrsio) e os textos de Bártolo. Na falta de qualquer solução a partir dessas fontes, e não fosse o caso passível de ser avaliado pelos tribunais eclesiásticos, deveria ser remetido ao rei. A decisão proferida pelo rei passava a valer como lei para outros feitos semelhantes. As penas previstas nas Ordenações Filipinas eram consideradas severas e bastante variadas, destacando-se o perdimento e o confisco de bens, o desterro, o banimento, os açoites, morte atroz (esquartejamento) e morte natural (forca). Mas, como típica sociedade estamental da época, não poderiam ser submetidos às penas infamantes ou vis os que gozassem de privilégios, como os fidalgos, os cavaleiros, os doutores em cânones ou leis, os médicos, os juízes e os vereadores.
Há de salientar que a aplicação do direito no vasto espaço territorial do Brasil-Colônia não fazia parte das preocupações portuguesas, já que o objetivo da Metrópole era principalmente assegurar o pagamento dos impostos e tributos aduaneiros, mas mesmo assim as Ordenações Filipinas foram a base do direito no período colonial e também durante a época do império no Brasil. Foi a partir da nossa Independência, em 1822, que os textos das Ordenações Filipinas foram sendo paulatinamente revogados, mas substituídos por textos que, de certa forma, mantinham suas influências. Primeiro surgiu o Código Criminal do Império de 1830, que substituiu o Livro V das Ordenações; em seguida foi promulgado, em 1832, o Código de Processo Criminal, que reformou o processo e a magistratura; em 1850 surgiram o Regulamento 737 (processo civil) e o Código Comercial. Os Livros I e II perderam a razão de existir a partir das Revoluções do Porto em 1820 e da Proclamação da Independência brasileira. O livro que ficou mais tempo em voga foi o IV, vigorando durante toda a época do Brasil Império e parte do período republicano, com profundas influências no nosso atual sistema jurídico. As Ordenações, portanto, tiveram aplicabilidade no Brasil por longo período e impuseram aos brasileiros enorme tradição jurídica, sendo que as normas relativas ao direito civil só foram definitivamente revogadas com o advento do Código Civil de 1916. O estudo do texto das Ordenações Filipinas é salutar para a compreensão de boa parte dos nossos atuais institutos jurídicos.
Jornal Carta Forense, segunda-feira, 4 de setembro de 2006, in http://www.cartaforense.com.br/Materia.aspx?id=484.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Luiz Fux - Novo Ministro do STF
Notícias Jurídicas
Fux por Fux
A biografia do novo ministro do STF, contada por ele
O depoimento autobiográfico, a seguir, foi dado pelo ministro Luiz Fux ao portal de internet da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para o projeto "Faculdade de Direito da UERJ — 70 Anos de História e Memória". A presidente Dilma Rousseff escolheu o ministro para ocupar a vaga de Eros Grau no Supremo Tribunal Federal. A indicação foi publicada na Seção 1 do Diário Oficial da União (DOU) nesta quarta-feira (2/2). Ele será sabatinado pelo Senado Federal.
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